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porque relaciona com a realidade suprema as precárias construções da realidade erguidas pelas sociedades empíricas. As tênues realidades do mundo social se fundam no sagrado realissimum, que por definição está além das contingências dos sentidos humanos e da atividade humana.32 Todo nomos para manter-se enquanto tal necessita de uma “base social”. A religião, devido à sua ação legitimadora da ordem social, à sua capacidade de ocultar a realidade socialmente construída, ao seu caráter de verdade única e perdurável, consegue estabelecer-se enquanto “base” para o funcionamento e manutenção do nomos habitável. A “base” sobre a qual se mantém a realidade social é denominada por Peter Berger de

estrutura de plausibilidade.

Embora o estudo de Peter Berger consiga dar respostas satisfatórias para muitas questões postas neste trabalho, e ainda que ele tenha chamado a atenção para se evitar cair no determinismo mecanicista, ao dizer que

o indivíduo não é modelado como uma coisa passiva, inerte. Ao contrário, ele é formado no curso de uma prolongada conversação em que ele é participante. Ou seja, o mundo social (com suas instituições, papéis e identidades apropriados) não é passivamente absorvido pelo indivíduo, e sim apropriado ativamente por ele,53

penso que o autor poderia ter dedicado umà maior atenção sobre alguns aspectos do comportamento humano, não contemplados em seu trabalho.

Pois vejamos, inicialmente Berger reconhece dois axiomas - primeiro, que os mecanismos utilizados na socialização não conseguem nunca obter êxito total e, segundo, que o indivíduo pensa ao se relacionar com a cultura, ou seja, que o indivíduo possui inteligência - , para, em seguida, concluir que este indivíduo utiliza sua inteligência apenas para absorver, para introjetar em si mesmo os valores culturais, ou

culpar-se quando os transgride.

52 BERGER. Op. cit., p. 45. 53 BERGER. Op. cit., p. 31.

Penso que, se tais mecanismos de normatização social, se os “outros significativos”, de certa maneira ‘Talham” na socialização, essas “lacunas” não permanecem lacunas. Ao contrário, são preenchidas com outras significações, numa contraposição com os valores que se quer passar. Neste caso, é de se supor que existem na cultura, por mais ordenadora que seja, espaços para transgressões e até modificações da mesma. Às vezes, aqueles valores que o indivíduo “se apropria, ativamente” nem sempre possuem para ele o significado original, o significado aprioristicamente dado. Melhor dizendo, o sentido é expropriado da norma, sem aparentemente burlá-la.

“O indivíduo é sempre, simultaneamente, ser particular e ser genérico”, escreveu Agnes Heller; sendo que “a dinâmica básica da particularidade individual humana é a

satisfação dessas necessidades do ‘Eu’^ .54 É preciso averiguar até que ponto a cultura consegue saciar as necessidades individuais e verificar também se essas transformações individuais de significados não acabam por gerar novos valores sociais.

Peter Berger diz que o homem não é, mecanicamente, resultado da cultura, mas sim que ele “está” na cultura, produzindo-a e produzindo-se. Só que ele considera as vontades, desejos e ações individuais, ou seja, aquilo que não é reconhecido coletivamente, como meros devaneios que, ou se mantêm simples devaneios quando não revelados ou, se explicitados publicamente, agem para desagregar socialmente o indivíduo, a tal ponto que este passaria a viver uma irrealidade que não poderia suportar.

Para Berger, o máximo que o ser humano consegue é “estar” na cultura. É pouco. Além de “estar” na cultura o indivíduo pode “colocar-se” na cultura. Pois “estar” na cultura sugere uma supremacia desta sobre o indivíduo. Melhor dizendo, pressupõe que a cultura possua o poder de manipular vontades individuais, de fazê-las desaparecer e de substituí-las por vontades coletivas. A cultura não é esse Leviatã que lança seus tentáculos e enrosca os indivíduos engolindo-os, como vítimas; também não é um deus onisciente que contém em si todas as ações e sentimentos e expressões humanas. Enfim, a cultura não é o indivíduo. Cultura e indivíduo constroem-se

mutuamente numa complementaridade interativa. Daí que o indivíduo, além de estar

(natural/passivo) participando da cultura, pode também colocar-se (cultural/ativo)

interferindo nela.

No entanto, não há, em Berger essa possibilidade, esse entremeio, tão bem captado por Michel de Certeau.

Em Certeau,55 a ação voluntária do indivíduo não age só em conformidade com as normas e nem é esmagada por elas. A vontade é brincalhona e as práticas são vagabundas, ensina. Ou, em outras palavras, manipulando a norrtia, os indivíduos

superam a cultura.

Denominando “consumidores” às pessoas comuns, Certeau imprime a elas uma autonomia, não tanto em relação aos objetos culturais a serem adquiridos, mas, principalmente, no uso que farão deles.

Os consumidores se tomam migrantes. O sistema onde circulam é demasiadamente amplo para fixá-los em alguma parte, mas demasiadamente regulamentado para que possam escapar dele e exilar-se alhures.56

O depoimento de Joana Soiber demonstra a capacidade criativa na elaboração de “táticas” que, ao mesmo tempo em que transgride, mantêm a norma.

Uma vez tinha Santas Missões aqui no Morro do Gato, na Capela de São Pio X. Ali o missionário chamava as moças para fazer uma jura. Neste juramento nós tínhamos que jurar que nós não íamos mais dançar, porque

dançar era pecado.

Aí nós nos reunimos, umas quatro moças, para ver o que nós iríamos fazer. A Irma do tio Fernando perguntou: “Joana o que é que nós vamos fazer”? Eu disse: “é claro que nós vamos dançar! Nós não vamos a um casamento para ficar no canto, sem dançar. Sem dançar a gente não consegue nem um namorado para casar”.

Então nós combinamos e, quando nós estávamos ajoelhadas na frente de Nossa Senhora Aparecida, quando o missionário disse: “eu juro que não vou mais dançar”, no nosso coração a gente dizia: “eu juro que vou dançar; eu não juro que eu não vou mais dançar”. Jurava pelo contrário. Só que isso nós fazíamos em silêncio, porque não podíamos manifestar.57

55 CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano: artes de fazer. Petrópolis: Vozes, 1994. 56 CERTEAU. Op. cit., p. 104.