9.7 Simulations globales
9.7.1 Modele de canal
“Perante cada coisa o que o sonhador deve procurar sentir é a nítida indiferença que ela, no que coisa, lhe causa” (PESSOA, 2006, p. 389). Bernardo Soares, o ajudante de guarda- livros na cidade de Lisboa, um aristocrata enfastiado como Bartleby, prescreve: “nunca sentir
40 O inapetente é aquele que se retira da doença a cada passatempo, distraído, mas é também aquele cujo diagnóstico lhe lança a falsa impressão de que o tédio não é a estância onde sempre esteve, mas apenas uma contingente falta de desejo pelo passatempo. O vagabundo ou o deprimido, o preguiçoso ou o “blasé” (Simmel), são inapetentes que reivindicam a falta de um estatuto, de um diagnóstico, de uma referência. Nesse sentido, a abundância dos nomes da acédia só faz revelar seu perigo, sua falta de lugar enquanto falta de lugar. O tédio, a negatividade, como define Agamben (1999) em seu ensaio sobre Bartleby, é uma potencialidade. Existir enquanto potencialidade não é simplesmente não ser, mas permitir a existência do não-ser. Bartleby reafirma a existência e o crescimento insuportável do nada de vontade enquanto que o diagnóstico do deprimido é sempre uma condenação de morte ao não-ser, à falta de qualidades, à sedução do negativo.
sinceramente seus próprios sentimentos, e elevar o seu pálido triunfo ao ponto de olhar indiferentemente para suas próprias ambições, ânsias e desejos; passar pelas suas alegrias e angústias como quem passa por quem não lhe interessa” (id., ib., p. 389).
Buscamos o personagem cujo autodomínio acena para a indiferença em relação a si mesmo, sua autonegação, para um trato altivo do próprio sentimento e desejo. “Indiferente porque fidalgo, frio porque indiferente”: encontraremos aquele que não tem “nem ambições nem paixões, nem desejos nem esperanças, nem impulsos nem desassossegos” (id., ib., p. 390)? Encontraremos o entediado, como em Dürer, cotovelo sobre a perna, orelha esquerda apoiada sobre as mãos: um homem sem escolha nem decisão?
Nosso personagem, porque aristocrata, elegante, portanto, não demonstra pressa: “a impaciência é sempre uma grosseria” (id., ib., p. 390). Também uma frase dita quase sem alteração pelo Príncipe de Salina. Como para o flâneur, sua melancolia tem ritmo vago e vagaroso. Se sua existência é solitária, todavia sabe povoar a solidão. Sua vontade é tornar “elegante e distinta” a vida do bairro que lhe habita, é dar “requinte e recato” às festas de suas sensações, é servir “sobriedade e cortesia” nos banquetes de seus pensamentos. (id., ib., p. 390).
A inapetência tem sua própria escrita. O fastio de Bartleby41, a acédia do homem do subterrâneo ou o tédio42 de Bernardo Soares, podem ser escritas a n-143. “Preferir não”, rejeitar o único, o saber de árvore, transcendente, de filiações, uma identidade particular: a fórmula nos lança nas possibilidades do múltiplo, na diferença, no devir-esquizo, no perspectivismo da inconstante alma selvagem. A inapetência não deixa lugar para o gosto, arrasa a linguagem e arrasta consigo os campos de identificação, de representação. Não haveria gosto porque não existiria mais um “particular” capaz de coadunar o desejo e o gozo
41Como observou Peter Pál Palbart em conferência na 27º Bienal de São Paulo: Bartleby “não foge do mundo, mas faz o mundo fugir. Do fundo de sua solidão, diz Deleuze, tais indivíduos não revelam apenas a recusa de uma sociabilidade envenenada, porém são o chamamento para um tipo de solidariedade nova. O apelo por uma comunidade por vir”.
42 Escreve Agamben: “durante toda a Idade Média, um flagelo pior do que a peste que infesta os castelos, as vilas e os palácios das cidades do mundo, abate-se sobre as moradas da vida espiritual, penetra nas celas e nos claustros dos mosteiros, nas tebaidas dos eremitas, nas abadias trapistas dos enclausurados. Acedia, tristia, taedium vitae, desídia são os nomes que os Padres da Igreja dão à morte que isso infla na alma” (AGAMBEN, 2007b, p. 21).
43 A fórmula não trata de exaltar o múltiplo - afinal “nenhuma habilidade tipográfica, lexical ou mesmo sintática será suficiente para fazê-lo ouvir.” (DELEUZE; GUATTARI, 1995, p. 14) - já que não se deveria, pois, procurar o múltiplo pela adição de uma dimensão superior, “mas, ao contrário, da maneira mais simples, com força de sobriedade, no nível das dimensões de que se dispõe, sempre n-1” (id., ib., p.14).
sob um mesmo nome. A inapetência existe apenas enquanto contraposição a uma pretensa possibilidade de gosto. Seria preciso antes dizer: afirme com a negatividade, “prefira não”.
Para nenhum outro herói da lírica de Charles Baudelaire, a acédia do gosto é tão importante como para o dândi. Desse personagem, sobrevêm as linhas mais fortes de certa inibição estética, de certa inapetência geral. Para além ou aquém da literatura, seria escusado afirmar que a frieza altiva do dândi também acinzenta nossa vida subjetiva. E como aponta Giorgio Agamben, a redução do acidioso à inocência do preguiçoso ou desleixado, é uma redução típica do diagrama capitalista: “o mal-entedido e amenização de um fenômeno, longe de significar que isso nos é remoto e estranho, pelo contrário são indícios de uma proximidade tão intolerável a ponto de a devermos camuflar e reprimir” (AGAMBEN, 2007b, p. 26).
Rico, ocioso, entediado, frio. O dândi não tem nenhuma profissão além da elegância. Nem o dinheiro, nem o amor, - “ocupação natural dos ociosos” (BAUDELAIRE, 1996, p. 52) -, nem o gosto imoderado pela elegância material apresentam-se como fim em si mesmo para o dandismo. O que está realmente em jogo é o “prazer de provocar admiração e a satisfação
orgulhosa de jamais ficar admirado”44. (id., ib., p. 53). Entediado ou mesmo sob sofrimento, o dândi sorrirá. O dandismo, reconhece Baudelaire, a todo o momento demanda um tipo de ginástica psicológica para dar traços ao ar blasé, esnobe, indolente, desinteressado, “completamente à parte” (id., ib., p. 51).
Da necessidade de combater a trivialidade “resulta nos dândis, a atitude altiva de casta, provocante inclusive em sua frieza.” (id., ib., p. 54) Tal o próprio Baudelaire, o dândi faz parte de uma nobreza decadente. Funda sua própria aristocracia sobre valores “que nem o trabalho nem o dinheiro podem conferir” (id., ib.,, p. 54) e para os quais a ascensão da democracia burguesa representa ameaça iminente. “O dandismo é um sol poente; como o astro que declina, é magnífico, sem calor e cheio de melancolia” (id., ib., p. 55). Interessa-nos, nessa incursão, o ar frio do dândi, sua “inabalável resolução de não se emocionar” (id., ib., p. 56), “como um fogo latente que se deixa adivinhar, que poderia – mas não quer – se propagar.” (id., ib., p. 56)
Sugere Walter Benjamin que os trejeitos entediados do dandismo podem ter nascido com os ingleses, cuja rede comercial sofria abalos constantes e surpreendentes: “o comerciante tinha de reagir a eles, mas não trair suas reações.” (BENJAMIN, 1975, p. 28) Os
dândis, portanto, adotaram a técnica dos comerciantes, aperfeiçoando o autodomínio burguês sob a roupagem aristocrática: “souberam conjugar a tensão com o comportamento e mímica descontraídos, até indolentes.” (id., ib., p. 28) A inapetência é uma disciplina, ou seja, é gerada por técnicas, condicionamentos. O corpo do dândi, nesse sentido, é investido por códigos para que não apenas se expresse com a frieza e civilidade, mas que essa frieza seja congelante, indolente, paralisante. O dândi é, pois, uma caricatura subversiva do homem docilizado. Por fim, é notável que esse gestual blasé esteja sempre sobrecodificado, atrelado a uma identidade: elegante, ociosa, original aqui; anoréxica, preguiçosa, deprimida ali.
Lord Byron, diz-se, durante a juventude, dedicou grande importância à sua aparência física. Enquanto ainda conquistava a fama, Byron tomou sua beleza como uma compensação: era manco. “Antes de sair para uma recepção estudava longamente, em frente ao espelho, a expressão que melhor poderia valorizar seus traços” (CARVALHO in ORLANDI, 1972, p. 26). Byron foi um dândi emblemático. Seu ar era de desdém: “todos me devem algo e ninguém me paga”, parecia pensar. “O seu ar de superioridade era aumentado pelo fato de, para esconder o andar claudicante, permanecer imóvel, durante as mais movimentadas reuniões, esquadrinhando os convidados” (id., ib., p. 26). Parecia entediado, frio, mesmo detestável, para alguns.
O apetite para Byron era um aspecto importante de seu teatro: não gostava do tabaco, mascava-o para diminuir a fome e causar impressão. Seu regime compunha-se de bolachas secas e água gaseificada. Narra Simoneta de Carvalho que, durante um suntuoso jantar oferecido por seu amigo Samuel Rogers, Byron pediu que lhe fosse servida sua refeição de costume. Na falta das bolachas e da água com gás, contentou-se com batatas avinagradas. “Os comensais, pasmados, não tiravam os olhos dele” (id., ib., p.26).
Toda inapetência parece ser teatral e o que está em jogo é falta de sinceridade do gosto: Byron, quando saiu do jantar oferecido por Rogers, foi ao seu clube, na St. James Street, e “se refez com um abundante jantar à base de carne com toda casta de acompanhamentos e bebidas” (id., ib., p. 26). A verdade do teatro é sabê-lo inescapável da vida.
Bernardo Soares e Bartleby jogam com a mesma impossibilidade, arrasam a linguagem com as mesmas ferramentas: “Nunca penses no que vai fazer. Não faças.”; “Adia tudo. Nunca se deve fazer hoje o que pode deixar de fazer amanhã. Nem mesmo é necessário
que faças qualquer coisa, amanhã ou hoje”; “Torna-te, para os outros, uma esfinge absurda” (PESSOA, ib., p. 452). Como verdadeiros aristocratas, Bartleby ou Bernardo Soares, figuras de escritório, desprezam tudo, mas não se sentem superiores ao desprezo. O desprezo inapetente não causa incômodo em quem o sente.