As estratégias metodológicas utilizadas orientaram-se fundamentalmente para os métodos qualitativos. Todavia, numa das partes do estudo (capítulo 10), utilizaram-se métodos quantitativos, colocando-se, deste modo em evidência que a complementaridade de métodos pode trazer mais valias às análises. Neste sentido, utilizou-se, uma estratégia de ―triangulação‖17 de métodos. A pluralidade metodológica tem sido defendida por investigadoras feministas, apesar da tendência para se considerar que os métodos qualitativos poderiam ser mais ajustados. Contudo, a utilização de várias metodologias permite colocar em causa a uniformização e a universalidade dos procedimentos científicos, como se estes não fossem passíveis de questionamentos.
A utilização de entrevistas para valorizar a memória histórica insere-se também numa perspectiva de pesquisa das subjectividades, não com a intensidade de uma epistemologia da escuta, que serve de base às ―histórias de vida‖, onde se privilegiam os quotidianos das pessoas, as suas experiências, mas procurando sempre valorizar os
16 OLIVEIA, João Manuel, AMÂNCIO, Lígia (2006), ―Teorias feministas e representações sociais:
desafios dos conhecimentos situados para a psicologia social‖, in revista Estudos Feministas, (versão on- line) vol. 14, nº 3, Florianópolis, Set/Dez. 2006. (disponível em http://www.scielo.br), p. 3.
17 Triangulação: emprego de uma combinação de métodos e perspectivas que permitem tirar conclusões
válidas a propósito de um mesmo fenómeno‖ (REIDY, Mary & MERCIER, Louise (2000), ―O processo da investigação: da concepção à realização‖)
sentidos atribuído pelas entrevistadas às situações vividas, integrando no texto, partes expressivas que pudessem trazer novas configurações às realidades sociais.
A expressão ―metodologias feministas‖ pode ser questionada na medida em que o feminismo é uma forma de pensamento e não um método de análise. Deste modo, pode falar-se de ―epistemologia feminista‖, ou seja de uma forma de construção do conhecimento do ponto de vista feminista (HARDING, 1987), mas torna-se menos comum utilizar a ideia de ―metodologias feministas‖. Todavia existem investigadoras que fazem questão de utilizar tal expressão. A investigadora Sofia Neves, na sua tese de doutoramento,18 baseando-se em autoras como Shula Reinharz (1992) e Liz Stanley (1997), utiliza tal terminologia, identificando-a como uma metodologia em que quem investiga se identifica como feminista. As metodologias feministas terão também algumas linhas orientadoras, das quais se destaca: a parcialidade consciente, na medida em que o (a) investigador (a) se identifica com os objectivos da investigação; a participação activa nas acções e movimentos reivindicativos; a colectivização das experiências das mulheres; um conhecimento construído a partir do terreno em que o (a) investigador (a) está situado (a).
A autora desta tese identifica-se com a orientação atrás referida, na medida em que como feminista e activista nos movimentos de mulheres, parte para a sua investigação de um terreno abertamente situado, identifica-se com os objectivos deste estudo e possui um olhar próprio que lhe advém das experiências adquiridas junto das mulheres. Partindo da noção de que o conhecimento é socialmente construído e situado, de que existe um compromisso pessoal de dar voz às experiências das mulheres e utilizando a reflexidade como um instrumento crítico, a autora procura deixar claro as suas posições ao longo da investigação, não as ocultando em nome de uma pretensa ―objectividade‖ ou ―neutralidade‖, há muito postas em causa pela própria crítica feminista da ciência.
As questões colocadas no início da investigação pressupõem alguma ruptura com diversas evidências e o questionamento de análises já elaboradas. Tomando como exemplos: o silenciamento dos feminismos no Estado Novo como consequência da repressão do regime, sem introdução de outros factores de análise; a inevitabilidade da luta das mulheres durante o regime salazarista se ter limitado à luta antifascista; as crises estudantis como terreno masculino por excelência; a falta de espaços para os
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feminismos nos movimentos sociais do 25 de Abril, devido às necessidades objectivas que estavam colocadas; a invisibilidade dos feminismos nas décadas de 1970 e 1980; a institucionalização dos feminismos longe das lutas sociais nas últimas duas décadas do século XX; o afastamento das novas gerações das questões da Igualdade e dos Feminismos. Fazer a ruptura com estas evidências e colocar novas hipóteses de trabalho, colocava também o levantamento de interrogações, tais como: que factores influenciaram a perda da memória histórica dos feminismos de primeira vaga, para além da repressão do regime? ; que papel desempenharam as mulheres na luta antifascista e que valorização foi feita desse trabalho? ; qual o papel das jovens nos movimentos estudantis das décadas de 1960 e 1970 e como não foi possível ter nascido, nessa época, o gérmen de um novo movimento feminista como aconteceu em outros países ? ; quais as razões que levaram à invisibilidade dos grupos e organizações feministas nas décadas de setenta e oitenta? ; existiu um discurso feminista na luta pela despenalização do aborto? ; o que se entende por institucionalização dos feminismos e que contornos tem esse fenómeno em Portugal? ; que novas correntes dos feminismos poderão estar em fase de maturação? ; qual a visão que as novas gerações de estudantes têm sobre os feminismos?
A investigação sobre estas e outras questões requereu a utilização concertada de diversas metodologias. A pesquisa documental e bibliográfica envolveu consultas durante vários meses em diversos arquivos históricos no país e no estrangeiro, já anteriormente referidos. A recolha de memória histórica foi feita através de entrevistas utilizando alguns guiões, de uma forma semi-directiva, sem uma ordem de questões rigidamente colocadas, procurando interagir no despoletar de novas questões, que o próprio desenvolvimento da entrevista despertava. As entrevistas foram revistas pela maioria das entrevistadas sob a forma de perguntas respostas ou de um texto retirado das próprias entrevistas como se pode consultar em anexo. A elaboração e aplicação de um inquérito por questionário a alunos e alunas que frequentavam o 12 º ano em escolas do concelho de Almada, no ano lectivo de 2004/2005 e a aplicação do mesmo questionário em escolas da região de Viseu foi um trabalho que envolveu um ano e meio de dedicação exclusiva. Em Almada, foram inquiridos 860 alunos e alunas de um universo de 1592 inscritos nas dez escolas, que têm ensino secundário no concelho de Almada. Aplicou-se o mesmo tipo de questionário em escolas do distrito de Viseu a cerca de 300 alunos e alunas de S. Pedro do Sul, Vouzela e cidade de Viseu. Foram, ainda, realizadas entrevistas a alunas e alunos após a aplicação do questionário.
Durante muitos anos, os métodos quantitativos experimentais e laboratoriais foram colocados no topo das estratégias metodológicas, desvalorizando-se o qualitativo e o experiencial. Algumas das críticas feministas aos métodos quantitativos apontavam no sentido de considerarem a tradição empirista como pouco reflexiva e que não permitia espaço conceptual.
Os estudos feministas têm privilegiado as entrevistas, as histórias de vida, os escritos privados, as autobiografias. As fontes orais passaram a ter muito peso para valorizar os registos de memória. Daí a importância dada às entrevistas realizadas, procurando, ao longo do trabalho, que as diversas vozes se fizessem ouvir. Contudo, a análise de fontes escritas ocupa também um espaço significativo neste trabalho, como foi anteriormente referido, recorrendo-se a diversos tipos de arquivos históricos.
Ao longo deste trabalho, não se procurou apenas dar visibilidade às mulheres enquanto sujeitos da história, mas questionar a invisibilidade a que têm estado sujeitas, numa perspectiva de que as relações de género devem ser incorporadas na análise histórica. Desta perspectiva metodológica não resulta a visão de uma homogeneidade das mulheres enquanto sujeitos e actores históricos. As mulheres têm uma história enquanto mulheres, mas esta não é igual para todas as mulheres.
O saltar das barreiras disciplinares, característica dos estudos sobre as mulheres, também foi possível alcançar neste trabalho, onde a história e a sociologia se procuram conjugar entre si e com a crítica feminista, que constitui o pano de fundo deste trabalho, porque a autora se assume como feminista e é sobre esse olhar que os factos, os acontecimentos e as experiências relatadas são observados.
O trabalho de investigação está organizado em três partes e em dez capítulos. Numa primeira parte, analisa-se a evolução dos estudos sobre as mulheres em Portugal, assim como a evolução mais geral da teoria feminista e das correntes do feminismo, lançando algumas hipóteses de reconfiguração das correntes no contexto social e político actual.
Na segunda parte, o desafio está colocado ao percorrerem-se várias décadas da segunda metade do século XX, procurando-se analisá-las no que elas tiveram de mais relevante para a afirmação das mulheres e dos seus movimentos. ―Do antifascismo a uma nova agenda feminista‖, o título desta parte do estudo lança também o debate sobre as ―novas‖ e ―velhas‖ causas dos feminismos.
Na terceira parte, o enfoque é colocado nas novas gerações de estudantes e na forma como as jovens e os jovens encaram as relações sociais entre os sexos.
Ao longo dos diversos capítulos as temáticas abarcam não só o discurso da domesticidade imposto pela ditadura salazarista como a própria ―naturalização‖ das mulheres que as oposições acabaram por traçar nos difíceis quotidianos vividos em regime de clandestinidade. As crises estudantis e a participação das jovens, a oposição dos sectores católicos, os congressos da oposição democrática, a escrita de mulheres em jornais e revistas na última fase de ―agonia‖ do regime, já precursora do 25 de Abril de 1974, são outros temas tratados. As Novas Cartas Portuguesas, na sua génese e no movimento de solidariedade feminista internacional criado, constituem outros pontos de referência temáticos. Evidenciam-se, no pós-25 de Abril, as associações e grupos de mulheres entretanto criados, o seu papel na luta pela despenalização do aborto, seguindo-se, ao longo de três décadas, os diversos avanços e retrocessos desta luta, até ao referendo de 2007. Destacam-se, num dos capítulos, os percursos de quatro figuras de mulheres cujas vidas se entrelaçaram com os feminismos: Maria Alzira Lemos, Maria Antónia Palla, Maria de Lourdes Pintasilgo e Maria Teresa Horta. Já no novo milénio, reflecte-se sobre a transnacionalidade dos feminismos, abrindo-se a temáticas controversas como a prostituição, o tráfico de mulheres, a paridade, os lesbianismos ou a outras mais consensuais como a violência de género, os direitos das mulheres imigrantes e os trajectos emancipatórios do emprego. Não se deixa, ainda, de analisar a evolução das posições feministas sobre a família e, num trabalho de pesquisa junto das novas gerações de estudantes, os diferentes perfis em relação aos feminismos, que podem ser configurados, através das suas respostas a um questionário e a entrevistas realizadas.