Na memória episódica, que se encontra na memória de longo prazo, estão alocados os modelos mentais. Van Dijk (2012a; 2012b), para falar sobre as crenças pessoais dos sujeitos, elenca nomenclaturas como modelos de evento e modelos de contexto para explicar a interface cognitiva pessoal do discurso, diferenciando-a das crenças sociais ou representações sociais como vistas na seção anterior.
Van Dijk (2012a) afirma que, além dos conhecimentos de grupos compartilhados socialmente, os atores sociais possuem também o conhecimento advindo de suas experiências individuais. E esse conhecimento, essa interpretação pessoal de situações passadas, estabelece-se na memória episódica. Para van Dijk (2012a),
esses modelos experienciais se apresentam na memória episódica como modelos mentais e correspondem às definições ou interpretações individuais específicas representadas mentalmente sobre o conhecimento pessoal de eventos, discursos, sujeitos e seus papéis.
Teun van Dijk (2012b) destaca que a psicologia contribuiu com os estudos do contexto, ao trazer à baila a definição de modelo mental. O modelo mental é entendido como a interpretação individual, o conhecimento e a opinião de determinado tipo de evento social que o sujeito participa, ouve o lê (VAN DIJK, 2012a, p. 204).
Ao analisar a função dos modelos mentais no âmbito do discurso político, van Dijk (2012a) apresenta em resumo algumas das propriedades dessa categoria.
11. Modelos formam a base cognitiva de todo discurso e interação individual. Isto é, tanto na produção quanto na compreensão, pessoas constroem um modelo de um evento ou ação como, por exemplo, o evento de que fala o presente texto, ou a ação que as pessoas percebem e de que participam. Modelos também servem como base referencial de discurso e, dessa forma, ajudam a definir a coerência local e global. 12. Modelos integram novas informações (por exemplo, a compreensão de textos ou a observação de eventos) fragmentos de experiências prévias (modelos velhos), instanciações de informações pessoais mais gerais (conhecimento pessoal, personalidade, self), como também instanciações de informações socialmente partilhadas ( por exemplo, crenças de grupo ou scripts de conhecimento cultural). Em outras palavras, modelos corporificam tanto informações pessoais como sociais e, dessa forma, servem como o centro da interface entre o social e o individual. 13. Pela mesma razão, quando modelos são compartilhados, generalizados e socialmente normalizados, eles podem constituir a base da aprendizagem pessoal e política experimentada. Isto é, as representações sociais gerais e abstratas da memória social são em primeiro lugar derivadas de nossas experiências pessoais e representadas em nossos modelos episódicos (VAN DIJK, 2012a, p. 205).
Segundo Teun van Dijk (2000) os modelos mentais apresentam além das representações subjetivas de experiências individuais, as instâncias da sociedade, opiniões, ideologias e as representações sociais partilhadas, já que precisamos nos comunicar com outros grupos também.
Ao falar sobre os modelos mentais, van Dijk esclarece que os modelos de evento podem ser entendidos como a base de conteúdo interpretado subjetivamente sobre determinada situação. Ademais, van Dijk relata também que os modelos de evento podem ser ideologicamente fundamentados, ocasionando assim significados negativos sobre as minorias.
Já os modelos de contexto são entendidos por van Dijk como contexto, por ser a definição de contexto compreendida também como uma elaboração mental individual de uma determinada situação social. Van Dijk esclarece ainda que os ―modelos de contexto‖ atuam dinamicamente na formulação de planos e estratégias para a apresentação do discurso. Sobre os modelos de evento e contexto, van Dijk (2012a, p. 224) explica que:
Muitas das estruturas de discurso são uma função dos modelos de contexto. Contudo, o discurso não é somente restrito pelos modelos de contexto, mas também pelos modelos de evento, isto é, pela maneira como o falante interpreta os eventos que são falados, como também pelas representações sociais mais gerais compartilhadas pelos membros do grupo [...].
Como foi dito, van Dijk afirma que os discursos não se fundamentam apenas em modelos de evento e em modelos de contexto, mas também por crenças sociais. Sobre as influências que podem sobrevir aos modelos de contexto do falante e consequentemente no seu discurso, van Dijk (2012a, p. 228) assevera ao analista:
Uma análise [...] cognitivamente fundada de significados [...] tentará relacionar a seleção de proposições expressas na fala e na escrita com os modelos de contexto e evento subjacente e com as representações (grupo) compartilhadas socialmente, tais como: conhecimento, atitudes e ideologias. Assim, se o significado [...] está explícito ou implícito, asseverado ou pressuposto, detalhado ou global, se é geral ou específico, direto ou indireto, espalhafatoso ou reprimido, será tipicamente uma função dos modelos de evento ideologicamente embasados. [...] isso em geral denota que significados negativos sobre os Outros tenderão a ser selecionados, enfatizados, explícitos, detalhados, específicos, diretos, espalhafatosos; enquanto mitigações, atenuantes ou negações têm, antes, a função da autoapresentação positiva (ou de evitar uma má impressão), como regulada pelos modelos de contexto (VAN DIJK, 2012a, p. 228).
Logo, uma teoria que leve em conta a perspectiva sociocognitiva deve relacionar, por um lado, as questões da situação social onde ocorre o evento, e, por outro lado, os mecanismos discursivos variáveis que foram estrategicamente adaptados para a manutenção, legitimação, hegemonia e confirmação da estrutura social que naturalizam o consenso ou uma determinada representação social sobre as minorias étnicas, por exemplo.
Sendo assim, o estudo do contexto postulado por Teun van Dijk (2012b) apresenta um ponto de vista diferenciado da concepção tradicional de contexto. As concepções clássicas tratam o contexto como o entorno ―objetivo‖ do discurso. Todavia, van Dijk entende tal categoria a partir de uma concepção sociocognitiva. O contexto, desse modo, é estrategicamente constituído pelo que é relevante para os participantes de um determinado evento, ou seja, o contexto é construído, valendo-se do que é proeminente no mundo aos olhos do sujeito, a partir de suas experiências e vivências. Ou melhor, o contexto se configura a partir da definição pessoal do escritor ou locutor sobre os seus interlocutores, seus conhecimentos, seus papéis, intenções e objetivos como também de seu conhecimento textual prototípico e das categorias contextuais que são preenchidas estrategicamente, por exemplo, onde, quando, por que etc.
Dessa forma, o contexto tem uma base no conhecimento de mundo, valendo-se também da base comum da sociedade, mas tendo em vista a definição da situação social selecionada e elaborada pelo produtor e leitor no desenvolvimento do discurso.
Não é a situação social que influencia o discurso (ou é influenciada por ele,), mas a maneira como os participantes definem essa situação. Portanto, os contextos não são um tipo de condição objetiva ou de causa direta, mas antes construtos (inter) subjetivos concebidos passo a passo e atualizados na interação pelos participantes enquanto membros de grupos e comunidades. Se os contextos fossem condições ou restrições sociais objetivas todas as pessoas que estão na mesma situação social falariam do mesmo modo (VAN DIJK, 2012b, p. 11, grifos do autor).
Teun van Dijk (2012b) salienta ainda que os modelos de contextos possuem algumas funções, assim é importante atentar-se para o que os modelos de contextos exercem ou precisam exercer. Conforme o estudioso, os modelos de contexto monitoram a maneira como os participantes de uma interação falam ou escrevem e compreendem o evento discursivo, como também capacitam os integrantes do discurso a adaptar o texto, a fala e o entendimento do evento à situação comunicativa, conforme o que for relevante para os interactantes no momento da situação interativa e, além disso, conectam o desenvolvimento do discurso em todo seu aspecto multimodal com a teoria cognitiva do processamento do texto.
Van Dijk (2012b, p. 12) ressalta também as seguintes funções dos modelos de contexto: estabelecem os aspectos ou as condições de ajustamento ou adequação, restrição discursiva, logo, torna-se o fundamento para os estudos da pragmática e são também os princípios para os estudos do estilo linguístico, do gênero discursivo, do registro e da variação em qualquer dimensão do discurso, isto é, ―são o elo faltante entre o discurso e a sociedade, entre o pessoal e o social e entre a organização em níveis e a estrutura‖ (2012b, p. 12).
Os modelos de contexto podem ainda ressaltar a influência, não direta, das estruturas sociais sobre as estruturas do discurso, contrapondo-se a outras disciplinas como, por exemplo, a sociolinguística, como também explicitam como o contexto pode restringir ou monitorar aspectos do discurso que são relevantes para os interactantes conforme seus conhecimentos de mundo experienciados individualmente, portanto não observáveis e, além disso, estão entre as bases dos ECD e outros estudos de questões sociopolíticas.
Sobre os modelos de contexto, esses intermedeiam a relação entre os modelos de evento e o discurso, conforme ressalta van Dijk (2012a p. 211-212). Sobre isso o autor relata que:
enquanto modelos mentais de eventos podem ser vistos como a base do ―conteúdo‖ ou do significado do discurso, modelos de contexto
tipicamente controlam não apenas o que está sendo dito, mas especialmente como é dito (VAN DIJK, 2012a, p. 211-212).
Por fim, vale destacar ainda duas questões sobre os modelos de contexto: eles anunciam somente parte do modelo de evento e o seu uso, a ativação e mudança ocorrem por meio de estratégias.