naissance et développement d’un phénomène de société
Paragraphe 1: Analyse de la diffusion mondiale de la surveillance: entre phénomène social et phénomène juridique
No que concerne aos profissionais também se sentiu uma enorme aprendizagem não só a nível pessoal, mas principalmente a nível profissional, pois nenhum tinha participado num projeto desta dimensão com a comunidade e, para além disso, nunca tinham tido a oportunidade de trabalhar com dois grupos de participantes tão diferentes (jovens e séniores). O papel destes profissionais foi de facto crucial para o impacto sentido nos participantes, pois, eles “(...) [perpetuam] uma espécie de disciplina familiar - habitual, que «protege» o difícil equilíbrio entre as várias disciplinas articuladas no trabalho artístico: a concentração; a observação; o «outro» jogo com o outro; a experiência de emoções diversas; a sintonia de grupos e as forças inconscientes que afloram na criação (...)” (Caldas in Caldas e Pacheco, 1999: 27).
Contudo, como já referi, os profissionais não sentiram só as mudanças nos participantes, mas também as sentiram na forma como trabalharam com eles. Esta experiência do Sem Legendas foi, claramente, muito forte para todos e o facto de trazer aos profissionais a oportunidade de experimentarem outras práticas, fez com que estes aprendessem com ele.
A Coreógrafa (20) diz-nos que: “(…) sei bastante bem lidar com as questões de energia e capacidades físicas de um adolescente, mas em relação às senhoras mais velhas eu não tenho grande experiência ou praticamente nenhuma, portanto tinha bastante medo de não saber trabalhar a partir dos corpos delas. E talvez para mim isso tenha sido a parte mais marcante enquanto experiência profissional”. De facto, trabalhar com senhoras já de alguma idade a nível corporal pode ser um desafio muito grande, no entanto, estas senhoras ajudaram a Coreógrafa a perceber que é possível trabalhar com elas, que quando não conseguem exprimem-no ou pedem alternativas viáveis. Assim, sinto que, as
seguintes palavras de Caldas (idem, 1999: 33), “Com eles tenho (re)aprendido a pensar no público a quem me quero dirigir. A não me esquecer que a sua presença é a razão da existência da minha arte. A procurar uma comunicação diversificada, geradora de vários níveis de leitura que possam abrir o espectáculo aos múltiplos entendimentos e percepções”, descrevem, dentro do possível, o que a Coreógrafa sentiu.
A nível mais pessoal, a Coreógrafa (20) considera que, “(…) é surpreendente até para mim a forma como eles se entregaram todos ao projeto de uma maneira muito empenhada, muito genuína, muito generosa e isso é muito forte”. Posso dizer que esta surpresa surge pelo facto de serem pessoas de idades tão distintas e, para além disso, serem pessoas tão diferentes umas das outras e terem opiniões tão diversificadas. Contudo, esta é uma surpresa positiva, pois, a partir do momento em que alguém ou alguma instituição cultural se propõe a lançar e,
“(...) estimular a produção da cultura pelos grupos, mas não só isso: também valorizá-la oferecendo opções para que os envolvidos possam apropiar-se dela e veiculá-la, tendo-a como produto sociocultural, inerente ao contexto de seu diário viver. Tal processo constitui uma forma profícua e coerente de produzir movimentos de resistência contra a influência de estereótipos massificados” (Simão e Tassoni, 2015: 166).
Considerando estas questões, o Bailarino (27) salienta que, o Sem Legendas, “está a transformar-me e sinto que está a transformar o grupo e isso há-de ser evidente qualquer que seja o resultado que se tenha no momento do espetáculo, acho que há-de ser evidente essa transformação”, ou seja, esta transformação há-de ser de tal forma grande que se vai fazer sentir, inclusive, no público exterior ao projeto.
Ainda segundo o Bailarino (27), “O trabalho com não profissionais altera sempre o teu ponto de vista (…) ganhas por perceber que os egos das pessoas que ali estão, estão em sítios diferentes que não há competição propriamente, há partilhas de momentos e isso é o que de melhor há”. É interessante o impacto que o trabalho com estes participantes teve no Bailarino, pois aquilo que o fez alterar o seu ponto de vista foi a simplicidade e a humildade destas pessoas, foi a partilha, foi a abertura delas para com ele, foi perceber que, mesmo a nível profissional, as relações com os outros interessam e não só as competições. Considero que as seguintes palavras de Lafontana (in Caldas e Pacheco, 1999: 43), demonstram de uma forma bastante simples o que o Bailarino sentiu, “para
muitos de nós - actores, bailarinos, coreógrafos e encenadores - tem sido uma oportunidade única para contactar com a esfera da educação e comprovar a importância, a eficácia que esta actividade pode ter na formação do indivíduo”. Desta forma, percebemos que nasce aqui uma vontade de mudar, de transformar o mundo das artes, percebe-se que a educação e a mediação são pontos fundamentais para as artes e que juntos têm a capacidade de transformar todas as pessoas.
Para o Técnico, este projeto estava fora do contexto em que habitualmente está inserido, o que fez com que, mais do que gravar as entrevistas, tivesse a oportunidade de ir mais ao Teatro, que como vimos é muito enriquecedor a vários níveis. Neste caso, pelas palavras do Técnico: “O Sem Legendas por acaso acabou por ser um projeto para mim mais do que só gravar vídeos porque também foi sempre uma componente de ir ao teatro. (…) é uma coisa interessante e também puxa um bocadinho pelo meu intelecto.” Percebemos então que as mudanças sentidas no Técnico foram principalmente a nível intelectual, de imaginação, criatividade, o que se irá sentir nos seus trabalhos futuros.
Depois de todas estas opiniões, penso que, quem sentiu mais impactos e transformações a nível profissional, foi o Encenador, que tanto realça o trabalho em equipa como a questão da direção partilhada e a responsabilidade, pois, efetivamente ter todos estes participantes ao seu encargo faz com que estes pontos venham ao de cima. Pelas suas palavras, a nível profissional, o projeto teve impacto pois:
“O meu sentido de responsabilidade apurou-se muito, porque de repente eu tinha dezoito pessoas a meu cargo. (…) Depois também apurei uma coisa que eu se calhar não tinha tido acesso durante muito tempo que era trabalhar em equipa, enquanto criador, porque as minhas criações, tudo o que eu fiz até agora, foi sempre a nível individual e nunca tinha dividido uma criação com ninguém, portanto também aprendi muito e estou sempre a aprender com a Coreógrafa nesta questão da criação partilhada.” (Encenador: 24)
3. Na relação com os outros (o social e as artes