4.3 Frequency approach
4.3.1 Formulation
A morte fez sua entrada em cena de formas variadas. Em alguns casos, foi de maneira abrupta, inesperada, causando choque e desespero agudo nos agora viúvos, embora a reação deles fosse de um modo quase sempre silencioso, “sem escândalo”. Em outros, a morte chegou paulatinamente, quase mansa, como se estivesse preparando ou dando tempo para as pessoas envolvidas fazerem suas despedidas finais. Em ambos os casos, porém, a dor esteve presente, pois, na maioria das vezes, esta é companheira inseparável daquela.
O debate sobre qual tipo de morte é mais dura ou difícil de lidar, por quem fica, após a perda de alguém significativo, tem mobilizado meios sociais laicos, sejam midiáticos ou conversacionais, e científicos. Por um lado, a morte súbita seria muito surpreendente e, provavelmente, deixaria “coisas inacabadas” em várias esferas da vida do casal; por outro lado, a morte com sofrimento prolongado poderia exaurir o cuidador, se este não tivesse ajuda freqüente de outras pessoas. Para Lopata (1996: 72), que considera ambas as posições como
mito, as experiências são tão diferentes quanto não podem ser comparadas em termos de graus
de problemas para os sobreviventes. Segundo a autora, a consternação experimentada vai depender de fatores diversos e/ou em diversas combinações, como causa ou circunstâncias da morte, idades dos cônjuges ao evento, relacionamento interpessoal ou envolvimento emocional do casal, religião, etnicidade, raça, educação, classe socioeconômica, saúde, composição de moradia e estilo de vida (p. 72-73). Convém lembrar que muitos estudos de Lopata ocorreram na década de 1970, utilizando metodologia sociológica: os achados devem ser vistos sob este prisma, com especial reserva a generalizações indevidas.
Eu estudei viúvos de camadas médias nas duas situações, sempre sob a perspectiva antropológica. Anteriormente, viúvas lidando com a morte súbita (Lago-Falcão, 2003: 111- 116); agora, viúvos enfrentando também a morte súbita ou aquela com agonia prolongada. E não vi diferença significativa, unicamente considerando o tipo de morte, fosse rápida ou demorada. Mesmo porque, como é visto em Renato:
- NESSE MOMENTO, a gente realmente percebe que a esperança é a ÚLTIMA QUE MORRE! Até o último SOPRO DE VIDA, você tá ALIMENTANDO a esperança da = DA VIDA, né?, DA CURA! (E04: 11).
Ou, nas palavras de Roberto (E01: 10), numa avaliação e num olhar psicologizado das camadas médias, mas também pelo seu treinamento profissional: “POR MAIS QUE VOCÊ SAIBA (.) DA MORTE, suas pulsões são de VIDA”. Nesta perspectiva, a própria Lopata (1996: 75) cita uma pesquisa de Roach & Kitson, onde estes autores concluem que não há nenhum efeito significante na experimentação da aflição ou na tensão psicológica devido à morte, quer haja advertência/aviso ou prolongamento/demora pela doença, porque, nesta última, as esposas mantêm a esperança na cura até o momento da morte; mesmo assim, para aqueles estudiosos, as mulheres que estavam preparadas para a morte do marido tinham menos distúrbios psicológicos posteriores do que as que não estavam.
Embora outras considerações sejam acrescentadas no decorrer dos capítulos seguintes, parece-me ainda que o fator isolado mais preponderante para o pesar, na perda por morte, seja mesmo a qualidade da relação conjugal, embora, como já foi dito, uma perda em si enseja a vivência de luto. Então, vejamos o que outros informantes falam. Primeiramente, através daqueles que experienciaram a morte súbita; depois, daqueles que vivenciaram a morte com agonia prolongada.
4.3.1 -VIÚVOS DE MORTE SÚBITA
Começo com Roberto (E01). Embora sua esposa tivesse decidido “esticar a corda”, quer dizer, não se submeter a tratamentos que ambos sabiam serem não resolutivos para o tipo de doença que portava, com grande probabilidade de ficar com seqüelas inadmissíveis para ela, a morte veio de forma súbita. Ele estava em sua casa, quando recebeu o primeiro telefonema - a esposa se encontrava em outro Estado do país - , e relata esses momentos iniciais, assim:
- Mas aí, eu tomando banho:: Só que = sabe quando uma coisa não pára? Tim, Diiim, Diiim!!! Aí eu tomei banho, terminei:: (.) Aí:: Telefone novamente tocando, aí era:: um amigo: “_Olha, Roberto, (.hh) teve um probleminha cum Roberta”. Aí, eu: “_Morreu!” Aí, ele falou: “_Não, não. Morreu não, passou mal, tá no hospital”. Eu falei: “_Tá em coma.” Ele: ”_É, num tá consciente, mas num tá::” QUERENDO MITIGAR, né? (...) Aí, vai
todo mundo pro aeroporto. (.hhh) Aí, chegamos lá:: no final da tarde. Ai, quando eu entrei = Eu não SABIA que era morte cerebral. Eu vim saber quando ENTREI LÁ::: (.5) Aí, volta pra dizer isso às filhas. (...) E aí a gente trouxe::, foi TRAZER ((para Recife)). (...) Nessa = até esse instante, eu tava TOTALMENTE (3) É:: TRANSE; era = mas era um transe RACIONAL, eu tava no racionalismo. Sabia que ela IA MORRER, (.hh) eu tava (.3) controlando as coisas. Tá certo? EU TAVA tão controlado que eu disse: “_Vou na casa da minha irmã, vou tomar um banho, e, DO BANHO, eu volto pra cá!” Aí quando = quando terminei o banho, minha irmã, falou: ”_Ó, Roberta morreu!” (.3) Aí, eu (.) vou pro hospital. Que aí, (.5) (.hhh) meus amigos todos ME CERCARAM. E elas ((as filhas)) não conseguiam se aproximar de mim! Porque eu estava TO, aí eu = aí eu REALMENTE perdi, assim, (.hh) fiquei EM TRANSE = sabe O QUE É UM TRANSE? De você (.hh) conversar (.2) quase nada e de ficar assim::: CAIR O CHÃO! (Roberto, E01: 22).
No caso de Anísio, a esposa estava junto dele quando foi assassinada. Ele diz que “É AQUELA MORTE::: É A PIOR MORTE que tem! (.) Num é? Pra quem fica!!” O casal se encontrava dentro do carro, com os filhos, quando a mulher recebeu os tiros. Ao ver a esposa ferida, sua primeira reação foi mandar as crianças para dentro de casa e voltar correndo, para se dirigir ao hospital:
- Eu tava naquele PÂNICO:: (...) Aí, eu deixei ela no::: (.2) Correram pra levá-los pra dentro, e::: Eu volto pra buscá-la. (.) Entendeu? Mas NESSA ALTURA, (.2) num:: me pergunte quem, eu num me lembro. Num tá::: Alguém trouxe, levou eles também pra lá. (.2) Né? (.2) MINHA MULHER, a essa altura, JÁ TAVA MORTA, eu não sabia. Não tinha percebido. Ela não disse uma palavra. (.5) Morreu na hora! QUANDO EU SAÍ, QUE VOLTEI, ela já tava morta! (.) Foi um momento assim, que você::: (.8) ?- Perde a noção, né?
- Perde a noção de::: qualquer coisa. LEVEI::: ((para o hospital)). Veio uma, ou duas pessoas, a gente carregou, (.hh) ela entrou pra Emergência. PORQUE É BEM PERTINHO, acho que dá::: (.3) menos de cem metros. (...) a clínica quase na esquina. (.3) Então::: QUEM ESPERA UMA COISA DESSA, NÉ? (.3) Então, é aquela história, é = é:: igual:: UM ACIDENTE, é igual um::: É O INESPERADO, NÉ? (.) Quando você tá doente, você sabe que::: que espera (.) uma coisa ruim::: Mas desse jeito, você num pode::: ?- É brutal, não é?
- DEMAIS! (.) MUITO!
?- E, em seguida, tu fizeste o quê? Quando você soube, assim?
- Tem alguns::: tem algumas cenas, desse momento, que eu não me lembro, sabe? (.) Num sei se eu fiz questão de apagar::: (...) Eu me lembro que eu