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PHTHALOCYANINES IN BIOMEDICAL OPTICS

2.1. Aluminium Based Phthalocyanines

2.1.2. Influence of the Degree of Sulfonation

3.1.1 A SOCIOLINGÜÍSTICA É A LINGÜÍSTICA (LABOV, 1976, P. 37)

A sociolingüística constitui uma área de concentração dos estudos da linguagem cujo modelo teórico-metodológico de pesquisa se define como uma reação aos estudos que não pressupõem o componente social da linguagem. Surge, portanto, a partir do reconhecimento da necessidade de se ter uma área dentro da lingüística que trate mais especificamente das relações entre linguagem e sociedade, relação que esse modelo teórico- metodológico considera não poder deixar de estar presente nas reflexões sobre o fenômeno lingüístico. Para Labov, se a língua é um fato social, a lingüística então só pode ser uma ciência social, isto significa dizer que a sociolingüística é a lingüística (Labov, 1976, p. 37). Essa delimitação clara de que a lingüística é uma ciência social foi a justificativa que Labov concedeu ao fato de ele próprio ter se recusado, durante anos, a empregar o termo sociolingüística para esta área da lingüística que pressupõe o social:

Durante anos recusei-me a falar de sociolingüística, pois este termo implica que poderia existir uma teoria ou uma prática lingüística fecunda que não fosse social (LABOV, 1976 p. 37).

Para Labov, soaria redundante a junção da palavra social à lingüística, pela similaridade de sentido entre elas: uma vez que a lingüística já concebe a língua como fato social, não haveria a necessidade de inserir ao seu nome o social. Daí o termo sociolingüística, relativo a uma área da lingüística, só se firmar em 1964, num congresso organizado por William Bright, na Universidade da Califórnia, em Los Angeles: Labov foi um dos participantes, ao lado de outros estudiosos voltados para a questão da relação entre linguagem e sociedade, como Hymes, Gumperz, dentre outros. Dois anos depois, Bright publica os trabalhos apresentados no congresso, com o título Sociolinguistics. Assim firmou-

se o nome sociolingüística como área da lingüística que toma como objeto de estudo a língua falada em seu contexto real de uso.

Mas em 1964 deu-se apenas a formalização do reconhecimento da sociolingüística como uma área de concentração da lingüística. Muito antes, no começo do século, foi em Meillet que a literatura lingüística registra uma das representações maiores da cientificidade dos pressupostos dessa nova ciência. Mesmo tendo Saussure como seu professor, Meillet orienta seus trabalhos numa perspectiva diferente da perspectiva de seu mestre: reafirma que a história das línguas é inseparável da história da cultura e da sociedade.

Com um pensamento diferente do pensamento da grande maioria dos lingüistas estruturalistas da sua época, Meillet pouco representou para a escola estruturalista. Mesmo assim, se o mestre de Genebra não teve em Meillet seu seguidor, após a sua morte não faltou quem levasse adiante suas propostas: Martinet foi um dos maiores defensores de Saussure, rejeitando profundamente as concepções de Meillet sobre a natureza social da linguagem, conforme relata Labov:

Meillet36, contemporâneo de Saussure, pensava que o século XX veria a

elaboração de um procedimento de explicação histórica fundado sobre o exame da variação lingüística enquanto inserida nas transformações sociais. Mas discípulos de Saussure, como Martinet, aplicaram-se a rejeitar essa concepção, insistindo fortemente em que a explicação lingüística se limitasse às inter-relações dos fatores estruturais internos. Com essa atitude, aliás, eles estavam seguindo o espírito do ensino saussureano (LABOV, 1976, p. 259).

Mediante essa observação de Labov, vimos que ele não se enganou acerca da contribuição que Meillet concederia à ciência da linguagem. Entretanto, vimos também que a lingüística que se firma como ciência na primeira metade do século XX insistia na restrição da explicação da linguagem às inter-relações dos fatores estruturais internos apenas.

36 Antoine Meillet (1866-1936), lingüista francês. Observar que Labov sustenta impreterivelmente a definição

de língua como fato social, tal como definiu Meillet. Entretanto, a identidade dos trabalhos desenvolvidos por um e por outro autor termina aqui. Meillet foi um comparatista de alto nível, trabalhou sobretudo com línguas mortas, enquanto Labov trabalha continuamente com situações contemporâneas concretas (cf. Calvet, 2002, p. 33).

3.1.2 SOCIOLINGÜÍSTICA: SISTEMATICIDADE E VARIAÇÃO A UM SÓ TEMPO

De Meillet a Labov, vamos entender a língua como um fato social, concepção profundamente anti-saussureana: em Meillet, antes de Curso de Lingüística Geral, e em Labov, depois. Tanto num autor quanto noutro, a partir da metade do século XX, a sociolingüística, como nova área da lingüística, apregoa um discurso que insiste nas funções sociais da língua, contrariamente a Saussure, que sempre insistiu na forma da língua:

Surge, assim, desde o nascimento da lingüística moderna, em face de um discurso de caráter estrutural e insistindo essencialmente na forma da língua, outro discurso que insiste em suas funções sociais. E, durante quase meio século, esses dois discursos vão se desenvolver de modo paralelo, sem nunca se encontrar (CALVET, 2002, p. 17).

Hoje já sabemos que a língua (entendida como atividade social) não se constitui apenas uma ferramenta que devemos usar para obter resultados: ela é a ferramenta e ao mesmo tempo o resultado, ela é o processo e o produto, não pronta, mas criada enquanto a vamos usando. É o uso e o resultado do uso. Como fato social, a língua permite destacar atitudes ou representações lingüísticas; estas, por sua vez, exercem influências sobre o comportamento lingüístico. O ato de fala, como expressão da linguagem verbal, é representativo de atitudes. Então a língua é de fato muito mais que um instrumento de comunicação, e não pode, portanto, ser reduzida a isso.

Exemplos na literatura lingüística é o que não faltam. Mas vamos tomar apenas o nosso fenômeno em estudo, a expressão do imperativo canônico como um ato de fala manipulativo, por exemplo. O que podemos constatar é que esse fenômeno, por constituir um ato de fala primariamente manipulativo, ultrapassa de antemão o nível epistêmico de interpretação, pelo fato de se tratar do único ato que leva o ouvinte a conceber uma resposta não-verbal, ou seja, à realização de uma ação (cf. Givón, 1993, p. 264). Então, uma interação de comando manipulativo ilustra a não-redução da língua a um instrumento de comunicação, pois é designativa de atitudes que o falante espera serem tomadas por um ouvinte, atitudes estas extremamente dependentes da constituição sócio-histórico-cultural do contexto em que se insere esse ouvinte e sua manifestação lingüística.

A língua, definida como ‘instrumento de comunicação’, pode levar à crença da existência de uma relação neutra entre o falante e sua língua - que não é verdadeiro. Sobre o fato de a língua não ser um ‘instrumento’, Calvet (2002, p. 65) usa a metáfora do martelo como verdadeira representação de um instrumento para a realização de alguma atividade, o que não valeria para exemplificar a manifestação lingüística como tal:

Um instrumento é realmente um utensílio de que se lança mão quando se tem necessidade e que se deixa para lá em seguida. Ora, as relações que temos com nossas línguas e com as dos outros não são bem desse tipo: não tiramos o instrumento-língua de seu estojo quando temos necessidade de nos comunicar, para devolvê-lo ao estojo depois, como pegamos um martelo quando precisamos pregar um prego. Com efeito, existe todo um conjunto de atitudes, de sentimentos dos falantes para com suas línguas, para com as variedades de língua e para com aqueles que as utilizam, que torna superficial a análise da língua como simples instrumento. Pode-se amar ou não um martelo, sem que isso mude em nada o modo de pregar um prego, enquanto as atitudes lingüísticas exercem influências sobre o comportamento lingüístico (CALVET, 2002, p. 65).

Então, por ser a língua um fato social, a lingüística é uma ciência social. Não o social a que se refere Saussure (1974, p. 16), como já discutimos, embutido numa indefinição teórica que nem ele próprio dá conta: a linguagem é vista sob um lado individual (fala) e um lado social (língua). Segundo Calvet (2002, p. 15), Saussure dá como certo o caráter social da língua e passa a outra coisa, a uma lingüística formal, à língua ‘em si mesma e por si mesma’. Assim, a língua passa a ter uma dupla determinação para Saussure, pelo fato de ser ao mesmo tempo um ‘fato social’ e um ‘sistema que tudo contém’. Neste modelo abstrato da língua, vimos, por exemplo, que Meillet se vê em conflito com o postulado acima exposto: para ele, não se chega a compreender os ‘fatos’ da língua sem se fazer referência à diacronia, à história; busca, assim, explicar a estrutura da língua pela história, ao contrário de Saussure, que distingue abordagem sincrônica de abordagem diacrônica. E, como também já sabemos, hoje em dia, essas duas abordagens estão cada vez mais em convergência, e muitos estudiosos até consideram impossível separar o sincrônico do diacrônico (Weedwood, 2002, p. 11).

Ver a língua num recorte sincrônico, apenas, é concebê-la nas suas abstrações. E, sob esta concepção abstrata de língua, se constitui uma espécie de personificação de expressões que a ela acabamos por conceber. É muito comum falarmos sobre a língua como se ela fosse um sujeito animado, uma entidade viva: ‘a língua é difícil’, ‘a língua oferece

possibilidade de ...’, ‘podemos classificar essa língua como ...’, ‘é preciso defender a língua’, ‘a língua nasce, vive e morre’, e assim por diante. Entretanto, a língua como ‘essência’ não existe: o que existe são seres humanos que falam línguas. Então, a língua não é abstração, é tão concreta quanto seus falantes. E isso significa olhar para a língua dentro da realidade histórica, cultural, social em que ela se encontra. Significa considerá-la como uma atividade social empreendida na interação verbal por meio da fala ou da escrita (cf. Bagno, 2002, p. 22).

Se a língua é um fato social, portanto, concreta, por se constituir um trabalho empreendido conjuntamente pelos falantes toda vez que se põem a interagir verbalmente, por meio da fala ou da escrita, e se cada vez mais sentimos a necessidade de abordá-la sob a convergência da perspectiva sincrônica e diacrônica, considerando impossível a separação delas, e contrariando, portanto, a metáfora infeliz do ‘jogo de xadrez’37, levantada por Saussure, então é a língua suscetível à variação.

A distinção entre sincronia e diacronia em Saussure surgiu ao lado da distinção entre língua e fala, como forma de definir um objeto específico para a lingüística, que apresentasse uma homogeneidade interna, sem a qual seria impossível pensar a linguagem cientificamente. Nesta perspectiva, a lingüística deveria colocar no centro de seu interesse o estudo do sistema da língua, num dado momento (cf. Guimarães, 2002, p. 2);

Assim, embora ele (Saussure) reconheça o lugar dos estudos das mudanças, considera que a lingüística deveria colocar no centro de seu interesse o estudo do sistema da língua, num momento dado. Segundo ele, no funcionamento da língua não se é levado pelo fato que as formas foram, mas por aquilo que elas são e pelas relações que elas têm naquele momento da história. Para quem fala não interessa que mulher veio de muliére, mas que mulher se opõe a homem, por exemplo. Estão em questão aqui relações sistemáticas de simultaneidade e não relações de sucessão (GUIMARÃES, 2002, p. 2).

37A metáfora é a seguinte: assim como num jogo de xadrez, por exemplo, em que numa troca de jogadores, o

jogador que substituirá o que saiu não precisa saber do ‘histórico’ do jogo (o que aconteceu antes de ele chegar), ao estudarmos um fenômeno lingüístico numa perspectiva sincrônica também não precisaríamos necessariamente recorrer à diacronia, porque, assim como o jogo de xadrez está todo inteiro na combinação das diferentes peças, assim também a língua tem o caráter do sistema baseado completamente na oposição de suas unidades concretas. Não podemos dispensar-nos de conhecê-las, nem dar um passo sem recorrer a elas; e, no entanto, sua delimitação é um problema tão delicado que nos perguntamos se elas, as unidades, existem (Saussure, 1974, p. 124).

Nesta concepção, estamos no lingüístico enquanto relação com o lingüístico, sem a inclusão, portanto, das questões do sujeito, da relação com o mundo, e mesmo a questão da significação. E o estudo da variação e mudança lingüística decorre de uma relação harmônica entre sincronia e diacronia. Uma das formas básicas de se colherem dados para um estudo de mudança em tempo real é através da consulta direta a fontes históricas.