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A tentativa da formação de uma rede de investigadoras/es por parte da Comissão da Condição Feminina foi o impulso para a criação da APEM, cuja primeira direcção (1991/93) se baseou em muitas técnicas da CCF que se tornaram associadas (Dina Canço, Ivone Leal, Joana de Barros Baptista; Maria Alzira Lemos, Isabel Romão, Maria Reynolds de Sousa). Apesar de nas direcções seguintes, se ter verificado a diminuição do peso institucional da CIDM, não deixaram de participar outros nomes ligados à comissão, como Regina Tavares da Silva, Teresa Joaquim e Luísa Paiva Boléo. A APEM foi crescendo em autonomia em relação à CIDM com investigadoras ligadas a vários pólos universitários nas direcções seguintes: Universidade de Coimbra (CES), com Virgínia Ferreira, Graça Abranches, Teresa Tavares e Sílvia Portugal; Universidade do Porto (FPCE) com Helena Costa Araújo e Maria José Magalhães; Universidade do Minho com Conceição Nogueira; Universidade de Évora com Fernanda Henriques; em Lisboa com investigadoras de várias universidades: Lígia Amâncio (ISCTE), Margarida Chagas Lopes (ISEG), Anne Cova, Beatriz Nizza da Silva, Teresa Joaquim e Ana Monteiro Ferreira (Universidade Aberta), Irene Pimentel (FCSH- Universidade Nova).

Pode-se, portanto, afirmar que só em 1991 surge em Portugal uma associação de estudos sobre as mulheres: a APEM,28 que se identifica como feminista. Não tendo alcançado, ainda, o estatuto de uma agência científica, esta associação tem permitido dar visibilidade a esta área do conhecimento, congregando na sua revista ex-aequo um conjunto de trabalhos de grande valia e procurando dinamizar a reflexão crítica feminista através de seminários que tem organizado. A APEM tem contribuído para legitimar os estudos sobre as mulheres.

Também a constituição posterior de alguns núcleos de investigação (―Faces de Eva‖ na Universidade Nova de Lisboa com publicação de uma revista), do primeiro mestrado em estudos sobre as mulheres na Universidade Aberta (1995), dos cursos de pós graduação e dos mestrados na FPCE da Universidade do Porto e na Universidade Nova de Lisboa, do mestrado aberto, em 2007, na Universidade de Coimbra sobre ―estudos feministas‖e, ainda a formação da Associação Portuguesa de Investigação

28 A APEM – Associação Portuguesa de Estudos sobre as Mulheres foi constituída a 25 de Outubro de

Histórica sobre as Mulheres (APIHM) e da Associação de Mulheres Cientistas (AMONET), têm contribuído para uma maior visibilidade desta área do saber científico. Se analisarmos o trajecto da APEM, segundo as práticas estratégicas de outros países, referidas por Maria José Magalhães (2001:28), como de ―separatistas‖ ou ―integracionistas‖, acabamos por concluir que a APEM não se deixa de constituir como um núcleo de investigadoras com alguma identidade, apesar das diferenças, e com ligação aos movimentos feministas (estratégia ―separatista‖), mas também não deixa de estar ligada às universidades, procurando influenciar a construção do conhecimento científico, questionando percursos epistemológicos ou procurando afirmar até, uma outra epistemologia de cariz feminista ou emancipatória. (estratégia ―integracionista‖). Contudo, segundo esta investigadora, esta última vertente não está suficientemente debatida na APEM, dado que muitos estudos se situam apenas numa perspectiva de ―recuperação‖ das mulheres como objecto de investigação e não tanto no questionamento epistemológico. Deste modo, esta situação poderá criar dificuldades na construção de um espaço científico-social com autonomia epistemológica e teórica.

2. “Estudos sobre as Mulheres”, “Estudos Feministas” e “Estudos de Género”

Ao contrário de outros países onde os Estudos sobre as Mulheres surgiram por influência do movimento feminista, que estendeu a sua vertente teórica à Academia,29 procurando questionar a forma como se produzia a Ciência, em Portugal, a insuficiência teórica dos feminismos não permitiu esta inter-relação matricial na história dos Estudos sobre as Mulheres. No estado espanhol, a Asociación Universitária para el Estúdio de

los Problemas de la Mujer30 surgiu em 1975, em Madrid. Na mesma altura, grupos de

mulheres universitárias foram-se formando pelo país à medida que o feminismo ia marcando presença como movimento social organizado. Por exemplo, o El Pais anunciava a 5 de Novembro de 1976, a formação em Valença de um grupo feminista na Universidade de Valença integrado numa coordenadora de grupos de mulheres. Em Sevilha, Granada, Cádiz, Málaga formaram-se também associações de mulheres

29 Em muitos países, a partir dos anos de 1970, são criadas diversas disciplinas de Estudos Feministas nas

universidades.

30 As primeiras associações de mulheres universitárias surgem em Espanha nas décadas de 1950 e 1960

universitárias. O mesmo aconteceu em Barcelona onde em cada faculdade existia um grupo feminista. Em Valladolid as estudantes formaram o ―Movimento Universitário para a Libertação da Mulher‖ (PUERTA, 2003:101). Ora, este não foi, de modo algum, o panorama no meio universitário português.

Por outro lado, num quadro de afirmação das ciências sociais, tentando recuperar o tempo perdido por um regime que impediu o seu desenvolvimento, como foi o do Estado Novo, a questão feminista não emergiu, senão quando as diversas áreas disciplinares já estavam afirmadas em territórios próprios pouco permeáveis a um olhar crítico feminista acerca da forma de produzir o conhecimento.

―Uma parte das académicas que se interessam pelos feminismos provêem das ciências sociais, mas em Portugal não houve ciências sociais até ao 25 de Abril. Havia um défice de pensamento disciplinar. Teve que se ir buscar o início das próprias disciplinas‖.31

A esta dificuldade de afirmação dos feminismos como uma corrente plural de pensamento e acção na sociedade portuguesa está também associada a terminologia utilizada para designar esta área académica. Apesar de algumas investigadoras se identificarem com a designação: ―estudos feministas‖, tem sido a expressão ―estudos sobre as mulheres‖, por via da influência anglo-saxónica dos women’s studies, a mais utilizada. Alargar a influência, não ―guetizar‖ esta área científica são algumas das razões invocadas para não adoptar a expressão ―estudos feministas‖, embora seja esta designação a que melhor se arquitecta numa perspectiva emancipatória da construção do saber e que tem um passado histórico, no que se refere a outros países, de ligação entre os movimentos feministas e a investigação. Em 2007, um mestrado na Universidade de Coimbra passou a utilizar a terminologia de ―estudos feministas‖, o que pode ser indicador de alguma mudança na perspectiva até agora utilizada.

Bastante vulgarizada está a terminologia ―estudos de género‖. Diremos que se encontra mesmo institucionalizada. Longe de receber o consenso, apesar da sua larga expansão, há quem a considere uma forma de ―despolitizar o campo‖ (MAGALHÃES, 2001:44), dado que se coloca numa perspectiva neutra, sem que se assuma um posicionamento face às relações históricas de dominação masculina sobre as mulheres. Também a investigadora Clare Hemmings considera que os Estudos de Género surgem num quadro de despolitização do projecto feminista académico (HEMMINGS, 2005:108),

embora afirme que existe uma outra concepção: ―a aliança entre estudos de género,

31

estudos queer e teorias pós coloniais é uma condição para a sobrevivência do feminismo na academia. Deste modo esta concepção deveria ser saudada e não criticada‖

(HEMMINGS, 2008:109).

No editorial do primeiro número da revista ex-aequo32 da APEM explica-se a opção pela designação ―estudos sobre as mulheres‖ pelo facto de ela ser ―eficaz no desafio à hegemonia intelectual masculina‖ e por evitar ―a falsa imagem de homogeneidade de perspectivas, em geral associada ao feminismo‖. A pluralidade de abordagens é assim considerada como intrínseca à designação ―estudos sobre as mulheres‖.

3. Da recuperação das mulheres enquanto objecto de estudo à

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