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La surveillance diffuse: une fiction pleinement instituée dans nos sociétés

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Introduction générale

Paragraphe 2: La surveillance diffuse: une fiction pleinement instituée dans nos sociétés

Numa primeira visão importa compreender os impactos que este projeto teve a nível mais pessoal e interrelacional, principalmente, nos participantes, jovens e senhoras. Como veremos, a grande maioria refere um grande impacto a este nível.

Comecemos pela opinião dos jovens. Um dos adolescentes (13) sente que o Sem Legendas “Mudou na visão como olho para os artistas e para os espetáculos. Mudou também um pouco a minha opinião em alguns assuntos, penso agora de uma forma mais “adulta”.” Efetivamente a arte tem a capacidade de fazer desenvolver o olhar para o mundo, de mudar as pessoas, de ser “(...) despoletador de sentidos e um instrumento de enriquecimento individual extremamente poderoso” (Honrado in Barriga e Silva, 2007:

22). Reforçando ainda este pensamento, um dos adolescentes (13) diz-nos que: “Este projeto mudou um pouco a minha maneira de ver a vida. Com este projeto consegui ver (...) a união, convívio, interajuda (…)”.

Nos adolescentes sente-se um maior impacto, não só pelo sentido de maturação, como também a nível físico e de relação com o seu corpo. Como diz um dos adolescentes (14), “(...) conheci pessoas que desenvolveram-me muito como pessoa; (...) Descobri uma nova forma de arte para mim; (...) Também aprendi a relaxar e a movimentar-me de uma forma que desconhecia.” É interessante verificar a importância não apenas do desenvolvimento, mas também o autoconhecimento, tanto físico como mental. Pelas palavras de Caldas (in Caldas e Pacheco, 1999: 22) “Aqui, no teatro, trata-se de experimentar outras possibilidades do corpo. Experimentar o corpo de outro - do personagem. E quem diz corpo diz também «alma», isto é, outra forma de ser”. Uma das atividades realizada no decorrer dos ensaios do projeto, os autorretratos, foca esta questão da individualidade, da pessoa se conhecer a si e conhecer o outro. Um dos adolescentes é um bom exemplo do modo como esta atividade surtiu efeito, pois apesar da dificuldade deste exercício ele diz que: “Uma das minhas melhores experiências foi na fase 3 do projeto (os ensaios) onde no início dos ensaios, cada 1 de nós, falou da sua vida. Isso foi de facto um dos melhores momentos do projeto” (Adolescentes: 13).

Nas senhoras conseguimos perceber claramente que este projeto teve um impacto enorme, principalmente a nível emocional e a nível de relação com os jovens, pois várias destas senhoras demonstraram-no claramente:

- Sénior 2: “(…) eu acho que foi uma mais-valia os jovens estarem connosco.” (Séniores: 16);

- Sénior 5: “Foi das coisas que eu gostei mais foi de trabalhar com jovens.” (Séniores: 16);

- Sénior 3: “Neste momento, a coisa que mais me agradou foi trabalhar com jovens.” (Séniores: 16).

Como podemos ver, a convivência entre os jovens e estas senhoras trouxe uma alegria extra e, como disse uma das séniores, foi uma mais valia, já que acabou com os estereótipos e juntou duas gerações que nos dias que correm estão, infelizmente, muito desconectadas uma da outra. Galvani (in Pacheco e Caldas e Terrasêca, 2007: 13), “(...)

afirma que é necessário reencontrar a experiência concreta, corporal, existencial, para produzir sentido e evitar afundar-se nas representações mediáticas”.

As Séniores demonstraram também um grande apreço pela oportunidade de trabalhar neste projeto, pois sentiram-se acarinhadas, incluídas e acolhidas, de tal forma que uma delas testemunha, inclusive, que o Sem Legendas: “Deu-me vida, deu-me alegria, parece que me deu saúde, deu-me vivacidade, deu-me cada vez mais vontade de viver, de participar e de entrar em coisas novas e conhecer coisas novas e pronto é isso.” (Séniores: 16). Como podemos ver, este projeto foi de tal forma transformador que deu a estas senhoras um sentimento de vida, de pertença e, para além disso, saúde. Considero que este foi um impacto bastante forte, que ninguém esperava quando o projeto foi pensado, mas efetivamente este tipo de projetos podem trazer mudanças enormes nos indivíduos que participam neles. A respeito do impacto deste género de projetos, Canário (1999: 81) diz que, este “(...) valoriza a aprendizagem por (...) oportunidades educativas vividas no quotidiano. Estas oportunidades educativas definem-se pelos seus efeitos e não pelas intenções, não sendo, portanto, necessariamente conscientes”. Efetivamente, estes efeitos não foram conscientes, no entanto foram cruciais, pois mais uma vez a Sénior 1 diz-nos que, “(…) o Sem Legendas foi uma parte muito importante da minha vida, desta altura da idade e que realmente valeu a pena todo e qualquer momento, eu não digo que perdi, mas que ganhei a vir aqui” (Séniores: 16).

No que concerne à opinião dos profissionais acerca dos participantes, as suas opiniões variam. No entanto têm sempre três pontos em comum, que são de facto a mudança, a transformação e o impacto.

Segundo a Coreógrafa (20),

“No que respeita ao lado mais prático (…) Sente-se bastante diferença porque, também se calhar mais os adolescentes até que as senhoras, não tinham grande noção nem consciência, nem às vezes, até sensibilidade para trabalhar o movimento e para trabalhar as propostas que lhes são feitas de movimento e hoje em dia há um entendimento daquilo que eles estão a fazer, há um entendimento do sentido que está por detrás dos movimentos que fazem, das opções que têm de fazer que é completamente diferente.”

Podemos perceber que a nível físico (neste caso a dança), os participantes começaram a ter uma consciência maior sobre o seu corpo, sobre o espaço, o tempo,

começaram a aprender e a pensar sobre o que aprenderam. Trata-se, portanto, de uma mudança importante, uma vez que, pelo menos neste momento, depois de o projeto ter terminado, antes de agir os participantes pensam. Como diz Freire (1979: 43), “(...) o verdadeiro diálogo não pode existir se os que dialogam não se comprometem com o pensamento crítico; (...) pensamento que percebe a realidade como processo de evolução, de transformação, e não como uma entidade estática; pensamento que não se separa da ação, mas que se submerge, sem cessar, na temporalidade, sem medo dos riscos”.

Já o Bailarino (27), apesar de considerar que este projeto teve impacto em todas as pessoas que participaram, considera que este se fez sentir especialmente nos mais novos. Pelas suas palavras:

“Acredito que tenha alterado mais os mais novos do que os mais velhos, ainda que as senhoras me pareçam bastante motivadas e sensibilizadas (…) sinto que crias ligações com as pessoas, sentes que as pessoas crescem também no ponto de vista de trabalho de interpretação, perceber o que é que é um espetáculo, entrosamento entre eles. Acho que sim, acho que está. Sinto-me a crescer com o projeto e sinto que os mais novos e os mais velhos também. E os mais novos em particular sinto que com o passar do tempo têm uma abertura cada vez maior, com os mais velhos isso já existia mais ou menos à partida, os mais novos sinto- os a abrirem-se de alguma maneira.”

Efetivamente, notou-se esta abertura nos jovens, mais do que nas senhoras, tanto no modo de encarar, de olhar, para as artes performativas, como a nível de relações; tanto uns com os outros, como com as pessoas mais velhas. “Aprender a ouvir e diferenciar, aprender a olhar e reconhecer, aprender a exprimir-se pelo gesto e pelo movimento, aprender a jogar com as palavras e os seus ecos imaginários… A educação artística repousa sobre uma aprendizagem concreta pessoal e colectiva, sobre um fazer comprometido” (Deldime in Pacheco e Caldas e Terrasêca, 2007: 75). Apesar de todas estas aprendizagens, não concordo com o Bailarino, quando diz que considera que o impacto é mais sentido nos jovens. A minha opinião vai ao encontro do que o Encenador refere, ou seja, o impacto deste projeto e a mudança que ele trouxe fez-se sentir e notar em todos os participantes, jovens e senhoras. Nas palavras do Encenador (24),

“Acho que a nível de grupo, de todos os participantes do Sem Legendas, acho que isto realmente lhes tem mudado desde o primeiro dia, isto tem-lhes mudado

a vida, mesmo! A Sénior 6 dizia-me isto “Abençoada a hora em que eu disse que sim a este projeto” porque realmente, eles sentem que isto tem um peso importante na vida deles. (…) Eles sentem que a nível pessoal eles cresceram tanto.”

Posso dizer que foi notório o impacto que este projeto teve em todos os participantes. E que promover a relação entre estas duas gerações foi, sem dúvida alguma, um elemento crucial para a mudança e a transformação no público.

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