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Le mythe de Narcisse au service de la culture de la surveillance diffuse

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naissance et développement d’un phénomène de société

Paragraphe 2: Le mythe de Narcisse au service de la culture de la surveillance diffuse

Apesar de, na sociedade atual, a infância ser uma categoria geracional altamente protegida, sendo considerada uma fase essencial para a formação e desenvolvimento dos seres humanos, esta consiste numa ideia muito recente em termos históricos, nomeadamente por referência à sociedade ocidental. Por exemplo, “… durante grande parte da Idade Média, as crianças foram consideradas como meros seres biológicos, sem estatuto social nem autonomia existencial.” (Sarmento, 2004: 10 e 11). Estas eram vistas como um atributo pertencente ao universo feminino, uma vez que dependiam deste até adquirem e revelarem capacidades para trabalhar, ou seja, de se integrarem no mundo adulto. “Daí que, paradoxalmente, apesar de ter havido sempre crianças, seres biológicos de geração jovem, nem sempre houve infância, categoria social de estatuto próprio.” (Idem: 11). Esta é uma teoria defendida por Philippe Ariés, pioneiro no estudo da história social da infância, na obra A Criança e a Vida Familiar no Antigo Regime, debruçando-se nas transformações que ocorreram na família, na importância dos sentimentos e no processo da institucionalização das crianças.

Segundo Ariès “(…) a civilização medieval não percebia um período transitório entre a infância e a idade adulta.” (inHeywood, 2004: 23), integrando as crianças no mundo adulto por volta dos 5/7 anos (altura em que se tornavam mais autónomas) no qual participavam nas atividades quer de trabalho quer de lazer dos adultos. Estas eram assim encaradas como adultos em miniatura, tendo a infância de esperar pelos séculos XV, XVI e XVII para ser “descoberta” 12 (idem: 23). Ariès explica que a postura assumida relativamente à infância devia-se à falta de sentimentos e investimento emocional para com as crianças, podendo esta ser entendida como uma forma de os adultos salvaguardarem os seus próprios sentimentos dada as elevadas taxas de

12Ariès foi criticado por vários autores relativamente à crença da ausência de infância durante a Idade Média, sendo

considerando como alguém que assumiu, durante o seu estudo, um caráter extremamente “centrado no presente” (Heywood, 2004). Segundo estes autores o facto de não se encontrarem claras evidências da conceção de infância no século XII, não quer dizer que não houvesse a consciência desta etapa da vida, chamando a atenção para a possibilidade de uma consciência de infância diferente da atual (BerkvaminHeywood, 2004).

Neste sentido, é importante referir que quando se reflete acerca da infância deve-se ter em conta o tempo, o espaço, a estrutura social, etc., a que se refere, visto que esta pode assumir diferentes significados mediante o contexto, podendo assim afirmar-se que não existe uma infância mas sim infâncias. Esta consciência vai ao encontro da ideia de Flanklin (citin Pinto & Sarmento, 1997: 17) quando refere que “A infância não é uma experiência universal de qualquer duração fixa, mas é diferentemente construída, exprimindo as diferenças individuais relativas à inserção de género, classe, etnia e história. Distintas culturas, bem como as histórias individuais, constroem diferentes mundos da infância”.

mortalidade infantil. Neste sentido, as crianças só adquiriam algum estatuto se ultrapassassem os primeiros anos de vida (Soares, 2001).

Com o passar dos séculos a sociedade ocidental foi sofrendo algumas transformações, nomeadamente, o desenvolvimento de práticas higienistas, que promoveram a diminuição das taxas de mortalidade infantil, assistindo-se, assim, a uma transformação relativamente aos sentimentos pelas crianças e à postura para com a infância, começando a infância, a partir dos séculos XVI e XVII, a ganhar alguns contornos e reconhecimento. Ariès (1988) distingue duas etapas neste reconhecimento, a primeira, decorrida durante o século XVI e designada por período de mimo, surge de “(…) um novo sentimento de infância, que faz da criança, da sua ingenuidade, do seu encanto e da sua graça uma fonte de divertimento e distracção para o adulto, aquilo a que poderíamos chamar sentimento de «criança-brinquedo»” (Ariès, 1988: 184). Este primeiro sentimento de infância surgiu do meio familiar, por outro lado o segundo, correspondente ao período moralista que emergiu no século XVII, proveio de fontes exteriores à família, nomeadamente de moralistas e educadores, homens da igreja, que encaravam a infância como um período de imaturidade (Soares, 2001) e as crianças como criaturas frágeis de Deus (Ariès, 1988) que necessitavam de serem disciplinadas e moldadas para se tornarem adultos.

As transformações ocorridas, durante estes dois séculos, contribuíram para a descoberta da infância no século XVIII. Neste sentido a criança, retirada do seu antigo anonimato, passa a ter uma maior importância no seio da família, tornando-se, esta última, num lugar privatizado de afeição entre esposos e entre pais e filhos e organizando-se em torno da criança, aumentado assim o interesse por todos os aspetos da sua vida, nomeadamente, a sua educação e formação. A criança deixa de ser o «companheiro natural do adulto» (Renaut, 2004) e é separada da vida coletiva sendo “(…) submetida a um regime especial, a uma quarentena, antes de lhe ser permitido juntar-se aos adultos.” (Ariès, 1988: 321), marcando-se assim uma distinção entre o mundo dos adultos e o das crianças. No entanto, este regime correspondente ao período de frequência da escola e dos colégios foi, durante muito tempo, uma realidade usufruída apenas pelas crianças pertencentes a classes mais ricas, à nobreza e à burguesia, uma vez que as crianças das classes mais pobres continuaram ainda a trabalhar, por muitos anos, desde tenra idade. Contudo, a importância da educação na

infância produziu alguns efeitos e alterações nesta, nomeadamente a diferenciação de níveis e ritmos de ensino adequados à idade, uma vez que, até ao século XVIII, a população escolar que frequentava uma mesma aula caracterizava-se por conter um leque de idades bastante alargado. Apesar da separação de idades, naquela altura não se sentia a necessidade de distinguir a infância da adolescência ou juventude, por isso “Estas duas categorias etárias continuavam ainda a confundir-se: distinguir-se-ão mais tarde, no decurso do século XIX, graças à difusão, entre a burguesia, de um ensino superior: universidade ou escolas superiores.” (Idem: 203). A construção social da infância contribuiu, também, para a criação de escolas como instâncias públicas de socialização e formação, durante toda a época da Modernidade, tornando-se a escola uma instituição privilegiada do Estado, na medida em que passou este a assumir responsabilidades na educação e formação das crianças, de modo a garantir o futuro e a grandeza de uma nação.

Para além de Ariès, outros historiadores mostraram interesse e desenvolveram estudos sobre a história da infância. Por exemplo, Hendrick (in Soares, 2001) direcionou os seus estudos para a evolução da infância na sociedade inglesa, tendo desenvolvido uma periodização das conceções de infância a partir do século XVIII. A referência a estas conceções, neste capítulo, deve-se ao facto destas se aproximarem à realidade da infância no contexto histórico e social português. Hendrick distinguiu nove conceções de infância que se distribuíram pelo período de tempo marcado entre o século XVIII e o século XX, apresentando:

criança romântica surge no século XVIII, fruto do debate sobre a boa ou má natureza da criança. Esta conceção centra-se essencialmente na filosofia da criança boa apresentada por Rousseau, valorizando-se assim a inocência e a naturalidade da criança;

criança operária ou trabalhadora surge na sequência da Revolução Industrial e caracteriza-se pela mão de obra infantil encarada, na altura, como necessidade e manutenção da economia familiar;

criança delinquente característica do século XIX e uma consequência da entrada precoce da criança no mundo do trabalho que lhes permitia adquirem uma autonomia prematura que se

traduzia em comportamentos e situações de vadiagem e de delinquência;

criança médico-psicológica surge, também, no século XIX na sequência dos progressos e do interesse da medicina e da psicologia pelo desenvolvimento infantil;

criança aluno surge associada ao desenvolvimento da escola e à sua institucionalização, que se fez sentir a partir do século XVIII. A escola assume-se, para além de aquisição de saberes e conhecimentos, como um importante meio de socialização e de aperfeiçoamento de comportamentos, de modo a controlar e evitar comportamentos delinquentes.

criança bem-estar aparece no final do século XIX e inícios do século XX como uma consequência dos investimentos na prevenção social e nas áreas da saúde e educação e do reconhecimento legal das crianças;

criança psicológica emerge no século XX com o interesse e os estudos desenvolvidos pela psicologia relativamente à criança e ao seu desenvolvimento;

criança família e criança pública resultam dos efeitos nefastos dos períodos de e pós guerra. As crianças ficaram privadas do contacto temporário ou prolongado com a família, devido ao afastamento das mães no período de trabalho ou às evacuações em tempos de guerra, tornando, por um lado, mais visíveis os laços familiares e, por outro, uma visão pública das respostas sociais aos problemas de orfandade.

No seguimento das transformações sociais que marcaram os últimos séculos, contribuindo para a construção social de infância, as crianças adquiriram um estatuto na sociedade, passando a ser encaradas como seres sociais. Para além de seres ativos e promotores de cultura, a sociedade passou a assumir as crianças como cidadãos que possuem um conjunto de direitos que lhes permite serem reconhecidos, respeitados e viverem em sociedade, podendo assim falar-se em mais uma conceção de infância, a criança cidadã.

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