1 Etat de l’art 4
2.3 Transistors MOS basse tension de type N 61
2.3.1 Structures proposées 62
A divisão de espaços entre homens e mulheres marca também o locus de fala de cada um dos sexos. A palavra não foi concedida à mulher de forma livre em espaços públicos. Por ficar reservada ao ambiente doméstico, a fala feminina fazia-se presente apenas nos diálogos íntimos, frutos do relacionamento com os filhos e com o marido. Na Igreja, espaço público permitido às mulheres, elas eram fiéis do silêncio, acostumadas ao seu lugar de resignação e obediência.
O acesso à escrita, domínio sagrado, é também uma zona de
afrontamentos e de controvérsias. Se não é mais possível “proibir que as mulheres aprendam a ler e a escrever”, como desejava Sylvain
Maréchal, em um projeto de lei apenas imaginário, ao menos pode-se isolá-las em modos de escrita privada (a correspondência familiar, por exemplo) e formas públicas específicas (obras de educação). (PERROT, 2005, p.271)
É preciso retomar aqui o fato de que o ambiente escolar também não era facilmente acessado pelas mulheres. No Brasil, apenas em 1827 as mulheres são autorizadas a frequentarem escolas. Era comum as mulheres que tinham posses e cujos pais se interessavam pela alfabetização das filhas, terem professores em casa para evitar
a exposição pública. Em seus estudos, Morel e Barros buscaram compreender a relação da presença feminina nas escolas com sua produção literária. Segundo os autores,
(...) apenas na segunda metade do século XIX um número razoável de mulheres são tidas como alfabetizadas, que se interessavam pela poesia e os romances-folhetins, muitas vezes saboreados em conjunto, lidos pelas pessoas de maior talento teatral e voz mais harmoniosa, enquanto a família, ao redor, escutava avidamente... (MOREL & BARROS, 2006, p.60)
As leituras públicas, conforme descrito acima, eram uma oportunidade para que as pessoas não-letradas (inclusive as mulheres) tivessem conhecimento das publicações e livros escritos. Há que se considerar aqui a importância da Reforma Religiosa, ocorrida no século XVI, para a abrangência da leitura. Martinho Lutero questionou a ordem religiosa conduzida pela Igreja Católica e trouxe diversas mudanças na forma de pensar não apenas a Igreja enquanto instituição religiosa, mas também a sociedade e seu modo de compreender o mundo. Um ponto que nos interessa é a contribuição da Reforma para a perspectiva da leitura. Como nos lembra Perrot, “a Reforma protestante é uma ruptura. Ao fazer da leitura da Bíblia um ato e uma obrigação de cada indivíduo,
homem ou mulher, ela contribuiu para desenvolver a instrução das meninas” (PERROT,
2007, p.91). De forma indireta, há reflexos da Reforma Religiosa na formação do público leitor e escritor dos séculos posteriores ao manifesto religioso.
Outro momento histórico importante para a flexibilização da lógica em relação à formação educacional das mulheres foi o advento do Iluminismo, desenvolvido na Europa a partir do século XVIII. Perrot (2007, p.92) nos recorda a proposta dos filósofos das Luzes, segundo a qual era preciso fornecer luzes às meninas e direcioná- las a partir de seus deveres. O pensamento iluminista influenciou a imprensa feminina que reivindicava emancipação no século XIX.
Sobre a busca pela libertação feminina, Soihet (1997) afirma que
A partir da segunda metade do século XIX, principalmente, as insatisfações de muitas mulheres inconformadas com sua exclusão do terreno público contribuem para a emergência de movimentos feministas na Europa Ocidental e nos Estados Unidos. Criando uma imprensa própria, organizando associações, quer aquelas que se limitavam a uma postura liberal, quer as que vinculavam suas propostas à instauração do socialismo, as mulheres lutam pelo
reconhecimento de seus direitos, incursionando algumas pelo terreno da sexualidade (SOIHET, 1997, p.99).
No Brasil, as ações femininas com esse caráter surgiram apenas no século XX, após a eclosão dos movimentos populares e estudantis da década de 1960. Todo o período que antecede essa data é marcado pela construção da história da mulher, muitas vezes desenhada pela exclusão política e do mercado de trabalho oficializado14.
Torna-se salutar, portanto, compreender o motivo da luta feminina. Ao falar em emancipação, ou liberdade feminina, estamos nos referindo à ausência de espaço para a mulher manifestar-se publicamente. Apesar dos jornais que surgiram em meados do século XIX, há uma história da mulher contada apenas em diários íntimos e, muitas vezes, revelada somente após sua morte. Há uma imagem de mulher que se isola, não se conta e não se consta na História.
Pode-se dizer, de modo geral, que foi a partir do advento da École des Analles que a perspectiva dos estudos sobre a mulher sofre alterações. Passa-se a dar mais importância aos registros não oficiais da História e a considerar os elementos cotidianos que também contam história e revelam dados e fatos importantes sobre a sociedade. Desse modo, registros particulares feitos por mulheres ou que a elas se referiam, escritos em diários, cadernos e livros de receita, passam a contar a história esquecida das mulheres.
Sabemos que também no campo da sexualidade a mulher era impedida de agir
com liberdade. “O adestramento da sexualidade, como parece claro, pressupunha o
desvio dos sentidos pelo respeito ao pai, depois ao marido, além de uma educação dirigida exclusivamente para os afazeres domésticos” (ARAÚJO, 2004, p.50). A realidade vivida pelas mulheres até o século XIX as submetia pois, à autoridade desses dois membros masculinos da família.
Outra restrição das mulheres era referente à ocupação. A destinação da mulher aos afazeres domésticos restringia suas atividades à rotina familiar. Havia na sociedade o pensamento de que a mulher tinha a função de cuidar/educar os filhos e, consequentemente, das tarefas do lar. Em seu jornal, publicado em 1873, Senhorinha
14 Entendemos como mercado de trabalho oficializado aquele reconhecido e registrado através dos índices
Diniz reivindica os direitos femininos e retoma a imagem que os homens tinham da mulher nos anos oitocentos.
O Século XIX, século das Luzes, não se findará sem que os homens se convenção de que mais da metade dos males que os opprimem é devida ao descuido que elles tem tido da educação das mulheres e ao falso suposto de pensarem que as mulheres não passam de um traste de casa, grosseiro e brusco gracejo que infelizmente alguns indivíduos menos delicados ousão atirar a face da mulher, e o que é mais as vezes, em plena sociedade familiar (DINIZ, 1873, p.1).
Esse relato de Senhorinha no periódico por ela criado e dirigido, reafirma a opressão e o isolamento vivido pelas mulheres oitocentistas. Mas as poucas manifestações femininas através da imprensa nessa época já constituem um marco que aponta para a representação e emancipação feminina nos anos que virão. Se o movimento feminista propriamente dito só se consolidará no final dos anos 1960 no Brasil, seus caminhos começaram a ser traçados desde os primeiros embates da mulher com a sociedade masculina, mesmo que a sua presença na imprensa tenho sido tímida, pois ainda envolvida com temas ligados à moda e aos folhetins.
Essa imprensa tem um grande desenvolvimento no século XIX, em razão de seu sucesso junto às mulheres, em busca de conselhos de moda. (...) Por trás dessa fachada algo banal, observa-se na escolha e no tom, uma vontade de emancipação das mulheres pela educação e mesmo pelo saber e pelo trabalho. (PERROT, 2007, p.33)
Com o tempo e o desenvolvimento da imprensa destinada às mulheres, as especificidades do discurso feminino foram surgindo e caracterizando a fala deste grupo na imprensa. Para Perrot, a imprensa que se forma direcionada às mulheres tem mais engajamento. Segundo ela, “As feministas têm consciência do papel da imprensa na opinião pública. Elas tomam essa tribuna com profissionalismo e também com muito
idealismo” (PERROT, 2007, p.34).
No início, a voz feminina não era tão livremente aceita, por isso era comum as mulheres escreverem com pseudônimos masculinos para que seus textos pudessem ser lidos e publicados. A proibição civil e religiosa (Perrot, 2005) a elas impelida representava uma ameaça e sua ação contrária era não apenas uma afronta, mas uma
prova de coragem, determinação e ousadia para a sociedade enraizada em pensamentos machistas.
Buitoni (2009) apresenta vários nomes de jornais que foram assumidamente direcionados para as mulheres. Na lista da pesquisadora, periódicos como O espelho diamantino, Echo das Damas e Jornal das senhoras aparecem como os precursores de uma escrita feita para o público feminino. Como já foi dito, tais jornais abordavam temas como culinária, moda, cultura, religião e costumes. Tais assuntos eram considerados temas femininos e tratados com menor valor.
Há que se ressaltar aqui os pseudônimos masculinos usados pelas mulheres para terem seus textos publicados em jornais. Recordamos que a sociedade machista dos anos oitocentos aceitava apenas que os homens se manifestassem publicamente. Tal fato apontava dois caminhos para as mulheres: o silêncio e o isolamento público ou os pequenos sussurros que poderiam tornar-se gritos em prol da liberdade do gênero.
Algumas redatoras foram mais ousadas e investiram no ataque à sociedade machista. Dessa forma, sustentavam jornais mais diretivos, com propostas de emancipação e liberdade para as mulheres. Entre os periódicos que possuíam essa linha editorial está o jornal O Sexo Feminino, corpus da nossa pesquisa de Mestrado (ROSA, 2011), e ainda presente nos estudos desta tese. Esse periódico defendia o programa de emancipação racional da mulher, ou seja, a liberdade que seria adquirida por meio da educação. Sendo assim, a jornalista (e diretora) do jornal orientava as mulheres a estudar para se libertar de seus pais, maridos e, dessa maneira, conquistarem sua independência financeira, emocional e física. As palavras da jornalista Senhorinha Diniz, responsável pelo jornal O Sexo Feminino, levam-nos à conclusão de Perrot (2005) sobre o acesso das mulheres à palavra. Segundo a historiadora, o uso da palavra pública é símbolo de poder e forma de acesso à esfera pública, da qual as mulheres sempre foram excluídas.
Em meio à hegemonia masculina, a palavra pública feminina assumia um caráter de afronta e resistência. O Brasil era um país marcado pela privação da presença das mulheres em alguns lugares públicos, especialmente no período dos anos oitocentos. Destarte, conceder a elas o direito de publicar documentos e divulgar ideias para toda a sociedade gera, necessariamente, um confronto entre homens e mulheres.