Em meados de 1940, Goodman sentia-se completamente fracassado em seu trabalho, e, alguns anos depois, a tarefa proposta por Fritz Perls de fundar uma nova abordagem
psicoterapêutica fez com que se reabrisse uma luz frente à sua necessidade de fundamentação de sua posição anarquista. O convite de Perls possibilitou que suas leituras acerca do pragmatismo, da psicanálise e da fenomenologia fossem, agora, sintetizadas em uma nova compreensão de clínica, e essa era a oportunidade de criar uma teoria da natureza humana genuinamente ácrata e não dogmática. Agora, seu propósito era pensar uma ideia de natureza humana que comportasse as formas de criação, sem que isso recorresse a uma teoria genética ou teleológica, tal como, de certa forma, acabaram sucumbindo seus interlocutores. Para Goodman era necessário pensar uma teoria formal que pudesse pensar a experiência como fundamento, e, principalmente, os modos como a criação se constitui em um fluxo experiencial. Uma anarquia radical precisa ser pensada a partir de um programa que não se submeta a uma teleologia. Se há uma promessa por trás do programa, no entendimento de Goodman, isso não é verdadeiramente anárquico. Sendo assim, se o propósito da anarquia é desconstruir esses lugares dogmáticos de promessa, logo, é necessário pensar uma ontologia que compreenda a experiência sem recorrer a esses artifícios.
A partir dos escritos de Fritz Perls (2002), Goodman elege um ponto de partida importante, que, de certa forma, já era alvo de suas investigações anteriores, a saber, “o campo organismo/ambiente” 165(PHG, 1994, p.4). Perls já havia proposto em sua releitura do pensamento psicanalítico (ainda anterior à criação da Gestalt-terapia), que seu propósito era o de “examinar algumas reações psicológicas e psicopatológicas do organismo humano em seu ambiente” (Perls, 2002, p. 39), e desta forma, continua ele, deve-se partir do pressuposto que a sua “concepção central é a teoria de que o organismo se esforça pela manutenção de um equilíbrio que é continuamente alterado pelas suas necessidades, e recuperado por sua satisfação e eliminação” (idem). Essa ideia poderia, aparentemente, não ser novidade para Goodman. Isso porque o autor americano já era um leitor assíduo de uma das principais bases que Fritz havia utilizado para pensar a noção de organismo, a saber, o pensamento de Wilhelm Reich. De fato, tanto Goodman (1991a, 1991c) quanto Perls (2002) irão considerar fundamental a
importância de Reich para se pensar a medicina psicossomática e a tentativa de superação, na psicanálise, da diferença ontológica entre o mental e o corporal. Porém, para Goodman, a teoria reichiana era por demais centrada no organismo, tal como se ele pudesse ser pensado à revelia da relação intrínseca com o ambiente. E, assim,
Na minha opinião, um grande defeito na teoria reicheana é que ele concebe o organismo muito mais isolado e auto- suficiente do que ele realmente é. Psicologicamente, isso leva a pensar o self como um self-como-um-corpo166 (Goodman,
1991g, p. 85)
Porém, as ideias de Fritz Perls pareciam romper com essa perspectiva de Reich. Isso porque, por mais que Fritz estivesse trabalhando com a noção de uma autorregulação organísmica e da necessidade de compreensão do “organismo-como-um-todo”, para Goodman, essa perspectiva parecia abrir uma reflexão acerca dos modos como haveria a interface entre o organismo e o ambiente167. Isso porque, para além de Goldstein, Fritz Perls inclui em seus debates o que ele aprendera com o Primeiro Ministro da África do Sul, Jan Smuts. Smuts, a partir de sua perspectiva holística, apresentava a importância de compreender o organismo sempre em sua constante relação com o seu meio circundante, apontando que o Holismo estava muito mais interessado nas relações do que nas substâncias (Crema, 1989). Essas ideias estavam mais próximas dos primeiros trabalhos de Kurt Goldstein, antes de ele cair no mesmo problema de Reich, ou seja, em centrar-se por demais no funcionamento intrínseco do organismo (Hall e Lindzey, 1984). Isso porque Goldstein percebia no processo de autorregulação do organismo uma
166 “my opinion there is a grave defect in Reichian theory, He regard the
organism as much more insulated and self-contained than it is. Psychologically, this comes to thinking of the self as the self-of-the- ‘body’” No original.
167 Tal como fora mostrado em outro trabalho (Belmino, 2014a), em
seus escritos posteriores, Fritz Perls acaba retornando para uma compreensão mais próxima da de Reich, a saber, a da autossuficiência do organismo.
forma de pensar a intencionalidade operativa como algo que se apresentava nos atos que se produzem na interface do organismo e seu ambiente, sem que fosse necessário recorrer à noção de uma consciência ou de uma racionalidade que lhe desse sustentação. Por mais que essa ideia não levasse em conta o fundo temporal e a intersubjetividade transcendental advinda do pensamento de Husserl, ainda assim, era um modo de compreender a dinâmica figura/fundo na experiência empírica, sem recorrer ao positivismo lógico ou ao psicologismo, tal como fizeram os gestaltistas da primeira geração (Muller-Granzotto e Muller-Granzotto, 2007).
Fritz Perls (2002) conseguira produzir uma leitura muito peculiar desse modo como Goldstein pensa a intencionalidade operativa, procurando trazer essa ideia da dinâmica da ação criativa do organismo integrada ao pensamento psicanalítico. Dessa forma, a proposta de Fritz era entender o ego, tão caro às teorias psicanalíticas, como uma função do organismo. Nesse sentido, sua proposta é desconstruir a ideia substancial do ego, afinal, “na teoria psicanalítica a concepção do ego como uma substância é geralmente aceita” (Perls, 2002, p. 205). Nas teorias de Federn, Sterba, Anna Freud, entre outros, há uma ênfase no caráter substancial das dimensões da metapsicologia oriunda da segunda tópica freudiana (Id, Ego e Superego). Com isso, a proposta de Fritz Perls é compreender o ego como aquilo que se constitui como órgão de troca entre o organismo e o ambiente. Essa ideia vai servir de base para que Goodman (PHG, 1994) possa pensar o self não como o organismo, mas sim como o campo que se estabelece a partir da fronteira entre o organismo e o ambiente. Fritz, com essa compreensão acerca da natureza funcional do ego, começara a ensaiar uma leitura organísmica da psicanálise, e pudera fazer essa interlocução entre as ideias de Goldstein e Freud.
Dessa forma, essa ideia de Fritz Perls conseguia apontar os caminhos para uma solução possível para as falhas que Paul Goodman encontrava na psicologia funcionalista de John Dewey. De fato, Dewey conseguia trazer uma compreensão da interlocução entre o organismo e o ambiente, porém, faltava a ele uma teoria do inconsciente, e, mais do que isso, seus recursos à cientificidade e à racionalidade eram inaceitáveis para Goodman. A saída de Perls conseguia integrar o modo como aquilo que há de desconhecido na experiência humana (o inconsciente, mas
agora entendido não mais como defesa, e sim como uma releitura organísmica da intencionalidade operativa) se apresenta como ação no presente, sem que isso precise de uma consciência racional que faça essa mediação. O ego não é uma consciência racional, mas a ação do organismo e na interface com o ambiente.
O esforço de Perls (1977) se fazia em desconstruir as dicotomias presentes no pensamento psicanalítico, mas não só nele, e sim em todo o pensamento moderno. Sua estratégia era a de reduzir toda a discussão metapsicológica às formas como o organismo relaciona-se com o ambiente a partir da autorregulação organísmica. Nesse sentido, Fritz apresenta uma leitura acerca do campo psíquico e cultural, tal como se essas perspectivas pudessem ser unificadas como a mesma coisa e, assim, pudessem ser compreendidas exclusivamente pela ideia homeostática, reduzindo as problemáticas políticas e sociais às patologias que recaem sobre a busca por equilíbrio do organismo. Os problemas políticos e sociais eram, para Fritz Perls, estratégias adoecidas de autorregulação. Sendo assim, Fritz Perls trouxera de Reich essa orientação e, nesse sentido, ele corroborava com a “ideia reichiana de autorregulação como um mero exorcizar a ‘consciência’ e o ‘autocontrole’ e confiar em nossos apetites e impulsos para abrirmos nosso caminho no mundo”168 (Stoehr, 1994c, p. 87-88). Essa redução da interseção entre o campo biológico e cultural a uma questão exclusivamente de autorregulação organísmica era, para Goodman, um problema tanto ontológico quanto político. Isso porque essa estratégia reducionista levava Fritz Perls a crer, tal como fizera Reich, que desprender-se das amarras sociais, e, por conseguinte, do autocontrole, seria uma forma de libertação social e política. Essa ideia caía, necessariamente, em uma compreensão otimista da natureza humana, ou, pelo menos, na crença de que a sociedade e a cultura são inimigas de nossa natureza, ao invés de pensar a sociedade e a cultura no cerne da natureza humana. Goodman chegara a concordar com algumas dessas ideias em seus primeiros trabalhos, porém, tornava-se cada vez mais necessário diferenciar a cultura atual baseada na coerção e na
168 “the Reichian idea of organismic self-regulation as if it were simply a
matter of conjuring away “conscience” and “self-control,” and trusting to one’s appetites and impulses to negotiate the world”. No original.
desvitalização como produto dos caminhos históricos que as relações políticas e sociais assumiram nos últimos séculos, da dimensão ontológica intersubjetiva, ou seja, da relação eu-outro como uma dimensão da natureza humana.
Por mais que essa ideia de um funcionamento apartado entre a natureza humana e a cultura fosse convidativa para Goodman (de fato era necessário discutir em que medida nossa cultura contemporânea gera adoecimento), essa perspectiva parecia, nesse novo momento de sua obra, uma saída muito superficial para o problema da natureza humana e das condições políticas geradoras de sofrimento. Afinal, pensar o campo experiencial intersubjetivo como uma Gestalt não dogmática e não teleológica, não é o mesmo que aceitar os rumos políticos que a sociedade contemporânea tem assumido. Isso porque criticar os modelos coercitivos da sociedade contemporânea não é o mesmo que propor um programa a ser seguido, ou, então, afirmar que a experiência como Gestalt caminha para o bem ou a harmonia, tal como fizeram Fritz e Reich. Por isso, Goodman sentia a necessidade de se afastar das ideias desses autores acerca dessa problemática, mesmo reconhecendo a profunda influência que esses dois produziram nele. Assim, continua Stoehr (1994c),
Tanto Reich quanto Perls, por vezes, parecem identificar um si mesmo [self] heróico que rompe suas prisões e exige uma sua forte herança da vida animal roubada. Apesar de seu romantismo, Goodman tinha um conceito de si mesmo [self] e do mundo mais sutil do que isso, em uma base mais cultural do que uma simbiose biológica. Por conseguinte, para ele, a auto-regulação era uma questão mais complicada de ajustamentos criativos contínuos e que assumir envolvia riscos sociais e políticos consideráveis.169 (p. 88)
169 “Both Reich and Perls sometimes seem to envision a heroic Self
bursting its chains and laying claim to a long-withheld patrimony of animal life. For all his own romanticism, Goodman had a conception of both self and world more subtle than that, based on a cultural rather than a biological symbiosis. Self-regulation for him was, accordingly, a more
Dessa forma, a confiança em uma animalidade perdida é o aspecto fundamental tanto político quanto ontológico destes dois dissidentes da psicanálise. Destarte, o próximo passo de Goodman era conseguir integrar ao campo da experiência os diferentes perfis da experiência humana, sem precisar reduzi-lo a nenhuma dessas perspectivas, seja a animalidade (tal como fizeram Perls e Reich) ou somente à cultura (tal como fizeram Mills e os psicanalistas culturalistas). Era necessária uma compreensão que fosse genuinamente gestáltica, possibilitando integrar nossa dimensão cultural, nossa dimensão de ação política (ou seja, as articulações dos atos a partir das relações de poder) e nossa dimensão da excitação sem que fosse necessário submeter uma dessas instâncias umas às outras, ou ter que priorizar uma delas.
Para tanto, para integrar essas três instâncias, a compreensão de campo como ponto de partida era uma forma interessante. Isso porque, ao partir da investigação da experiência tendo como base o campo organismo/ambiente (algo que Goodman aprendera com as ideias de Dewey, Reich e também Perls), é possível usar o campo como ponto de partida para, operando em regime de redução fenomenológica – ou seja, a partir de uma descrição das diferentes formas como o fluxo experiencial se constitui (porém, sem recorrer a nenhuma teoria da verdade, ou exacerbação do lugar da racionalidade para tal empreendimento) –, compreender o fluxo de maneira gestáltica. Sendo assim, o que Goodman fizera foi transgredir todas as suas bases para pensar uma nova tópica para a psicanálise, isto é, uma metapsicologia que tenha um caráter eminentemente ontológico.
2.3.2 Segundo momento da ontologia gestáltica: do campo