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An Inconvenient Truth (2006): Fight for the Planet

A teoria do self descrita na terceira parte do tomo teórico do Gestalt Therapy é a pedra angular da construção ontológica do pensamento de Paul Goodman. Desta maneira, para definir a sua teoria do self, era necessário diferenciar a noção gestáltica acerca do self de outras teorias da psicologia ou da psicanálise. Tal como discutido anteriormente, para Goodman, era fundamental reconhecer que a teoria do inconsciente proposta por Freud fora um grande salto em relação às teorias modernas da psicologia e da psiquiatria. Mais do que isso, Freud conseguira trazer para o campo da reflexão psiquiátrica o lugar do irrefletido não como algo patológico, tal como se pudéssemos encontrar na loucura uma ausência de capacidade racional, mas sim o reconhecimento do irrefletido, ou seja, da dimensão não racional da experiência como algo que constitui e orienta a ação. Assim, a inconsciência não se constitui a partir da ausência da razão, mas sim como condição da própria racionalidade. Mas, mais do que isso, a natureza do sintoma e do inconsciente é um modo de reconhecer um caminho para a natureza humana.

Goodman entendia o impacto do pensamento freudiano para a compreensão da experiência humana, e, como tal, era necessário reconhecer esse impacto e sua repercussão para a psicologia, para a sociologia, para a política, para as artes, etc. Porém, ainda assim, para o autor americano, mesmo a teoria freudiana apresentando um novo paradigma para se pensar as ciências humanas e sociais, ele entendia que Freud não conseguira levar a cabo os aspectos revolucionários de sua teoria, principalmente, por não conseguir se desvencilhar de um projeto de esclarecimento acerca das causas e da gênese do

inconsciente (assim como a descrição de sua lógica interna a partir da libido e da pulsão), e também não conseguira se desvencilhar de certo moralismo implícito em sua leitura acerca da natureza humana, tal como será discutido no Capítulo 3.2. Mas, mesmo assim, a segunda tópica freudiana apontava para uma desconstrução de qualquer tentativa de psicologização do problema do inconsciente, apontando as dimensões do isso, do eu e do supereu, não como estruturas intrapsíquicas, mas justamente como uma tentativa de pensar a experiência inconsciente e a fonte dos conflitos pulsionais sem recorrer a algum tipo de psicologismo ou sociologismo. Ao contrário disso, em suas últimas obras (que ficaram conhecidas como as obras sociais de Freud), Freud procurara mostrar que o conflito entre as pulsões e a dimensão cultural não poderia ser reduzidos a dimensões exclusivamente individuais, mas que é necessário olhar para isso na interface entre o psíquico e o social.

Sendo assim, a discordância de Goodman tinha a ver com a vinculação dos processos criativos como formas de defesa ao conflito pulsional e, também tinha a ver com o caráter moral do conflito, mas ele aceitava que a teoria freudiana precisava ser admitia como um fundamento que rompia paradigmas fundamentais ao conceber a experiência.

Para o autor do tomo teórico do livro Gestalt Therapy, acerca do eu, isso e supereu, o problema maior não estava na teoria freudiana, mas sim nas releituras produzidas pelos neopsicanalistas, que não compreenderam o substrato ontológico implícito na segunda tópica freudiana e seu impacto como crítica à psicologia científica. Por isso, rediscutiram essas dimensões a partir de um retorno ao entendimento da pulsão como parte do mental (tal como fizera Freud em seus trabalhos ainda preliminares, anteriores à publicação d´A Interpretação dos Sonhos). Esses sim deturparam a teoria freudiana e produziram um retrocesso em relação aos avanços ontológicos da psicanálise.

Ainda assim, nos aspectos metapsicológicos, para Goodman, o principal problema encontrado nas teorias psicanalíticas e neopsicanalíticas está no modo como elas interpretam o self e o ego. Isso porque, em sua grande maioria, o self dentro das concepções psicanalíticas ou é “a pessoa enquanto lugar da atividade psíquica na sua totalidade” (Doron e Parot, 2006, p. 692) – como é o caso da escola psicanalítica

anglo-saxã –, ou uma construção egoica da “representação de si” (idem, p. 693) – como é o caso da escola norte-americana. Além disso, essas teorias sempre recaem numa compreensão do self e do ego a partir de teses substancialistas, e, além disso, compartimentalizam essas substâncias, como se pudéssemos resumir o self ao que ocorre dentro da pele (tal como ocorre, por exemplo, em Wilhelm Reich) ou, então, resumir o self aos aspectos interpessoais (tal como ocorrera com os culturalistas). Para Goodman, as teorias neopsicanalíticas construíram uma noção de self baseada em perspectivas reducionistas, o que acaba submetendo a psicanálise ao “clima filosófico que compartimentaliza mente, corpo e mundo exterior”211 (PHG, 1994 p. 170).

Sendo assim, Goodman propõe uma nova leitura do self que o entenda na contramão de uma noção compartimentalizada ou então que compreenda as diferentes dimensões do self como substâncias distintas. Na verdade, a noção de self utilizada por Goodman é compreendida como um sistema de contatos que possa ser analisado em um dado campo experiencial em seus aspectos dinâmicos e funcionais, por isso, Goodman propõe uma releitura da metapsicologia psicanalítica a partir de uma reflexão prioritariamente fenomenológica, para dar conta de reconhecer o “self como uma atualização do potencial”212 (idem, p. 153) que se manifesta “em um tipo de presente generalizado”213 (idem, p. 156)

Goodman tenta pensar o campo metapsicológico não como construtos mentais ou substâncias, mas, sim, constituídos no próprio processo do contato, ou seja, estruturas parciais de uma experiência alargada e intersubjetiva e não de uma mente ou de uma subjetividade encapsulada. Assim, a teoria do self gestáltica passa a se diferenciar radicalmente das psicologias do ego, e, para tanto, Goodman afirma que “a função-self é tratada mais adequadamente pelo próprio Freud”214 (PHG, 1994 p. 163). Ou seja, Goodman apresenta um elogio ao pensamento

211 “phylosophic climate compartmenting mind, body, external world”. No

original.

212 “self as a actualization of the potential”. No original. 213 “in a kind of generalized present” No original.

214 “[...] the self-function is more adequately treated by Freud himself

freudiano por entender que Freud, mesmo com ferramentas extremamente precárias, conseguiu apresentar uma teoria do self menos reducionista. Para Goodman, é importante ressaltar que, se a psicanálise havia conseguido “com todos os seus defeitos”, transmitir “a unidade do campo organismo/ambiente” 215 (PHG, 1994, p. 204), é preciso não descartá-la completamente.

Tanto no Gestalt Therapy quanto em seus trabalhos anteriores (Goodman, 1991a, 1991b), Goodman já haviam mostrado que a teoria psicanalítica de Freud precisava ser reconhecida como uma proposta à frente de seu tempo, pois Freud, utilizando-se de ferramentas extremamente precárias – como as teses naturalistas e as perspectivas associacionistas, assim como construções políticas vinculadas ao capitalismo e suas bases morais fundamentadas na leitura judaico-cristã –, ainda assim, conseguiu criar uma teoria nova e capaz de apontar para caminhos originais. Porém, o elogio que Goodman apresenta a Freud é muito mais no sentido de DEScortinar a deturpação teórica, metodológica e política produzida pela psicanálise do ego e as correntes neofreudianas. Ao operar com uma linguagem fenomenológica buscando uma visão não dogmática e, principalmente, reconhecendo a dinâmica do ajustamento criativo como fundo ontológico para se pensar a experiência humana, Paul Goodman apresenta uma nova leitura das teses metapsicológicas construídas por Freud e que foi rediscutida por seus seguidores.

Neste livro, ao procedermos não pela anulação, mas pela afirmação da operação poderosa do ajustamento criativo, ensaiamos uma nova teoria do self e do ego, que o leitor encontrará oportunamente. Continuemos aqui a indicar que há diferença para a prática terapêutica se o self é uma consciência ociosa junto com um ego inconsciente, ou se é um contatar criativo216 (PHG, 1994, p. 24).

215 “With all its defects (…) the unity of the organism/environment field”

No original.

216 “In this book, proceeding by not nullifying but by affirming the

powerful work of creative adjustment, we essay a new theory of the self and the ego. The reader will come to this in its place. Here let us

O self é o processo de ajustamento criativo e, por isso, é uma função do campo. Assim, com base nas críticas apresentadas anteriormente, e pautado em um fundamento fenomenológico, é possível repensar a função-self a partir de dois pontos de vista: em seu aspecto funcional e em seu aspecto dinâmico. Do ponto de vista dinâmico, já vimos que diz respeito ao modo como a experiência temporal constitui o sistema self (Muller-Granzotto e Muller-Granzotto, 2007), buscando esclarecer o modo como a experiência se constitui a partir de um presente generalizado, que compreende o passado e o futuro como codados de um campo intersubjetivo: “a realidade é uma passagem do passado para o futuro: isso é o que existe, o que o self está aware de, descobrindo e inventando”217 (PHG, 1994, p. 184).

Do ponto de vista das funções, podemos compreendê-las como diferentes pontos de vista em que podemos analisar um campo experiencial, e, para tanto, essas funções agora são possíveis não mais a partir de uma descrição do organismo ou seu ambiente, muito menos a partir do esclarecimento do funcionamento mental ou cognitivo (tal como fizeram os gestaltistas). Na verdade, Goodman agora pode pensar o self a partir de uma releitura do ego transcendental para dar conta dessa “subjetividade intersubjetiva” (Husserl, 2001) nos termos de Husserl, e, com isso, compreender o fluxo experiencial em seu aspecto ontológico, a partir dos diferentes perfis que compõem o fluxo de vividos (Husserl, 2006).

Para que seja possível uma teoria do self integrativa, Goodman entende que se pode olhar para o campo experiencial a partir de, pelo menos, três pontos de vista. Esses pontos de vista são o que ele chamou de “estruturas possíveis” do self, e, com isso, a investigação dessas estruturas é justamente “o tema da fenomenologia” 218(PHG, 1994, p. 156). No seu entendimento,

continue to point out what difference it makes in therapeutic practice whether the self is an otiose ‘consciousness’ plus an unconscious ego, or whether it is a creative contacting.” No original.

217 “the reality is a passage from past to future: this is what exists, and

this is what the self is aware of, discovers and invents” No original.

218 “possible structures [...]subject-matter of Phenomenology.” No

por não compreenderem o aspecto integrativo da experiência, os revisionistas da psicanálise acabaram submetendo o self a somente uma dessas estruturas (ou, então, apontando uma hierarquia em que uma perspectiva é mais importante que a outra), enfatizando-as mais em função de seus métodos terapêuticos. É como se, na leitura de Goodman, as teorias do self implícitas nessas teorias fossem constituídas não a partir de uma teoria da experiência, mas justamente baseadas nos pressupostos que o psicoterapeuta quer encontrar em sua investigação. Por isso, para Goodman, os métodos e teorias neopsicanalíticas são parciais, viciados e reducionistas. Assim,

Para nossos propósitos, vamos discutir brevemente três dessas estruturas do self, o Ego, o Id, e a personalidade, porque, por várias razões sobre os encaminhamentos dos pacientes e devido aos métodos da terapia, essas estruturas parciais foram apresentadas separadamente – nas teorias sobre a psicologia anormal – como a função completa do self219 (PHG, 1994, p. 156) Dessa forma, criaram-se releituras das noções de id, ego e superego tão caras ao pensamento psicanalítico, mas agora com uma ampliação advinda das referências de Goodman. Goodman passa a chamar de id, ego e personalidade220 as estruturas parciais da experiência quando percebidas do ponto de vista funcional, ou, tal como apontado por Muller-Granzotto e Muller- Granzotto (2007), a partir de uma investigação da experiência do ponto de vista daquilo que Husserl chamara de redução eidética.

219 “for our purposes, let us briefly discuss three such structures of the

self, the Ego, the Id, the Personality, because, for various reasons of the run of patients and the methods of therapy, these separate partial structures have been taken, in the theories of abnormal psychology, for the hole function of the self” No original.

220 Tal como veremos adiante, a noção de superego não é a mesma

coisa que o que Goodman chamará de Função Personalidade. A função personalidade tem a ver com a forma como Goodman integra à teoria do self a dimensão social do campo intersubjetivo. O superego é compreendido a partir de outra perspectiva, estando mais ligada ao modo como a Gestalt-terapia compreende a noção freudiana de introjeção.

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