O que pretendo evidenciar na seção anterior é o caráter social da variação nas comunidades lingüísticas: em alguns casos há estigma social, e, em outros, não. Vimos que, no português do Brasil, falar canta ou cante não ‘fere’ os ouvidos tradicionalistas, por não ser atribuído a essa variação caráter sócio-avaliativo. São diferentes opções formais de se emitir um comando, cuja escolha entre uma ou outra forma se dá por razões mais estilísticas que sociais94. Então, se o emprego variável desse fenômeno lingüístico não obedece a uma sistematicidade de natureza sócio-avaliativa, ele se dá de modo incondicional nos diálogos dos PMs de Vinhas da Ira? Não. Essa manifestação variável dos comandos sob as formas verbais imperativas não se dá aleatoriamente nos comandos constituintes das relações sociopessoais simétricas e assimétricas estabelecidas na família, entre estranhos, ou entre autoridades ali constituídas, na composição da narrativa. Ela obedece a uma sistematicidade moldada, principalmente, segundo os grupos de fatores já identificados no capítulo 5. Ressaltamos o grau de tratamento [+ respeitoso] e [- respeitoso] de quem supostamente fala e de quem supostamente ouve, determinado, predominantemente, por dois elementos também de natureza não-lingüística: idade e papel sociopessoais (i) de [> autoridade] e [< autoridade] (avô/neto, mãe/filho, reverendo/fiéis) e (ii) de [> intimidade] e [< intimidade] dos PMs. Portanto, uma sistematicidade constituída a partir de grupos de fatores de natureza sócio- pragmática (externa ao sistema).
Como conseqüência do condicionamento dos dois principais grupos de fatores apontados acima, mostrou-se significativo um outro: o uso de uma ou de outras formas pronominais designativas de 2ª pessoa do singular: tu, você e o(a) senhor(a). Como já discutimos no capítulo anterior, ao eleger um tratamento respeitoso a um ou outro Pm, o PM opta por uma dessas formas pronominais e, por extensão, uma ou outra forma verbal de
94 Renegamos as opções sociais, aqui, referindo-nos especificamente às opções decorrentes de níveis de
comando, respectivamente. De uma forma sistemática, esses dois tipos de variantes se correlacionam, como veremos neste capítulo.
Além das motivações sociais voltadas a grupos sociais [+ estigmatizados] e [- estigmatizados], atuando com maior ou menor grau sobre a escolha de uma opção em detrimento de outra na expressão de um fenômeno lingüístico, tal como o da (des)concordância verbal citada por Scherre, na seção anterior, em decorrência do poder socioeconômico, por exemplo, as considerações sociais num estudo lingüístico se dão de modo mais alargado. Podem implicar também outros fatores sociais, tais como idade, escolaridade, sexo, etnia, localização geográfica de um falante, profissão, dentre outros, além do estigma abordado por Scherre. Ao tratarmos de condicionamentos sociais, estamos, conseqüentemente, tratando de questões diastráticas e diatópicas gerais. Estamos retomando esses pressupostos teóricos aqui para falarmos do fator escolaridade e emprego variável do imperativo.
Se já destacamos95 a forte vinculação entre a variação social e a estilística, no sentido de o falante já ter, interiorizadas em sua competência lingüística, as formas alternativas de variedades cultas96 e variedades não-cultas sobre as quais ele pode operar a seleção conforme variam as condições de produções do discurso (quem fala com quem, tema/tópico, espaço físico), é porque, definitivamente, tem-se consciência da alta vinculação entre a natureza dessas duas variações. Por isso, às vezes, as tratamos de variação socioestilística. Isso posto, vamos explicar por que razão é muito provável que um indivíduo de baixa escolaridade, por exemplo, desenvolva pouco ou quase nada de sua capacidade de operar com regras variáveis, principalmente das decorrentes de grupos sociais favorecidos, tais como as que expusemos na seção anterior, em relação às regras de concordância (nominal e verbal) do português. Então, a depender do fenômeno em estudo, para operar um estilo de natureza [+ formal], decorrente do conhecimento das ‘variedades cultas’ da língua, o falante precisaria, necessariamente, de uma formação escolar. Aqui, a escolha de uma variedade estilística [+ formal] em detrimento da [- formal], por exemplo, não está diretamente relacionada ao fator social voltado ao nível de escolarização.
95 No capítulo 1, conforme nota 10.
96 Variedades cultas e não norma-padrão. Como já vimos, esta última representa o ‘conjunto de prescrições
tradicionais veiculadas pelas gramáticas normativas, pela prática pedagógica conservadora e pelos empreendimentos puristas da mídia’.
Entendemos como ‘variedades cultas’ aquelas que são tomadas por algumas pesquisas de notoriedade nacional, como a do Projeto NURC (Norma Urbana Culta)97, por exemplo, por atender aos seguintes critérios de base: ser a variedade de um informante (i) de escolaridade superior completa e (ii) de um background biográfico-cultural urbano. São, portanto, conceitos estabelecidos com critérios relativamente mais objetivos e de base empírica, uma vez que o ‘culto’ aqui determina, de fato, a aquisição de uma cultura, a da prática escolar, por exemplo. Mas a palavra ‘culta’, desde sua integração à sigla NURC, por exemplo, não se constitui uma boa escolha lexical, porque pode passar a falsa impressão de que só a prática escolar seja representante da cultura lingüística de um povo. Por isso, a sugestão de ‘variedades cultas’.
Mas, o que estamos querendo realçar aqui em relação ao fator social escolaridade, ‘variedades cultas’ e uso de variantes de certas variáveis lingüísticas, é que, no fenômeno em questão, pelo fato de o emprego de uma ou de outra variante não se dar em decorrência de valoração social constituinte de um grupo social [± favorecido], essa questão da escolaridade também parece não se mostrar determinante do uso das variantes do imperativo. Ou seja: independentemente da escolaridade do falante, seja ele reverendo, publicitário, educador, agricultor, ou apenas amigo, pai, mãe ou irmão do manipulado, ele pode usar alternadamente uma ou outra variante. Isto porque a variação do nosso fenômeno não implica questões de estigmatização ou de prestígio, conforme estamos discutimos.
Temos então duas formas distintas de codificar uma mesma função em Vinhas da Ira: os PMs podem operar uma ou outra escolha que lhes resultar mais apropriada, tanto do ponto de vista social quanto cultural em que as relações sociopessoais se efetivam, situação definida por uma lista de fatores, cujo número e configuração variam de um PM para outro.
Nesta perspectiva, a noção de estilo é definida aqui segundo uma única dimensão: a do grau de atenção conferido à linguagem no momento da enunciação dos atos de comando. Para a adoção de um estilo apropriado a uma dada situação, o PM deverá, nesta perspectiva, conferir atenção à sua linguagem, mais em uma situação do que em outra. Pretendemos demonstrar, então, que é neste nível que se situam as diferenças intra-individuais, portanto,
97 O Projeto VARSUL (Variação Lingüística Urbana na Região Sul) obedece a apenas um dos critérios tomados
no Projeto NURC: o de background biográfico-cultural urbano do informante. A escolaridade desse informante pode variar em diversos níveis, e não se prende a apenas à que trata do ‘nível superior completo’.
estilísticas, no uso de uma ou de outra variante do imperativo. As diferenças formais em atos de comando parecem existir mais para atender a questões de natureza estilística da linguagem. A seguir, vamos apresentar as manifestações intra-individuais de cada um dos PMs nas redes de interações que estabelece com seus Pms, dispostas nas Tabelas de 15 a 22. Começamos pelas manifestações de comando da mãe, personagem que mais interage na narrativa, e terminamos com as das crianças.