Como foi referido anteriormente, é perfeitamente viável conduzir pessoas cegas (e mesmo não cegas) com o uso de referências sonoras. Cada indivíduo pode fazê-lo, usando um mecanismo constante de determinação azimutal por aproximações sucessivas enquanto caminha até à imediação da fonte sonora, onde nota um pico na sua intensidade e um aumento da elevação, e percebe que chegou ao local.
Figura 83 – Ilustração do trajecto perfeito AB (mais escuro) versus um trajecto típico por aproximações
sucessivas (mais claro)
Na Figura 83 ilustra-se um caso muito simples em que o ponto A e o ponto B têm linha de vista sem obstáculos pelo meio. No entanto, é frequente a situação ser bastante mais complicada, como por exemplo se considerarmos que existe o fosso da linha de metro entre os dois pontos, que obrigue a usar escadas para uma passagem inferior para se chegar ao outro lado. Nesse caso, torna-se necessário coordenar uma série de dispositivos que de forma
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inteligente vão marcando pontos de passagem no percurso. Daí advém o conceito de bóias sonoras ou ―landmarks‖ referido anteriormente. Na Figura 84 ilustra-se isso mesmo sendo representado por ―E1‖ o ponto de início das escadas de descida para a passagem inferior. O ponto ―E2‖ será o do início das escadas ascendentes ainda na passagem inferior.
Figura 84 - Ilustração do conceito de navegação por ―landmarks‖
Pelas situações acima demonstradas, percebe-se o conceito de encaminhamento simples e composto, que o SOS usa no seu funcionamento. Para implementar a situação descrita segundo a filosofia do sistema SOS seriam necessárias as seguintes bóias sonoras:
E1 – a representar o início das escadas de descida para o piso de baixo onde se dá a passagem inferior;
E2 – a representar o início das escadas para a subida para o piso original, mas do outro lado da linha;
B – a representar o destino final já do outro lado da linha (por exemplo o local de embarque no veículo).
Como se pode imaginar, a coordenação da activação e desactivação de sons, parte de uma inteligência de um sistema avançado que é centralizado na sala técnica sem intervenção de operador. Para decidir qual o caminho a adoptar, este sistema deverá ter cinco dados fundamentais: o local de partida, o local onde se encontra num dado momento, a preferência de interface de um dado utilizador (escadas, elevador, ou a opção mais rápida), o tipo de som preferido pelo utilizador, e o destino.
A localização inicial e o destino pretendido, são os dados fundamentais para se traçar um dado roteamento em direcção ao destino seleccionado. Contudo, ter a informação da localização da pessoa pontualmente, ou a todo o momento, também o é, já que se torna necessário coordenar a actuação/desactuação dos dispositivos sonoros. O tipo de som usado e a preferência no uso de interfaces, são efectivamente menos importantes num contexto de encaminhamento, mas ditarão certamente a facilidade e a satisfação com que o fazem.
Guiar as pessoas com som125
No que respeita a conhecer a posição das pessoas em pleno encaminhamento, várias abordagens foram testadas. Numa fase inicial, pretendia-se utilizar o campo gerado por um Access Point Bluetooth para perceber a chegada de um utilizador ao raio de um dado local. O telefone móvel do utilizador registar-se-ia e comunicava centralmente que um dado endereço físico se encontrava no campo desse dispositivo sinalizando a sua posição. Posteriormente, devido a limitações técnicas da tecnologia Bluetooth (elevada latência no registo, consumo nos equipamentos móveis, campo gerado pouco limitado), passou-se a uma abordagem de localização por Wi-Fi absoluta, denominada por WPS. Esta nova forma de localização de pessoas, permitiria teoricamente localizar num dado mapa e a todo o tempo um dado telefone móvel com a mesma tecnologia desde que existisse um software cliente instalado nesse equipamento. De uma forma simples, esse telefone móvel e a aplicação cliente referida, ligar-se-ia à rede Wi-Fi que foi instalada para o projecto (para comunicação VOIP sobre Wi-Fi, como alternativa à ligação GSM) e comunicaria a uma dada aplicação qual as intensidades de sinal recebidas de cada Access Point nessa localização. Essa aplicação, possuindo um modelo previamente concebido do espaço, faria com uma margem de erro relativamente baixa uma previsão do local onde o equipamento se encontraria. Contudo, até à data a empresa fornecedora dessa solução de localização não conseguiu ainda ultrapassar dificuldades ambientais electromagnéticas, sendo os resultados até à data insuficientes para serem usados com confiança em algo tão importante como saber onde as pessoas se devem dirigir, com as implicações que segurança que se podem imaginar, e que serão discutidas posteriormente neste documento. Foi então necessário introduzir um conjunto de técnicas alternativas que substituísse, mesmo que provisoriamente, essa forma de localização. Essas técnicas baseiam-se na confirmação por parte do utilizador da sua posição quando na imediação de uma bóia sonora, e serão discutidas com profundidade posteriormente no ponto 5.4.
Tal como referido, a escolha do caminho a ser percorrido em função dos pontos de partida e de destino, será função das preferências do utilizador. Se ele prefere escadas em vez de elevador, será conduzido sempre por escadas. Se a sua preferência é seguir pelo caminho mais recomendado, aí o caminho escolhido será o mais eficiente independentemente se a forma de mudança de piso é realizada por escadas ou elevador. Para a escolha deste caminho, everedou-se inicialmente por um mecanismo de roteamento automático que decidia em tempo real qual o caminho mais curto colocando pesos nos ramos constituídos pela união de cada ponto onde se encontravam bóias sonoras. Contudo, após alguma análise concluiu-se que este mecanismo para servir completamente todas as condições para um roteamento eficaz, tornar-se-ia muito complicado e pesado, e tendo sidas analisadas todas as possibilidades, optou-se por mudar para um roteamento baseado em tabelas fixas que face a qualquer zona de partida da estação, possui o caminho optimizado para cada tipo de preferência visto caso a caso. A importância de um caminho seleccionado considerando
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questões como o movimento de pessoas numa zona, como a usabilidade da estação, como a existência de perigos para pessoas cegas, ou outras questões mais pequenas, é como se pode imaginar muito importante. A introdução deste tipo de restrições a um roteamento automático, para além de complicado, tiraria a flexibilidade futura a um possível operador administrativo em alterar caminhos, numa medida excepcional de evitar um dado local por motivo de obras por exemplo. Portanto, com uma tabela fixa de roteamento, qualquer pessoa com conhecimento da arquitectura pode operar alterações de forma muito fácil, segura, e eficaz.
A problemática do caminho mais curto, ou do caminho mais rápido, é uma questão incontornável quando se aborda a acessibilidade. É do conhecimento geral que o caminho acessível para pessoas de mobilidade reduzida é quase sempre mais longo e demorado. Isto deve-se normalmente a questões estruturais da arquitectura, e da colocação de elevadores em espaços. Contudo, quando se aborda a acessibilidade para cegos, o melhor caminho é o caminho que a pessoa escolher, supondo que não haja mobilidade reduzida e não haja constrangimento quando ao uso de escadas ou elevadores. No entanto, na presença de alguns perigos como o de queda à linha, ou a existência de esquinas e obstáculos, ou mesmo volumes significativos de trânsito de pessoas em zonas estreitas, colocam na equação do caminho a escolher factores adicionais. Justifica-se devido a esse facto, um dos motivos da escolha do caminho a realizar tendo por base uma tabela pré-concebida.
No que concerne à escolha do tipo de sons a serem usados no encaminhamento sonoro, de forma a cumprir os requisitos referidos, e não incomodar outros utilizadores, a opção recaiu no som de aves. Para além de serem óptimos para serem localizados (como foi demonstrado no capítulo anterior), não incomodam os restantes utilizadores de nenhuma forma. O seu chilrear agradável (de sons pré seleccionados por serem agradáveis e fáceis de seguir) contribui para tornar mais agradável um espaço urbano, mecânico e tenso como o das estações de metro típicas. A experiência no seu uso tem surtido óptimos resultados, tendo até sido alvo de vários recortes de imprensa.