2. ROLES AND FUNCTIONS OF NPP SIMULATORS
2.5. Current trends
Do governo Barack Obama (2009-2017) para a administração Donald Trump houve uma mudança significativa na política externa estadunidense. Trata-se de uma alteração brusca, raras vezes feita pela Casa Branca. Para o democrata, o inimigo a ser vencido era a Rússia. Vladimir Putin tornou-se um problema polí- tico para Washington ao empreender, a partir de 2000, quando assume a presidência, um projeto nacional-desenvolvimentista de recuperação econômica, o que lhe possibilitou atuar na seara internacional – em especial no Conselho de Segurança da ONU – de forma articulada com a China. Inverteu-se ali um rumo histórico de afastamento entre esses dois países, que durava quatro décadas. A convergência entre a expertise diplomática e os estoques de armamento nuclear rossos com
pujança econômica chinesa criou um novo polo de poder global, após uma década de unilateralismo estadunidense, no imediato pós-Guerra Fria (1991).
A aliança mostrou seu acerto estratégico em ações mili- tares na Crimeia em 2014; na Síria em 2015; e no apoio político e econômico dispensado à Venezuela, desde 2014. No primeiro caso, a aliança ocidental com um governo de extrema-direita e antirrusso deixou o Kremlin sob alerta. No segundo caso, a Rússia interveio em favor de um aliado histórico, o governo Bashar Al-Assad, acossado por crescente guerra civil, a qual foi apoiada pelos Estados Unidos e seus aliados ocidentais. Como primeira ação espetacular, a aviação russa praticamente dizimou o Estado Islâmico, jogando por terra o fracasso esta- dunidense em conter a ação do grupo terrorista. A ofensiva russa na Síria – apoiada pela China – levou as forças armadas do país a pontos ainda mais distantes do que sua mais famosa intervenção no século XX, a tomada de Berlim, em maio de 1945.
No terceiro caso, a Venezuela também se tornou palco dessa aliança tácita. A partir de 2014, os chineses passaram a comprar quase à vista um estoque de petróleo a ser entregue pelos 35 anos seguintes. Pagaram adiantado por um produto que ainda se encontra no subsolo. Diante da ofensiva de Donaald Trump sobre o país, Pequim receia que um governo pró-Washington rompa o acordo e coloque em risco a segurança energética do país asiático. A Rússia, por sua vez, tem na Venezuela um mercado exclusivo para sua eficiente indústria de armamentos. Os russos vendem a Maduro aviões, blindados e armamento leve, mercado tradicionalmente suprido e cobiçado pelos Estados Unidos. Assim, agindo quase como um único país nessas iniciativas, Rússia e China colocaram em xeque a hegemonia norte-americana nos terrenos militar, comercial, político e econômico.
Seguidamente acusado de pouco enérgico em relação às novas forças do Leste, Barack Obama ocupou-se mais do Oriente Médio e da guerra ao terror do que com o novo eixo de disputas mundiais, quando o Departamento de Estado foi comandado por Hillary Clinton (2009-2013). A partir da gestão de John Kerry, os EUA mudam o alvo e a tática. Dividir a aliança oriental passou a ser a tarefa primordial da política externa de Washington, além da expansão das ações da Otan. Desse modo, Obama radicalizou suas investidas contra Moscou no final de seu mandato, ao impor sanções comerciais ao país, o que resultou na expulsão de 35 diplomatas dos EUA por parte da Rússia, em dezembro de 2016.
Já a gestão de Donald Trump mudou esse objetivo. Em vez de enfrentamentos estritamente políticos, o presidente republicano tem como meta manter a primazia econômica dos EUA no mundo e derrotar a China na disputa de mercados mundiais de manufaturados.
Mas há um ponto de convergência em enfrentamentos aparentemente excludentes. Tanto Obama quanto Trump almejam quebrar o elo Moscou-Pequim, o que, em tese, facili- taria a resolução de problemas tanto diplomáticos e militares quanto comerciais. Assim, os polos da política externa dos EUA se invertem, apesar do objetivo comum permanecer: quebrar a grande articulação euroasiática. Seria em tese mais plausível buscar tática inspirada vagamente na utilizada por Richard Nixon, em 1972, quando os EUA buscaram atrair Pequim para sua órbita, isolando Moscou. O que ocorre é que Obama buscou aproximação com a China e Trump tenta com a Rússsia.
No caso de Donald Trump, há outra constatação a ser levada em conta. A revista Economist, em outubro de 2018, assinalou:
Há uma métrica econômica na qual a China já ocupa o primeiro lugar [na economia mundial]. Medido a taxas de câmbio do mercado, o PIB da China ainda é 40% menor do que o dos Estados Unidos. No entanto, com base na paridade de poder de compra, que ajusta as moedas para que uma cesta de bens e serviços valha a mesma quantia em diferentes países, a economia chinesa se tornou a maior do mundo em 20131.
Em certo sentido, o país asiático pode ser visto como a maior potência econômica do mundo. Assim, a atuação esta- dunidense vale-se de jogo pesado de sanções e chantagens sobre Pequim, buscando atacar até mesmo seus mercados consumidores. John Ross, articulista do site chinês Guancha.cn., escreveu o seguinte, em julho de 2019, acerca do acirramento da competição no terreno da alta tecnologia:
O objetivo imediato das sanções dos EUA contra a [companhia chinesa] Huawei não foi de simplesmente parar o suprimento de chips e softwares, mas de também destruir o mercado consumidor dos produtos da empresa chinesa no Ocidente, onde os clientes querem acesso garantido ao sistema opera- cional do Google. A decisão do Google, nesta semana, de parar de vender seu sistema operacional Android à Huawei, para novos aparelhos, faz pouca diferença na China, onde a Huawei deve conseguir convencer os compradores a mudar para seu sistema operacional, agora em desenvolvimento. Mas os clientes no mercado internacional estão mais ligados ao 1 THE ECONOMIST. The Chinese century is well under way. EUA, 27 out. 2018. Disponível em: https://www.economist.com/graphic-detail/2018/10/27/ the-chinese-century-is-well-under-way?fsrc=scn/fb/te/bl/ed/thechinese- centuryiswellunderwayanewhegemon.Acesso em: 13 maio 2019
sistema Android. O analista independente Richard Windsor estima que a Huawei perderá todas essas vendas2.
Ross avalia que
Se Trump quiser frear a ascensão da China como uma super- -potência, uma guerra comercial pode ser uma maneira eficaz de fazer isso. Se os danos aos EUA forem modestos e os custos para a China forem severos e duradouros, Trump poderá concluir que os primeiros são perdas aceitáveis3.
Nesse quadro de disputa EUA-China se dá a redefinição da divisão internacional do trabalho e a nova localização dos países da periferia e da semiperiferia nesse ordenamento.
O terceiro vértice da equação, a União Europeia, enfrenta vários problemas internos, dos quais o Brexit pode ser apontado como o principal, e não possui o mesmo dinamismo, no terreno econômico-comercial, do que EUA e China.
2 O artigo foi publicado no Brasil na revista Ópera: ROSS, John. China se prepara para a “guerra econômica prolongada” com Trump. Ópera, 1 jul. 2019. Disponível em: https://revistaopera.com.br/2019/07/01/china-se-pre- para-para-a-guerra-economica-prolongada-com-trump/?fbclid=IwAR1h- t2xmxeXPgAzncvp8oSerajoinL2w4GbL_-PO_7FwttMxLCzskjBQxQ0. Acesso em: 12 jun. 2018.
3 O artigo foi publicado no Brasil na revista Ópera: ROSS, John. China se prepara para a “guerra econômica prolongada” com Trump. Ópera, 1 jul. 2019. Disponível em: https://revistaopera.com.br/2019/07/01/china-se-pre- para-para-a-guerra-economica-prolongada-com-trump/?fbclid=IwAR1h- t2xmxeXPgAzncvp8oSerajoinL2w4GbL_-PO_7FwttMxLCzskjBQxQ0. Acesso em: 12 jun. 2018.