sobe-lhe à cabeça o sangue que vê derramar-se, manando a morte viva que faz andar a cabeça à roda» (idem). Este comportamento surpreendeu-nos porque sempre consideramos esta personagem “povo” mas não sua representante já que se “eleva” acima dele devido aos seus poderes, atos e pensamentos. Porém, neste momento, nivela com esse mesmo povo ao agir e sentir como todas as outras mulheres. A mulher de olhos e comportamentos tão diferentes torna-se, neste momento, comum, banal, ou quase parafraseando Nietzsche: “Humana, demasiado humana”.
3.1.3 Feitiçaria e outras heresias: as dos autos-de-fé, Sebastiana,
Blimunda
Há choros, ganidos, à luz das cavernas Onde as bruxas moram Onde as bruxas dançam, quando os mochos amam E as pedras choram
Caravelas, caravelas Mortas sob as estrelas Como candeias sem luz Os padres da inquisição Fazendo dos vossos mastros Os braços da nossa cruz
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Caravelas
As bruxas dançam de roda Entre o visco dos morcegos Dançam de roda raspando As unhas podres de tojo Na noite morta do fogo Como num tambor de ronjo.
Trovante, Xácara Das Bruxas Dançando
Para além de lilith, feiticeira sem “provas dadas”, há outras que, por o serem, recebem os maiores castigos. Referimo-nos às descritas no MC, nos autos-de-fé e, sobretudo, a Sebastiana de Jesus.
Durante todo o período de funcionamento do Tribunal do Santo Ofício, os processos de bruxaria tiveram como documento norteador o Malleus Maleficarum (O Martelo das Bruxas), escrito em 1486 pelos frades dominicanos James Sprenger e Heinrich Kramer, a partir do Manual dos Inquisidores elaborado cem anos antes por Nicolás Eymirick.
O Malleus está dividido em três partes: a primeira prova a existência de bruxas e demónios; a segunda descreve os malefícios causados pela feitiçaria, e a terceira orienta os inquisidores quanto à forma de se obterem confissões e quais os procedimentos que devem ser adotados durante todo o processo inquisitorial.
Quanto à Inquisição, não é na obra em que a sua presença é omnipresente que Saramago a define. É o próprio Deus de Saramago que a define ao putativo filho, afirmando:
A Inquisição, também chamada Tribunal do Santo Oficio é o mal necessário, o instrumento crudelíssimo com que debelaremos a infecção que um dia, e por longo tempo, se instalará no corpo da tua Igreja por via das nefandas heresias em geral e seus derivados e consequentes menores, a que se somam umas quantas perversões do físico e do moral, o que, tudo reunido e posto no mesmo saco de horrores, sem preocupações de prioridade e ordem, incluirá luteranos e calvinistas, molinistas e judaizantes, sodomitas e feiticeiros […] é uma policia e um tribunal, por isso haverá de prender, julgar e condenar como fazem os tribunais e as policias,
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Condenará a quê, Ao cárcere, ao degredo, à fogueira (ESJC: 488).
O mesmo Deus acrescenta ainda que, por culpa de Jesus, alguns homens «foram lançados à fogueira por crerem em ti, os outros sê-lo-ão por duvidarem» (idem). Ao que o Diabo concluiu: «É preciso ser-se Deus para gostar tanto de sangue» (ib: 489). Não podemos nunca perder de vista as palavras do autor: «Sim, o narrador antipatiza francamente com Deus. E simpatiza com Jesus» (VASCONCELOS, 2010: 42).
Tendo em conta tudo isto, compreende-se que:
hoje é dia de alegria geral, porventura a palavra será imprópria, porque o gosto vem de mais fundo, talvez da alma […] juntando-se no Rossio para ver justiçar a judeus e cristãos- novos, a hereges e feiticeiros, fora aqueles casos menos correntemente qualificáveis, como os de sodomia, molinismo, reptizar mulheres e solicitá-las, e outras miuçalhas passíveis de degredo ou fogueira (MC: 64).
Dia de auto-de-fé é dia de alegria da populaça, que gosta “tanto de sangue” como Deus. Aliás, é um povo ignaro e cruel que se diverte com sangue, seja ele humano ou de gado vacum: «povo duas vezes em festa por ser domingo e haver auto-de-fé, nunca se chegará a saber de que mais gostam os moradores, se disto, se das touradas» (ib: 65). E entre a populaça, distinguem-se as mulheres: «vestidas e toucadas a primor, à alemoa, por graça da rainha, com o seu vermelhão nas faces e no colo, fazendo trejeitos com a boca em modo de a fazer pequena e espremida […] a si próprias se interrogando as damas se estarão seguros os sinaizinhos do rosto» (ib: 65). As mulheres aperaltam-se como para as festas, com uma vaidade propriamente feminina, seguindo o cânone de quem consideram importante, neste caso, a rainha.
Sobre os condenados: «São cento e quatro as pessoas que hoje saem […] sendo cinquenta e um os homens e cinquenta e três as mulheres» (ib: 64-65). Interessante é compreender que no Malleus Maleficarum se coloca a questão de ser maior o número de bruxas do que de bruxos: «porque há uma grande quantidade de bruxos do frágil sexo feminino, em maior proporção que entre os homens; trata-se na
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verdade de um facto que acabaria ocioso quando contrariado, já que a experiência o confirma, aparte do depoimento verbal de testemunhas dignas de confiança» (Malleus: 49).
E continua:
E da maldade das mulheres fala-se em Eclesiastes XXV: “Não há cabeça superior à de uma serpente, e não há ira superior à de uma mulher. Prefiro viver com um leão e um dragão, que com uma mulher malévola”. E entre muitas outras coisas que nesse ponto precedem e seguem ao tema da mulher maligna, concluímos: Todas as malignidades são pouca coisa em comparação com a de uma mulher. Pelo qual São João Crisóstomo diz em texto: “Não convém se casar”. São Mateus, XIX: Que outra coisa é uma mulher, senão um inimigo da amizade, um castigo inevitável, um mal necessário, uma tentação natural, uma calamidade desejável, um perigo doméstico, um deleitável detrimento, um mal da natureza pintado com alegres cores! Portanto, se é um pecado divorciar-se dela quando deveria mantê-la, é na verdade uma tortura necessária. Pois ou bem cometemos adultério ao nos divorciar, ou devemos suportar uma luta quotidiana. Em seu segundo livro A Retórica, Cícero diz: “Os muitos apetites dos homens levam-no a um pecado, mas o único apetite das mulheres as conduz a todos os pecados, pois a raiz de todos os vícios femininos é a avareza”. E Séneca diz em suas Tragédias: “Uma mulher ama ou odeia; não há uma terceira alternativa. E as lágrimas de uma mulher é um engano, pois podem brotar de uma pena verdadeira, ou ser uma armadilha. Quando uma mulher pensa sozinha, pensa o mal”.
Mas para as boas mulheres há tanto louvor que lemos que deram beatitude aos homens, e salvaram nações, países e cidades; como fica claro no caso de Judith, Déborah e Esther (ib: 51).
As artes da mulher estão sempre ligadas ao mal. Por mais que um homem peque, a mulher peca sempre mais. Ela é a pura figura da maldade. Quem o diz são os homens, os eternos objetos da maldade, e isto desde Adão. A mulher é sempre a
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sedutora, a adúltera, a avara, a invejosa, porque ela só consegue amar ou odiar, ela sente, não pensa e, quando o faz, “pensa o mal”.
Das mulheres do auto-de-fé: «duas serão relaxadas ao braço secular, em carne, por relapsas, e isto quer dizer reincidentes na heresia, por convictas e negativas, e isto quer dizer teimosas apesar de todos os testemunhos, por contumazes, e isto quer dizer persistentes nos erros que são suas verdades» (MC: 65).
Começa o auto-de-fé: «Começou a sair a procissão, vêm os dominicanos à frente, […] e os inquisidores depois […] até aparecerem os sentenciados […] trazem círios na mão […] e tudo são rezas e murmúrios por diferenças de gorro e sambenito se conhece quem vai morrer e quem não» (ib: 66). Há todo um ritual próprio da procissão e do caminho para a desgraça e a morte.
É pela voz de uma das condenadas, Sebastiana de Jesus, que ficamos a conhecer alguns dos sentenciados, curiosamente três homens e uma única mulher. O primeiro é: «Simeão de Oliveira e Sousa» (ib: 67). O segundo: «é Domingos Afonso Lagareiro, natural e morador que foi em Portel, que fingia visões para ser tido por santo, e fazia curas usando de bênçãos, palavras e cruzes, e outras semelhantes superstições» (ib: 68).O terceiro: «é o padre António Teixeira de Sousa, da ilha de
S. Jorge» (idem). E finalmente a mulher:
e esta sou eu, Sebastiana Maria de Jesus, um quarto de cristã- nova, que tenho visões e revelações, mas disseram-me no tribunal que era fingimento, que ouço vozes do céu, mas explicaram-me que era efeito demoníaco, que sei que posso ser santa como os santos osão, ou ainda melhor, pois não alcanço diferença entre mim e eles, mas repreenderam-me de que isso é presunção insuportável e orgulho monstruoso, desafio a Deus, aqui vou blasfema, herética, temerária, amordaçada para que não me ouçam as temeridades, as heresias e as blasfémias, condenada a ser açoitada em público e a oito anos de degredo no reino de Angola […] entre aquela gente que está cuspindo para mim e atirando cascas de melancia e imundícies, ai como estão enganados, só eu sei que todos poderiam ser santos, assim o quisessem, e não posso gritá-lo (ib: 68-69).
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Sobre estes condenados poderemos concluir que o primeiro sofreria, à partida, de distúrbio grave da personalidade, que o segundo seria um curandeiro, o terceiro era um padre com excessos amatórios, (mal de que também sofre el-rei que se “goza” com as freiras, nada sofrendo com a Inquisição), e, finalmente, Sebastiana que “sofreria” de vários males em simultâneo: era cristã-nova; tinha visões e revelações; ouvia vozes do céu; sabia poder ser santa. Daqui não ser estranho ser acusada de blasfémia, heresia e temeridade. É acusada de todos os crimes previstos no livro guia das atrocidades inquisitoriais, Malleus Maleficarum. Como não será estranha a sentença: «condenada a ser açoitada em público e a oito anos de degredo no reino de Angola» (ib: 69).
Mais adiante no tempo e na narrativa, haverá outra descrição de outro auto-de- fé, ao qual Blimunda e Baltasar não assistiram, «vá lá que desta vez saiu relaxada em carne só uma mulher» (ib: 128). Novos acusados, novos crimes e pecados, todos condenados: a «freira professa, que afinal era judia» (idem); a «preta de Angola […] com culpas de judaísmo» (idem); o «mercador do Algarve que afirmava que cada um se salva na lei que segue, porque todas são iguais» e, ainda,
este mulataz da Caparica que se chama Manuel Mateus, mas não é parente de Sete-Sóis, e tem por alcunha Saramago, sabe-se que descendência a sua será, e que saiu penitenciado por culpas de insigne feiticeiro, com mais três moças que diziam pela mesma cartilha (idem).
É nossa convicção profunda que depois de tanta heresia escrita, um dos descendentes de Manuel Mateus Saramago faria nos dias de hoje, se ainda houvesse carne a arder nas fogueiras da Inquisição, companhia ao seu ascendente.
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