4.3 R´egime du couvercle stagnant
5.1.3 Temp´erature interne
Outra característica interessante, observada em nossas entrevistas, é a forma como os condutores percebem o álcool, a direção e a lei. Parece haver uma confusão entre quantidade de bebida alcoólica e o fato de poder ou não conduzir18
.
Todos os entrevistados infratores, quando interrogados sobre essa questão, pareceram acreditar que não se pode dirigir quando se está embriagado. E embriagado para eles, seria não estar em condições físicas de dirigir, ou seja, “trançando as pernas”, não conseguir ficar em pé.
As respostas se assemelham entre os infratores, por exemplo: “... eu não estava bêbada, não
estava arrastando as pernas[...]eu bebi, mas não estava sem noção...”(Joana). Para os entrevistados, beber só um pouco não influencia a forma de dirigir: “...Quando bebe só um
pouco não perde a noção não...”( José). Ou ainda na questão de Joaquim: “... beber um copo
de uísque dá sintomas de embriaguez?...” Joana nos contou que tinha bebido três copos de cerveja e provado uma caipirinha, mas não estava alcoolizada. João também nos relatou que, no dia em que sofrera o acidente, havia bebido cerveja e depois vodka, mas que também não estava alcoolizado. Ele ainda nos revelou que houve outros dias em que havia bebido mais.
Observamos certo conflito em relação à quantidade de bebida ingerida e as reações que a bebida causa em cada organismo. Porém, quando questionados em relação ao ato de dirigir, João nos disse: “...Ultrapassei alguns carros na reta e assumi a frente [...] aí, assumi
a frente de todo mundo e passei o ser o primeiro naquela fila de carros [...] eu perdi o controle...” Embora João relatasse que não havia bebido muito naquele dia (apenas cerveja e vodka) ele afirmou que a bebida havia atrapalhado um pouco, se ele não tivesse bebido “um pouquinho” ele teria freado antes. Ele acrescentou ainda que depois de beber, a sensação é de coragem, parece que dirige melhor, mas que ele se deu conta que isso é uma impressão e que, no dia do acidente, a bebida atrapalhou, sim.
Joana também nos revelou que a sensação que a bebida lhe proporcionava era de “domínio total”, que a velocidade se tornava um prazer e que se sentia uma mulher maravilha. “... a gente foi para a avenida e eu comecei a correr, correr, tentei frear e não consegui frear
o carro, perdi o controle e bati o carro no muro [...] a bebida me impulsionou a fazer coisas que não faço no dia a dia...”
José e Joaquim são menos detalhistas. José em poucas palavras falou que continua sendo um bom motorista, mesmo depois de beber. E que, quando bebe muito, ele espera passar o efeito da bebida para depois conduzir. Joaquim também afirmou que sabe até que ponto pode beber antes de dirigir e reiterou que na noite em que bateu o carro estava sóbrio, pois só havia bebido um copo de uísque. Em sua fala, ele nos revelou que o motorista que estava conduzindo o carro da frente, havia freado bruscamente e ele não conseguira parar a tempo. A culpa pela colisão, de acordo com Joaquim, foi do outro condutor e não dele. Tal procedimento confirma uma tendência “clássica” em estudos sobre comportamento no trânsito (CLARK, 1995; OLIVATO, 2002), segundo a qual as pessoas são mais críticas em relação aos outros do que em relação a si próprias, seus erros ou falhas, tendendo a ser justificados ou relativizados. Tentaremos explicar esse comportamento, baseando-nos na teoria da dissonância cognitiva de Leon Festinger (1975).
Quadro 2. Álcool e direção / cultura
Entrevistado (a)
Quantidade de álcool Relação álcool e direção Cultura do álcool
João
... fomos tomar cerveja, depois tomamos mais uma vodka...
... no dia do meu acidente eu estava bem, houve outros dias que eu tinha bebido mais...
...ultrapassei alguns carros na reta e assumi a frente...
... se eu não tivesse bebido nesse dia, eu não teria ultrapassado... e aí assumi a frente de todo mundo e passei o ser o primeiro naquela fila de carros....
... eu acho que a bebida atrapalhou...
... se eu não tivesse bebido um pouquinho, eu teria freado antes... ... eu perdi o controle...
... eu considerava que eu dirigia melhor...
...você acha que dirige melhor, você se arrisca mais....
... se eu bebo pouco, eu dou o carro para alguém dirigir, mas se bebe bastante, a sensação é de coragem, então, não quer ficar por baixo e recusa a dar o carro para outro dirigir
... normal para mim beber e dirigir...
Joana
... eu não estava bêbada, só tinha bebido um pouquinho...
... eu tinha bebido três copos de cerveja e provei caipirinha...
... eu não estava bêbada, não estava arrastando as pernas...
... eu bebi, mas não estava alcoolizada, sem noção...
... a sensação é de domínio total, a gente pensa que vai conseguir dominar o carro, mas não consegue...
... o impulso é muito grande...
... parece que a velocidade vira um prazer.... ... eu acho que a gente vira uma mulher maravilha...
... a gente foi para a avenida e eu comecei a correr, correr, tentei frear o carro e não consegui, perdi o controle do carro e bati no muro... ... a bebida me impulsionou a fazer as coisas que eu não faço no dia a dia...
... chega a ser impossível, entre quatro ou seis pessoas e apenas
uma não beber...
...parece que ninguém consegue sair e não beber...
... todo mundo enche a cara mesmo, principalmente em cidades pequenas... ... todo mundo gosta de beber e ninguém sai a pé...
... fim de semana tem que ter uma cervejinha...
José
...Quando bebe só um pouco não perde a noção não... ... quando bebo muito em alguma festa eu espero passar um pouco, depois é que vou embora...
... mesmo quando bebo uma cerveja, continuo sendo um bom motorista...
E, além disso, todo mundo bebe hoje em dia, ninguém sai à noite para um barzinho, um restaurante ou uma festa e não toma nada de álcool.
Joaquim ... bebi um 1 uísque a noite toda... ...Um copo de uísque dá sintomas de embriaguez?... ... eu sabia que tinha bebido, mas eu estava sóbrio...
...um carro que estava na minha frente freou bruscamente e não tive
tempo de parar. Bati na traseira dele... ... uma balada, bebe. É natural. todo mundo quando sai para um jantar ou ... todas as pessoas bebem e dirigem. Imagine se todas essas pessoas fossem paradas por blitz e tivessem que pagar multa?...
...Cerveja faz parte da cultura brasileira, é normal, não dá para sair e não tomar uma cervejinha.
Como expusemos, a quantidade de álcool no sangue é percebida de maneira diferente entre os condutores e os pesquisadores. Aqui, torna-se necessário lembrar alguns efeitos do álcool sobre o ser humano: acarreta uma redução da capacidade de reagir adequadamente a estímulos (reflexos); diminui a visão periférica; altera o controle corporal, causando desequilíbrio e dificuldades de marcha; aumenta a agressividade e causa sono. Tendo ação sobre todos os tecidos, o álcool exerce marcadamente seus efeitos no sistema nervoso (LIMA, 2003).
Parece existir um consenso também no que se refere ao ato de beber e dirigir. Os entrevistados nos disseram que beber fazia parte do modo de viver do jovem atualmente e, consequentemente, dirigir também. Para José e Joana, é normal beber e dirigir. “...parece que
ninguém consegue sair e não beber...” Joana acrescenta: “... todo mundo enche a cara
mesmo, principalmente em cidades pequenas [...] todo mundo gosta de beber e ninguém sai a pé [...] fim de semana tem que ter uma cervejinha...19
” Para José, nos dias de hoje, todas as pessoas ingerem bebidas alcoólicas quando vão para um bar ou restaurante. Joaquim praticamente usou as mesmas palavras de José: “... todo mundo quando sai para um jantar ou
uma balada, bebe, é natural [...] cerveja faz parte da cultura brasileira, é normal, não dá para sair e não tomar uma cervejinha...”
Observamos que os entrevistados parecem não acreditar na lei pelos motivos citados no eixo 2, mas também porque, para eles, beber se tornou algo tão naturalizado que fica difícil alguém sair e não ingerir bebida alcoólica. Ir a um restaurante ou a um bar é sinônimo de beber alguma coisa, e a cerveja é a bebida mais citada entre os entrevistados.
Aproveitamos esse momento de análise para assinalar que os jovens são os maiores alvos das companhias produtoras de bebidas alcoólicas. As propagandas acabam gerando uma cultura em que o consumo de álcool está associado à jovialidade, esportividade e glamour. Para os jovens, beber passa a ser um hábito socialmente aceitável. O bar se tornou um ponto de encontro usual, o centro da vida social e, para alguns, principalmente em cidades pequenas, o único que existe.
19 A cerveja é hoje um dos maiores produtos da economia, conforme podemos verificar com a Companhia de Bebidas das Américas (AMBEV), que recentemente adquiriu a cervejaria norte-americana Anhesuser-Bushc, fabricante da Budweiser, tornando-se uma das maiores indústrias do gênero em todo o mundo, com aferimento de uma receita líquida acima dos R$17.613.700,00(dezessete milhões, seiscentos e treze mil e setecentos reais). Informações obtidas pelo site www.ambev.com.br/emp_04.htm. Acesso em 9/2/2012.