Eu me aposentei em 1972, pelo fundo rural. Aí fiquei ganhando 40 contos, naquele tempo eram 40 contos de réis. Quando eu tinha vindo do hospital, quando eu me aposentei eu ainda estava trabalhando de enxada. Entende? [...]
[Mas antes de me aposentar] eu era obrigado a fazer [trabalhar de enxada] porque não tinha quem me desse de comer, nem tinha aposentadoria, precisava trabalhar pra sobreviver. Trabalhei um tempo em agricultura, pra mim e meu pai, mais para meu pai.
Eu me lembro. Meu pai comprava bode, matava bode e às vezes me levava. Eu andando descalço, que na época a pobreza era grande demais. Eu andando, quando passava naquelas lagoas, quando elas estavam secas, pois, quando vem um tempo seco, elas racham. Aquela lama racha, não é? E eu pisando em cima daquilo ali não aguentava. Os pés doíam demais. Não tinha nada de ferimento, mas doía demais. Meu pai parava lá na frente e dizia: “meu filho, o que é? Está cansado?”. Eu disse: eu não, papai! Meus pés estão doendo. Ele esperava até eu recuperar [...].
A ficção muitas vezes antecipa a realidade, como anuncia Oscar Wilde (2007), “a vida imita a arte muito mais do que a arte imita a vida”. O artifício de ficção a seguir, expressa bem a minha intenção.
A vida transcorria tranquilamente em um belo local próximo de águas frescas e com um sol que fazia brotar as plantações de trigo. Próximo dali passava uma ferrovia que ligava uma pedreira à cidade. Era possível ouvir o som dos trens se aproximando da pequena vila enquanto se observava a agitação dos comerciantes que dependiam daquele movimento para fazer negócios.
Mas contrastando com essa realidade era possível notar que às margens dessa ferrovia dezenas de pessoas sobreviam ao abandono. Entre elas Pablo, um
garoto que ficou órfão aos cinco anos de idade e por esse motivo passou a morar na rua.
Apesar dessa adversidade, diferentemente de uma maioria de moradores de rua que buscavam sustento na esmola, Pablo optou pelo trabalho. E tão logo foi abandonado começou a fazer pequenos serviços nas ruas da cidade, como carregar compras e água em troca de alguns miúdos.
Aos nove anos de idade conseguiu sair das ruas e ir trabalhar em uma fazenda da região, onde passou a morar em um pequeno sobrado que dividia com outros trabalhadores. Certamente o suor no seu rosto e o calo em suas acanhadas mãos é o resultado daquele abandono que marcou decisivamente a sua infância.
No entanto embora esse sofrimento pudesse transformá-lo em uma criança amargurada, Pablo parece enxergar no trabalho um refúgio para aquela dor. O trabalho no campo parecia distrai-lo, pois enquanto colhia o trigo entoava cantigas que rememoravam os seus pais. Às vezes aqueles cantos eram interrompidos por gotas de lágrimas que desciam em seu rosto, outras vezes pelo barulho do trem que se aproximava das plantações. Essa era a rotina que alimentava o seu cotidiano na pequena localidade.
Certo dia, após o serviço, Pablo se banhava nas águas do rio que irrigava a plantação, quando de repente teve a sua visão tomada por uma garota de pele bem viçosa e olhos negros que havia entrado no rio. Embora ela guardasse certa distância dele, era possível ver no seu sorriso a alegria com que fazia do banho uma diversão.
A garota deveria ter uns 15 anos de idade. Para Pablo ao longo dos seus 9 anos e com o seu corpo franzino, ela sequer poderia tê-lo notado. Mas a ansiedade em querer conhecê-la o fez se aproximar dela e perguntar o seu nome. Ela disse se chamar Beatriz. Tão logo iniciaram a conversa, Beatriz ouve o chamado dos seus pais que estavam às margens do rio e corre em direção a eles, encerrando subitamente a conversa com Pablo.
No outro dia antes que o sol pudesse se pôr, Pablo corre para o mesmo local onde avistou Beatriz e ao se preparar para mergulhar nas águas do rio percebe que ela já estava lá e o fitava com um belo sorriso. Ele apressou-se e, com braçadas rápidas, se aproximou dela, estavam tão próximos que era possível sentir a
respiração um do outro. Beatriz se assustou com a situação, e repentinamente correu em direção à vila dizendo que se veriam depois.
Na tarde seguinte Pablo chega ao rio ainda mais cedo e pacientemente esperou o pôr do sol e o cair da noite trazendo o frio às águas, mas Beatriz não apareceu. Por quarenta e cinco dias esteve naquele local em todas as tardes no mesmo horário. Ele parecia obcecado por encontrá-la. Até que, quando pensou que nunca mais voltaria a revê-la, surpreendentemente a avistou.
Ao perceber que Beatriz aproximava-se, Pablo docemente lhe fixou um olhar tão profundo que pôde mergulhar no negro dos seus olhos, nesse momento, de forma inesperada, foi combalido por um beijo. Aquela situação o deixou em êxtase ficando atordoado por alguns instantes. Após se recuperar do susto, emitiu um sonoro suspiro e perguntou o porquê do seu desaparecimento. Gentilmente Beatriz o conteve com um gesto sutil de pedido de silêncio. Disse que precisava lhe contar algo de muito importante e por isso pediu que a escutasse atentamente. Falou-lhe, com certo tremor na voz, porém sem rodeios, que precisava se mudar para outra cidade.
Embora ela demonstrasse aflição após contar os seus planos, Pablo permaneceu tranquilo e confiante, pois precisava ouvi-la, era o momento oportuno para que ela desabafasse. Beatriz, com um olhar triste e aos soluços, contou-lhe que não poderia mais encontra-lo, pois viajaria imediatamente. Nesse momento foi possível que Pablo percebesse a sua aflição e delicadamente segurou-lhe as mãos, transmitindo ternura no olhar.
Beatriz parecia mais calma, mas, como num piscar de olhos, o tomou em seus braços intensamente e confessou ter lepra. A partir desse momento subitamente Pablo a empurrou, escapando daquele abraço, e pediu que ela não o procurasse mais. Atônita, Beatriz desmaia e no chão permanece, Pablo a havia abandonado.
Doente e desiludida Beatriz precisava viajar para se tratar da lepra, pois a cidade não possuía recursos médicos suficientes. Após uma consulta clínica o médico da região informou aos seus pais que viajariam de trem e que tudo seria pago pela prefeitura do local.
Dias depois é chegado o momento da viagem. Beatriz precisava encontrar alguma motivação para superar, além do problema de saúde, aquela decepção, e tentar transformar os momentos de sofrimento e dor em esperança, dando um novo sentido para a viagem.
Rememorando as novelas de Júlio Verne que lia diariamente, imaginou aquela viagem repleta de aventuras, paisagens e de pessoas que poderia conhecer. Beatriz passou a contar as horas que faltavam para embarcar, depositando todas as suas esperanças naquele trem, pois de um lado cuidaria da saúde e de outro da decepção.
Beatriz passou a se imaginar numa longa viagem rumo aos 9300 quilômetros que interligam Moscou a Vladivostok na lendária Transiberiana. Enquanto imaginava-se naquela viagem, era possível sentir todo aquele conforto das cabines aquecidas por ar quente e os sabores mais variados dos coquetéis servidos pela tripulação. Vislumbrava o momento de desobedecer aos seus pais e escapar, ainda que por um instante, dos seus olhares para experimentar a famosa vodca russa.
Mas a aspereza da realidade trouxe-a de volta a sua terra natal e a colocou em outro cenário. A viagem na Transiberiana só poderia continuar a existir em sua imaginação e nas obras de Júlio Verne. Pois, ao contrário daquela fantasia, a sua viagem estava destinada para partir de Puerto Quijarro a Santa Cruz de La Sierra. Em um itinerário de pouco mais de 600 quilômetros de trem, por paisagens e paradas nem sempre agradáveis. Apesar de hoje o percurso ter uma duração de cerca de dezenove horas, naquela época poderia demorar dias e até mesmo semanas.
Ao contrário do luxuoso trem transiberiano, os vagões eram comuns e sem nenhum tipo de aquecimento. Quase sempre estavam lotados e os passageiros viajavam de pé e dormiam no chão. Aqueles que conseguiam uma poltrona para se acomodar logo percebiam o desconforto, pois eram duras e apoiadas em recostos posicionados em noventa graus. A cada parada em uma estação, entravam vendedores de toda a espécie de mercadorias. Oferecendo desde pequenos lanches regionais acompanhados de um refresco que era transportado em um grande balde sem tampa arrastado pelos corredores dos vagões, a animais que eram negociados ali mesmo, tais como coelhos, cães e cavalos.
Em 1950 as comunicações naquela localidade eram restritas aos jornais impressos e ao falatório da população. Beatriz pouco poderia saber além dos boatos sobre descarrilamentos e dos bandidos que aterrorizavam os passageiros, roubando os seus pertences enquanto cochilavam. Beatriz nada conhecia sobre a fama daquela ferrovia, tampouco sobre qual era o destino reservado aos leprosos que usavam aquele trem.
Chegado o dia do embarque, tão logo soa o terceiro silvo na estação, que anunciava a última chamada de passageiros, Beatriz subitamente é arrebatada dos seus pais, por enfermeiros, e lançada no terceiro vagão da locomotiva, enquanto seus pais foram violentamente detidos por guardas. Todos foram surpreendidos por aquela armadilha.
No vagão do trem Beatriz pôde sentir como nunca a solidão e enxergar de perto a dura realidade que a esperava, uma volumosa quantidade de leprosos que definhavam entre os outros doentes iguais a ela, além de um amontoado de corpos embalsamados das vítimas de febre amarela que se abateu sobre a cidade naquela época.
Deprimida e em lágrimas Beatriz caminhou em direção a uma pequena janela, quando pôde enxergar por meio dela Pablo correndo e gritando em direção a locomotiva. Mas era tarde demais, o trem da morte já levava Beatriz para bem distante dali, de onde jamais poderia retornar.
Voltemos à realidade, agora para falar do fenômeno da segregação. O fenômeno da segregação social talvez seja tão antigo quanto o surgimento da sociedade. Segregar, de um ponto de vista semântico, denota desligar, desunir, desmembrar, separar com o objetivo de isolar e de evitar contato. E de certo modo essa acepção confere a terminologia o sentido de fragmentar, despedaçar, partir e até mesmo quebrar.
Diante disso, apesar da definição de segregação, entre outros sinônimos significar “evitar” e “isolar”, o uso dessa terminologia parece encontrar o seu sentido completado quando está associada ao termo estigma. Pois, embora a segregação e o estigma apresentem concepções distintas, e aparentemente independentes, para ambas, a existência de um pressupõe uma relação simbiótica com o outro fenômeno.
O termo estigma originalmente é uma definição criada no mundo grego antigo, com a finalidade de denominar as marcas feitas a ferro e fogo em seus escravos, e essa concepção parece ter servido como uma referência até hoje para designar aquele que deve ser segregado.
O modo de vida e a maneira de organização social descritas por outros povos ainda mais antigos que os gregos como os sumérios, babilônios, assírios e até mesmo os egípcios, revelam um pouco que o sentido do estigma pode ser tão antigo quanto a segregação.
Contudo, a escassez e até a inexistência de informações de natureza documental que resultasse no modo de vida de sociedades ainda mais antigas, dificultam uma pesquisa mais precisa quanto às origens dos fenômenos do estigma e da segregação social. Algumas poucas evidências podem ser encontradas em tabletes mesopotâmicos, o que remete como um importante ponto de partida para os estudos dessa natureza na direção da civilização mais antiga da humanidade, os sumérios.
Situada entre o Mediterrâneo e o Golfo Pérsico, a Suméria localizava-se na região que o historiador grego Políbio chamava de Mesopotâmia, um vasto território com clima quente, porém prestigiado pelo abraço dos rios Eufrates e Tigre, que com abundância irrigavam o solo mesopotâmico. Essa localização privilegiada entre os dois rios possibilitou que diversos grupos étnicos como os sumérios, assírios e babilônicos dominassem sucessivamente essa região em épocas distintas e se desenvolvessem em contraste às terras escaldantes do deserto (OPPENHEIM, 1964).
Nessas areias foram abrigadas por quase 5000 anos verdadeiras relíquias da mais antiga civilização conhecida, os sumérios. A sociedade que se conhece hoje se desenvolveu graças à herança do conhecimento desse povo. Os Sumérios foram os idealizadores e desenvolvedores da escrita e da roda, além de serem os responsáveis por dividir o tempo em minutos e segundos.
Os sumérios dominaram a natureza e construíram cidades gigantescas, o que permitiu que cultivassem a sua cultura e escrevessem o primeiro capítulo do surgimento da civilização. Em suas caravanas cruzaram o deserto abrindo as primeiras rotas de comércio do mundo antigo. No entanto, há 4000 anos essa civilização desapareceu completamente e por um longo tempo a sua própria existência permaneceu um mistério.
A história e a memória desse povo eram conhecidas apenas no Antigo Testamento, mas graças às pesquisas arqueológicas do século XIX as areias do deserto cederam algumas das chaves desta civilização, o que permitiu constatar naquele passado enterrado que nas populações da região mesopotâmica estava o berço da civilização.
A Suméria, conhecida como a terra de reis civilizados ou terra nativa se apoiou em uma organização social estratificada, o que permitiu o seu desenvolvimento, e serviu de alicerce para que outras sociedades posteriores se estruturassem baseada nesse modelo de segregação.
Em sua base estavam os agricultores, pastores e escravos. Mais acima os artesãos, camponeses e comerciantes. Em seguida os escribas, responsáveis pelos registros escritos da cidade. E acima de todos os estratos estava o rei, que também assumia as funções de chefe militar e sacerdote religioso. Essas informações constam nos escritos cuneiformes cunhados em diversos tabletes que se encontram na biblioteca de Assurbanipal (BIRCHETTE, 1973). Diferente do mundo grego, que marcava os escravos a ferro e fogo, na sociedade sumeriana os escribas assumiam esse papel de “estigmatizar”, ao nomear e contabilizar, por meio da escrita, aqueles que seriam controlados e punidos nos diferentes estratos que envolviam o modo de vida do povo Sumério.
A severa organização social dos Sumérios permitiu que se dedicassem a agricultura, com o desenvolvimento de técnicas de drenagem que permitiam o controle sobre as enchentes e a viabilidade na irrigação das plantações. Assim foi possível o desenvolvimento do comércio e de outras atividades econômicas.
Mas a maior herança dos sumérios está na invenção da escrita, por meio dela inauguraram o conceito de civilização, o que impactou no direito, nas artes e em toda a civilização que se conhece hoje. Graças à escrita é possível que hoje as pesquisas desenvolvidas sobre a Suméria se dediquem ao estudo do desenvolvimento dos registros administrativos, econômicos, culturais e políticos da época (KINNIER & REYNOLDS, 1990; MOORE, 1988; OPPENHEIM, 1964; SAGGS, 1965; SPIEGEL & SPRINGER, 1997).
Embora tenha sido pouco discutido por pesquisas que estudam a Suméria, descobertas arqueológicas do século XX revelaram que os sumérios tratavam das questões médicas tanto ligadas à doença quanto à cura, baseando-se em explicações a partir de uma ramificada relação entre deuses, seres humanos e
espíritos que atormentavam os vivos. A etiologia das doenças para os sumérios estava associada diretamente a um pensamento sobrenatural. A enfermidade e a saúde ligavam-se à ação dos deuses, e o adoecimento era uma consequência do afastamento da proteção divina. (BIGGS, 1995; FINGER, 1994; OPPENHEIM, 1964; SCURLOCK, 1995; STOL, 1992).
Na antiguidade e não apenas na Suméria, os sacerdotes exerciam um papel fundamental nas estratificadas sociedades antigas. Além da responsabilidade de conduzir a vida espiritual da sociedade, cabia aos sacerdotes o cuidado sobre os corpos da população. Sendo a sua atribuição identificar a doença e trata-la a fim de promover a cura do doente.
Na Mesopotâmia da Antiguidade o tratamento das moléstias era da responsabilidade de duas instâncias, uma sacerdotal e a outra médica. A primeira que era conduzida por um sacerdote que recebia a denominação de "ashipu" ou "asipu". Esse sacerdote era o responsável pela identificação dos sintomas e a descoberta de qual demônio causou a moléstia. O seu método baseava-se na utilização de recursos adivinhatórios e na realização de um demorado interrogatório. Já o conceito de médico da época era chamado "ashu" (ou "asu"). Possuía a tarefa de tratar a enfermidade prescrevendo a utilização de ervas e poções, juntamente à prática de encantamentos e orações.
Apesar da função sacerdotal e médica utilizarem recursos distintos no diagnóstico e tratamento dos doentes, ambas trabalhavam conjuntamente no atendimento de uma mesma enfermidade. No entanto, o sacerdote acumulava o papel de curandeiro além de outras funções religiosas, enquanto "ashu" atuava exclusivamente na atribuição inerente à atividade médica (ADAMSON, 1991; BIGGS, 1995; SPIEGEL & SPRINGER, 1997).
Na Mesopotâmia, a população utilizava uma concepção médica que se baseava na associação de diversos sintomas a entidades sobrenaturais como demônios e espíritos. Para cada moléstia existia uma referência maligna temível que identificava a doença. Assim, a partir de cada referência demoníaca o sacerdote poderia prescrever o tratamento adequado para que fosse executado pelo doente. Fundamentalmente essas terapêuticas consistiam no uso de poções feitas a partir da mistura de ervas que eram ingeridas pelos enfermos ou espalhadas pelo seu corpo enquanto eram entoados encantos, e a outra forma de tratar esses males amparavam-se em rituais de exorcismo. Algumas dessas referências médicas são
bastante antigas e foram encontradas na Antiga Mesopotâmia e escritas na língua cuneiforme da Suméria, datando cerca de 2000 a.C. (SAGGS, 1965).
Os egípcios antigos utilizariam de outros artifícios para interpretar as enfermidades. O pensamento egípcio antigo baseava-se na imortalidade da alma, que recebia a denominação de “ba”. Os egípcios acreditavam que a mumificação era necessária, pois após a morte, “ba” necessitava daquele corpo para continuar existindo (FINGER, 2000).
No Egito antigo existia a crença de que as moléstias eram provenientes de encantamento, feitiçaria e de espíritos das sombras. O povo egípcio acreditava que esses espíritos tinham acesso aos doentes por meio dos orifícios do corpo e utilizavam dos canais denominados de “metu” para percorrer todo o corpo e contaminar a um órgão ou todo o restante do organismo (MARTÍN-ARAGUZ et al., 2002).
A forma que tratavam esses enfermos consistia muitas vezes na extrusão dessas entidades malignas por meio do uso da força de deuses e do preparo de poções mágicas. O doente era considerado curado caso o mal fosse banido por um dos orifícios pelos quais pôde entrar no organismo (FINGER, 1994; GROSS, 1998; MARTÍN-ARAGUZ ET AL., 2002).
Os antigos egípcios também investigavam as moléstias de modo experimental, a exemplo de um documento que revela essa preocupação. Trata-se de um papiro médico (papiro de Ebers) de cerca de 1500 a.C. O referido documento detalha o fenômeno do transtorno emocional, hoje descrito como histeria. (NASSER, 1987).
O mito da impureza, e os textos sagrados
Passemos agora a focalizar a narrativa sobre a lepra, a partir do livro Vedas, a Bíblia e algumas referências sobre orixás. Iniciemos com o livro Vedas.
Na Índia Antiga os primeiros registros escritos correspondem há 2000 a.C. e relatam a sua cultura, religiosidade e organização social. A denominação desses registros é descrito como Vedas e pode ser traduzido do sânscrito com o significado de conhecimento (KAK, 1997a, 1997b).
Os documentos oriundos dos Vedas são o alicerce de todo o saber da sociedade indiana da antiguidade. Entre os textos mais importantes estão os escritos Atharva Veda, que é um documento essencial para a compreensão da prática médica conhecida como Ayurveda. Essa terminologia sânscrita pode ser traduzida como conhecimento da vida. Todo esse saber da medicina ayurvédica emerge a partir da necessidade em se compreender as relações entre mente, corpo e mundo externo.
A acepção ayurvédica coloca na mesma direção o homem e o universo. Para essa forma de compreensão existe uma relação direta entre o microcosmos e o macrocosmos (Kak, 1997a; SUBBARAYAPPA, 2001). A integração entre princípios fundamentais que constituem o homem e o universo ao seu redor são a base para a compreensão da atividade médica ayurvédica e pauta-se no sistema de ideias denominado Samkhya, originado na Índia há 700 a.C.
O Samkhya alude que a Purusha e a Prakriti são os elos responsáveis pela origem do universo. A primeira pode ser descrita como Consciência Pura e a última Matéria Original Pura. O fato de ambas receberem a denominação de “pura” aponta para a inexistência de um molde estabelecido. Esses princípios produzem o Buddhi, que pode ser entendido como cognição ou intelecto, constituindo-se no elemento essencial para guiar a consciência no mundo externo.
Os saberes desenvolvidos a partir dos Vedas fez florescer o conhecimento