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4.3 R´egime du couvercle stagnant

5.1.6 Discussion

Procuramos entrevistar os condutores não infratores que, de alguma forma, apresentassem características parecidas com as dos infratores, ou seja, que frequentassem os mesmos lugares, com a mesma faixa etária e dirigessem com certa continuidade.

Podemos afirmar que os entrevistados não infratores representam as camadas médias urbanas e têm formação universitária completa, são proprietários de veículos e dirigem todos os dias.

A formação universitária dos entrevistados ocorreu em áreas distintas: Psicologia, Administração de Empresas, Direito e Gestão de Négocios (único não concluído). As profissões são variadas: Ângelo é operador de pedágio, Ana é Psicóloga, Antonio trabalha no Cartório da família e Adão é gerente de compras no Banco Santander.

Dos quatro entrevistados, somente Ana é casada, mas não tem filhos. Os outros são solteiros e não namoram a sério.

Como procedemos a uma busca intencional de nossos entrevistados, todos residem na cidade de Cambuí, apenas Adão exerce sua profissão em outra cidade, porém retorna aos fins de semana para ficar com a família, como dito anteriormente.

Todos os entrevistados possuem carros e dirigem todos os dias. Dois deles concordaram em que o carro é poder. Na opinião de Ana “... o motorista veste o carro e fica

poderoso, é como se o carro lhe desse poderes...” Antonio foi ainda mais específico ao dizer:

“...é como se a pessoa se transformasse se está com um carro importado”... De acordo com Antonio, o carro completa o ego, e dirigir um Fusca não dá a mesma sensação de poder que dirigir uma Ferrari, exemplicou o entrevistado. Ao dar esses exemplos, nos lembrou também que a mídia tem mostrado nos últimos tempos muitos acidentes com veículos importados, carros caros pertencentes a uma classe média alta. Todos os acidentes veiculados pela mídia estariam relacionados com o álcool. Ângelo nos disse que dirigia todos os dias e que se sentia dependente do carro, pois não conseguia fazer nada a pé, mas não fez relação entre carro e poder como os outros entrevistados. Adão contou que também dirigia todos os dias, mas que para ele o carro era apenas um veículo de locomoção.

Um detalhe a acrescentar é a opinião dos entrevistados que não dirigem após beberem sobre aqueles motoristas que o fazem, ou seja, que dirigem após beberem. Ângelo nos disse que, em sua opinião, eles não pensam que podem atropelar alguém, ou seja, as pessoas que bebem e dirigem o fazem sem intenção. Ana concordou ao responder que “... eles não têm

intenção de cometer um acidente, de ferir os outros...” Entretanto Antonio e Adão discordaram dessa posição, pois para eles é uma falta de responsabilidade. “... falta de

responsabilidade, pois coloca a vida dos outros em risco...”(Antonio e Adão).

Eixo 2. O descrédito em relação à eficácia da lei e ações do governo:

Os entrevistados não infratores apresentaram um discurso semelhante no que tange à lei seca.21

Ao serem indagados se conheciam a lei, as respostas dos quatro entrevistados tiveram algo em comum: um conhecimento superficial em relação à lei. Ângelo respondeu: “... sei que

começou em 2008...” ele justificou que sabia a data porque foi o ano em que começou a trabalhar no pedágio e, na época, seus colegas comentavam muito sobre a lei e principalmente sobre o uso do bafômetro. Ele ainda nos revelou que, em seu entender, deveria ter uma “

porcentagem permitida”, pois acha que uma porcentagem zero é exagerada. Para ele, não adianta “radicalizar” porque, dessa forma, os motoristas não respeitam e ainda acrescentou

21Ver quadro 1 na próxima página - Descrédito em relação à eficácia da lei e das ações do governo. Neste quadro estão suscintamente apresentados os elementos da entrevista que foram valiosos para nossa análise.

Quadro 1. Descrédito em relação à eficácia da lei e das ações do governo

Entrevistado (a) Concepção da lei seca Posição frente à lei Concepção sobre o governo

Ângelo ... sei que começou em 2008 (...) acho que teria que ter uma porcentagem permitida (...) acho que radicalizou demais. Não adianta para os que bebem muito e não tem consciência e a gente que bebe pouco sai prejudicado se for parado em uma blitz. Acho que não deveria ser zero, teria que ter uma porcentagem que não atrapalhasse o motorista em sua percepção...

...na verdade, eu não acho que funcione... ...eu acho que o governo só quer ganhar dinheiro. É uma indústria de multas esse negócio de lei de trânsito. Se o governo estivesse realmente preocupado com a população seria igual em todos os Estados. Eu acho que o governo é corrupto, os policiais são corruptos e só querem dinheiro da gente.

Ana ... não pode dirigir depois de beber. Mas eu não sei a quantidade, não sei a punição, não sei o que acontece. O que fica na mídia é que não pode beber, mas também que não precisa assoprar o bafômetro, se você não quiser, porque não se pode produzir provas contra si mesmo, mas é só isso que sei...

...na mídia parece circular mais essa questão de que você não pode produzir provas, como burlar a lei (...) foca mais a forma de burlar do que dos riscos de vida que a pessoa tem quando bebe e dirige.

... já existia uma lei sobre bebidas antes e ninguém falava nada. Depois que começou a lei seca as pessoa só falavam no bafômetro (...) mas ninguém levou a sério. Fala-se no bafômetro e não na lei.

... Precisa de uma lei sobre a lei, precisa de um instrumento para fazer valer a lei, ter punição e tudo. Dá a impressão de que essa lei veio para punir...

... a lei não impede de JEITO NENHUM as pessoas de dirigirem após beberem...

...é estranho precisar de uma lei para salvar vida. Talvez fosse mais interessante investir na prevenção do que na punição. Porque essa lei pune (...) fica muito na punição e fica no comportamento de burlar a lei. “...Vou para outro caminho, não vou assoprar...”fica a sensação de como não ser pego pela lei do que realmente não beber.

...a lei vem como um remendo para a situação (...) então a gente desacredita na lei.

...Quando acontece um acidente e alguém morre, a gente não sabe direito o que aconteceu. Como eles sabem que foi o álcool? Pode ser por distração, pode ser outro carro... então, eu acho que tinha que ter mais pesquisa porque senão fica difícil saber se estava realmente alcoolizado (...) acho que é por isso que essa lei não pega.

...Eu não acho que a intenção do governo seja nos proteger (...) eu olho sempre de uma forma pessimista o governo...

...O governo não age na prevenção, no comportamento do motorista, mas depois tenta consertar através da punição....

...as pessoas se sentem desrespeitadas pelo governo, pela polícia e como consequência desrespeitam também...

... ao mesmo tempo que o governo faz leis punindo, ele investe na produção de carros cada vez mais populares e não investe na estrada. As propagandas induzem sempre as pessoas a comprarem carro, a beberem e depois? Vem a lei punindo. É muito complexo pensar em tudo isso.

...

Antonio ... conheço o que a televisão diz. Eu nunca li a respeito, nunca procurei na internet (...) conheço o básico, não sei quantas miligramas de álcool é crime.

... acho que a tolerância tinha que ser zero mesmo... ... acho bonito no papel, mas na prática não funciona....

... acho que essa lei não vinga... não vai adiantar a lei se não tem aplicabilidade...

... eu acho que não é só a lei que vai resolver, tem que ter fiscalização e principalmente educação e consciência do motorista.

... eu acho que não estão nem um pouco preocupados com isso. Não dá voto, não dá retorno. Em cidades pequenas não há política de trânsito porque isso não rende votos para a próxima eleição.

Adão ...Não conheço como deveria...

... acredito sim (que a lei reduz acidentes), a mídia bate muito em cima disso; então, muitos eventos hoje oferecem transporte coletivo particular para que quem participa das festas não sofram com a lei seca (....) acredito que pode ter havido uma redução no número de acidentes, pelo menos os mais graves provocados pelo excesso de álcool,

... penso que realmente deve haver uma punição para quem dirige bêbado (...) é um incentivo (a lei) para a diminuição do consumo de álcool no volante. ... quando eu acho que vou beber, vou de táxi ou de carona com alguém que não bebe...

...Péssimo sistema de transporte coletivo das nossas cidades....

... o governo, mais uma vez, vai punir ao invés de combater com a punição... ... o governo é responsável pelo caos do trânsito...

que deveria haver uma porcentagem mínima que não alterasse a percepção do motorista. Vale relembrar que a lei 11.705, conhecida como lei seca, não é exatamente seca e a tolerância não é zero como Ângelo afirmou, mas apresenta uma tolerância ao álcool que depende de cada organismo.

Ana também expôs sua concepção sobre a lei de forma mais superficial: “... sei que

não pode dirigir depois de beber, mas eu não sei a quantidade, não sei a punição, não sei o que acontece...” Ana fez uma crítica à mídia ao dizer “... o que fica na mídia é que não pode

beber, mas também que não precisa assoprar o bafômetro se você não quiser porque não se pode produzir provas contra si mesmo...” E continuou: “...na mídia parece circular mais essa

questão de que você não pode produzir provas, como burlar a lei... foca mais a forma de burlar a lei do que os riscos de vida que a pessoa tem quando bebe e dirige...” Ao analisar as respostas de Ana, podemos depreender que para ela a lei é a forma de burlar o bafômetro. Esse conceito ficou claro quando ela nos disse: “... fala-se no bafômetro e não na lei...” Embora no início de sua resposta ela tivesse comentado não saber nada sobre a lei, ela finalizou revelando saber que já existia uma lei antes, mas que não era divulgada. Em 2008, com a lei seca, as pessoas começaram a falar sobre o assunto, mas não falavam da lei e sim do bafômetro. E desabafou exclamando: “... precisa de uma lei sobre a lei, precisa de um

instrumento para fazer valer a lei (...) dá a impressão de que essa lei veio para punir...” E concluiu seu raciocínio dizendo que a lei não impedia as pessoas de dirigirem após beberem. O que foi exposto nos demonstra que tanto Ana quanto Ângelo não acreditam que a lei por si só impeça as pessoas de dirigirem sob efeito de álcool, ou melhor dizendo, dirigirem após terem bebido cerveja, vinho ou outra bebida alcoólica. Para Ana, o bafômetro tornou-se o instrumento que legitimou o álcool e a mídia colabora para que se pense dessa maneira, pois quando se fala em em lei seca, associa-se ao teste do bafômetro e, como consequência, como burlar esse instrumento. A lei nesse sentido torna-se punição e o objetivo dos motoristas é evitá-la. Importa salientar que evitar o castigo não significa não beber para não ser multado, e sim, beber e encontrar formas de evitar o bafômetro, único procedimento legitimado no Brasil como prova do suposto “crime”.

A resposta de Antonio não difere dos outros entrevistados, pois ele disse conhecer somente o básico que, para ele, é que não pode beber e dirigir, conhecimento adquirido pela televisão, como a maioria dos entrevistados. Antonio revelou nunca ter tido a curiosidade de pesquisar na internet nem em jornais e não sabe quantas miligramas de álcool são necessárias para o motorista ser incriminado. Adão também nos contou que não conhecia a lei como

deveria. Ou seja, não conhece os detalhes. Apenas sabe que não pode beber e dirigir, conhecimento também adquirido pela mídia televisiva. Entretanto, para Adão a lei é eficaz e ele acredita que reduziu os acidentes. “...acredito que pode ter havido uma redução no

número de acidentes, pelo menos os mais graves provocados pelo excesso de álcool (...) muitos eventos hoje oferecem transporte coletivo particular para que quem participa das festas não sofram com a lei seca...” Quando Adão nos diz “... não sofram com a lei seca...” percebemos que ele também considera a lei punitiva, pois, em vez de dizer “não sofram acidentes”, sua frase é “não sofram com a lei seca”. Então, podemos concluir que a lei para Adão também tem um caráter punitivo.

Observamos em todos os relatos que os entrevistados conhecem pouco da lei em si, seus conhecimentos básicos foram adquiridos principalmente pela televisão e não tiveram interesse em pesquisar para entender mais. Conhecer o básico significa saber que não se pode dirigir depois de beber e, excetuando-se Adão, todos os outros não confiam na eficácia da lei.

Os entrevistados posicionaram-se quanto à lei da seguinte maneira: Ana acredita que a lei é um tipo de “remendo” para uma situação e, segundo ela,“...é por isso que não

funciona...”e acredita também que a falta de pesquisas na área colabora com a ineficácia da lei, uma vez que, nem sempre há dados concretos que provem que o álcool foi responsável pelos acidentes. Ana também nos disse que para os motoristas é mais importante burlar a lei do que não beber. Antonio concorda com que a tolerância deva ser zero mesmo, mas também afirmou que na prática não funciona. De acordo com ele: “... é bonito no papel, mas

na prática não funciona (...) acho que essa lei não vinga, não vai adiantar a lei se não tem aplicabilidade...”Antonio acredita que para reduzir os acidentes de trânsito por causa do álcool, além da fiscalização, é necessário também ter “educação” e “consciência do

motorista”. Adão pensa que deve mesmo haver uma punição para quem dirige bêbado e que a lei é um incentivo para a diminuição do consumo do álcool antes de dirigir. Percebe-se, pois que a maneira de pensar de Adão difere dos outros entrevistados que não acreditam que a lei reduza acidentes.

Quanto à opinião sobre o governo, foram bem semelhantes. Para Ângelo: “... o

governo só quer ganhar dinheiro (...) é uma indústria de multas esse negócio de lei de trânsito (...) eu acho que o governo é corrupto, os policiais são corruptos e só querem dinheiro da gente...” Ana tem ideias que se aproximam das de Ângelo: “...eu não acho que a

intenção do governo seja nos proteger (...) o governo não age na prevenção, no comportamento do motorista, mas depois tenta consertar através da punição...” Para Ana, as

pessoas desrespeitam a lei porque se sentem desrespeitadas pelo governo e pela polícia. E ainda criticou: “...ao mesmo tempo que o governo faz as leis punindo, ele investe na produção

de carros cada vez mais populares e não investe nas estradas (...) as propagandas induzem sempre as pessoas a comprarem carros e a beberem (...) depois vem a lei punindo...” Antonio corrobora com Ana, porém usou outra explicação para a atitude do governo quando disse

“...eu acho que (os políticos) não estão nem um pouco preocupados com isso (...) não dá voto, não dá retorno (...) em cidades pequenas não há política de trânsito porque isso não rende votos para a próxima eleição...” Adão também criticou a posição do governo, salientando que o sistema de transporte coletivo é de má qualidade e que é necessário educação ao invés de punição. E culpou o governo pelo caos do trânsito. Aqui observamos uma contradição nas ideias de Adão, pois, em alguns momentos, ele nos disse que realmente deveria haver uma punição para quem dirige bêbado e que a lei seca contribuiu para a diminuição dos acidentes de trânsito, porém, quando o assunto se direcionou para o governo, ele apresentou suas críticas em relação à punição prevista pela lei. Encontraremos explicações para essa racionalização no capítulo seguinte, no qual analisaremos as respostas dos entrevistados à luz de referenciais teóricos de autores como Festinger (1975), Jovchelovitch (2000), a fim de compreender melhor tais contradições.