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Numa primeira fase, os estudos sobre as mulheres procuram dar visibilidade e acumular saberes sobre as mulheres, enquanto objecto de investigação dada a sua invisibilidade na produção científica das diversas disciplinas. Retirar as mulheres do esquecimento. Valorizá-las enquanto sujeitos históricos. É a época das biografias, do resgate essencial de uma memória, para afirmar que as mulheres fazem parte da história, assim como qualquer análise na área das outras disciplinas deve ter em conta a existência de um universo científico em que existem mulheres e homens. Esta simples constatação tardou a chegar, por exemplo, ao campo das estatísticas.

A Comissão da Condição Feminina teve, nesta fase, um importante papel ao publicar pequenas biografias das principais feministas dos inícios do século em Portugal: Adelaide Cabete, Caiel, Carolina Michaellis de Vasconcelos, Emília de Sousa Costa, Carolina Beatriz Ângelo, Virgínia de Castro e Almeida, Branca de Gonta Colaço, Antónia Gertrudes Pusich. Nesta fase, segundo a historiadora Irene Vaquinhas, as mulheres não são estudadas de acordo com a diversidade de estatutos sociais ou económicos, nem são analisados os mecanismos de opressão, a não ser na base da misoginia masculina que domina as relações em sociedade. Ainda, na opinião da mesma historiadora, não existe na actualidade produção teórica em muitos trabalhos, que permanecem de cunho convencional e informativo assentes numa pesquisa de fontes documentais em trabalho de arquivo ou de biblioteca sem darem o salto para as questões conceptuais comuns na historiografia anglo-saxónica, embora se verifique, em

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alguns autores e autoras, um certo comprometimento ideológico com as problemáticas feministas, em particular no âmbito da história contemporânea e do tempo presente.

Para Lígia Amâncio, o pensamento feminista sobre a ciência, que se desenvolveu a partir dos anos de 1970 - sendo que em Portugal o curto tempo de vida das ciência sociais adiou por algum tempo a reflexão feminista – procurou responder a dois objectivos:

―Em primeiro lugar dar visibilidade às mulheres, às suas experiências concretas e a uma condição social que o movimento pretendia combater, procurando tornar visível um objecto, até aí, invisível na produção científica das várias disciplinas e, seguidamente, denunciar o androcentrismo dos vários domínios do saber e a permanente confusão entre o masculino e o universal. Este percurso, comum a várias disciplinas, contribuiu para a focalização num objecto emergente que atenuou as fronteiras disciplinares e, ao mesmo tempo, foi gerando uma linguagem teórica e conceptual partilhada‖ (AMÂNCIO, 2002:55).

Deste modo, o questionamento epistemológico poderá fazer parte de uma segunda fase no processo de afirmação dos estudos sobre as mulheres. Segundo Virgínia Ferreira, (2001:12) ―na sociologia o questionamento introduzido pelos estudos sobre as mulheres traduziu-se numa ruptura das categorias de sexo elaboradas em sede de disciplina‖. Ao serem articuladas numa relação social tornaram-se inseparáveis do ponto de visto científico. As fronteiras entre os vários ramos da sociologia teriam sido, deste modo, ―estilhaçados‖. Ainda, na opinião da mesma socióloga, as relações sociais de sexo tornaram-se transversais a todo o sistema social. Põem-se em causa os discursos sobre a subordinação das mulheres assentes na sua ―natureza‖ e dá-se visibilidade aos constrangimentos criados pelo sexismo e pelas discriminações sociais. A dominação e a opressão das mulheres são assim explicadas socialmente ou através de uma articulação entre o social e o biológico. Também o questionamento é colocado ao nível das relações sociais de sexo como centrais na organização da sociedade ou como derivantes dos sistemas sociais no seu global (FERREIRA: 2001:12-13). Articula-se, então, com as relações de classe ou com as diferentes modalidades de dominação: étnicas, de orientação sexual, etárias.

A denúncia do androcentrismo do saber colocando em causa o universal ―neutro‖masculino faz parte desta fase de questionamento. Para Lígia Amâncio (2002:59), é no processo de construção social que o simbólico masculino se constitui em referente universal, relativamente ao feminino, que permanece marcado pela categoria sexual. Esta concepção constitui-se, deste modo, como factor estruturante do pensamento que é preciso questionar e desconstruir. Ainda, segundo a mesma

investigadora, ‖em certos domínios da psicologia portuguesa, como da psicologia das organizações, começa a desenhar-se uma crítica ao androcentrismo dos conceitos e dos pressupostos básicos dos modelos‖ (AMÂNCIO:2002:67). Considera, também, como trabalho de referência da crítica feminista à psicologia e às abordagens essencialistas o trabalho de investigação de Conceição Nogueira da Universidade do Minho.33Não raro, o discurso hegemónico do saber impõe-se, ignorando o que de alternativo pode estar a ser produzido. Exemplo citado por Teresa Joaquim na sua reflexão sobre os estudos sobre as mulheres em filosofia, foi o posicionamento do historiador José Mattoso ao ignorar os contributos na investigação histórica sobre as mulheres na sua obra ―História de Portugal‖, como também no seu artigo na revista História de Abril de 2000, onde assume que ―os estudos sobre as mulheres pouco têm contribuído para uma renovação do discurso acerca do passado nem para uma nova compreensão da história‖

(JOAQUIM, 2001:75). A este propósito Teresa Joaquim cita Françoise Collin:

―As mulheres pensam, falam, as mulheres escrevem, publicam – e algumas dedicam-se hoje a reencontrar e a juntar textos e fragmentos que, com demasiada facilidade, os historiadores da filosofia deixaram cair no esquecimento. Mas os seus discursos não constituem referência para a constituição da esfera pública, ou da mudança efectiva do pensamento. (...) Ainda se resiste a reconhecê-las como representantes da humanidade, reveladoras de uma verdade que poderia dizer respeito a cada uma e a cada um‖. (COLLIN, 1997:26-27)

Segundo algumas investigadoras, a crítica ao carácter sexista da Ciência e da Academia está conseguida, mas pouco se tem avançado para as concepções e práticas da construção do pensamento (MAGALHÃES, 2001:53). Todavia, Irene Ramalho (2001:108), situando-se num contexto mais global, afirma que nas últimas décadas as epistemologias feministas têm tido grande impacto em diferentes áreas do saber, despertando interesse em investigadores que se preocupam com uma concepção emancipatória da ciência. É o caso de Boaventura Sousa Santos ao considerar que a teoria crítica feminista é parte integrante do que ele afirma ser a ―transição paradigmática‖ do ―conhecimento regulação‖ para o ―conhecimento emancipatório‖

(SANTOS, 1995). Contudo, é preciso dizer que o debate epistemológico em Portugal na área das Ciências Sociais tem tido pouco eco, apesar de trabalhos inovadores como o

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Lígia Amâncio considera ainda, que este trabalho constituiu ―a primeira e única análise aprofundada da crítica feminista à ciência em geral e à psicologia em particular‖, sendo que também situa ―a emergência da teoria feminista pós-moderna a partir dessa crítica e da sua evolução no pensamento feminista‖, assim como ―apresenta a perspectiva teórica mais recente para a análise das relações de género, o construcionismo social, que é transversal às várias ciências sociais‖.

que anteriormente foi referido. Na prática, a adopção de modelos teóricos na construção do conhecimento vai sendo feita sem grandes sobressaltos, sem debate franco e aberto.

Deste modo, também nos estudos sobre as mulheres o debate epistemológico ainda não é muito evidente, o mesmo acontecendo com uma terceira fase que se liga em muito a esta, ―a reflexão crítica‖. Segundo Helena Costa Araújo, ―os estudos sobre as mulheres teriam alcançado alguma legitimidade e visibilidade. Contudo, ―a falta de debate sistemático é, provavelmente, uma das áreas mais cruciais que necessitam de desenvolvimento (...)‖ (MAGALHÃES, 2001:53).

Na reflexão que Maria José Magalhães elaborou, em 2001, sobre os dez anos da APEM, já aqui referenciada, é notória a existência de investigadoras que, naquele momento, estavam sobretudo preocupadas na acumulação de conhecimento sobre as mulheres, no sentido de alargar o terreno da área de estudos. Digamos que podiam situar-se mais na fase de ―recuperação‖ das mulheres enquanto objecto de estudo para o interior da ciência. Ao mesmo tempo, outras estavam apostadas em desafiar o processo de construção do conhecimento.

Nem sempre a construção de uma epistemologia crítica supõe, para algumas investigadoras, a formulação de uma epistemologia feminista, mas tão só um processo de produção de conhecimento baseado na interacção entre sujeito e objecto de investigação, na descontinuidade histórica, na interrogação permanente sobre a produção discursiva ou científica. Só que alguns destes princípios são inerentes a uma epistemologia feminista.

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