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1 Etat de l’art 4

1.4 Impact sur le comportement de structures de protection contre les ESD 38

A recuperação da história do jornalismo no Brasil e as propostas de compreensão das trocas discursivas e linguageiras impulsionam-nos a discutir, em primeiro lugar, a função da imprensa no país e, por consequência, a função do próprio jornalista.

Nossa história surge da censura e esse fato é salutar na definição do tipo de imprensa que se formou no país. A necessidade de publicizar atos e ações particulares ocorridas no Brasil e em Portugal surgiu do próprio governo. Desse modo, a Imprensa Régia (1808-1821) foi representativa da força autoritária da metrópole sobre a colônia. Portanto, não houve uma necessidade motivada por populares para o surgimento da imprensa no Brasil, mas sim uma aceitação daquilo que as autoridades metropolitanas definiam como adequado ao país.

Ademais, as tentativas de implantação da prensa tipográfica ainda no século XVIII foram reprimidas pela corte, fato que evidencia a dominação não apenas territorial, mas política, econômica e cultural que a metrópole exercia sobre a colônia.

Como vimos na seção anterior, o jornalismo foi se firmando durante o século XIX. A produção familiar e artesanal deu lugar à produção mais informatizada do século XX. Em fins dos anos oitocentos, os jornais inseriram figuras e desenhos às suas páginas e, no século XX as fotografias já completavam o sentido das notícias. O caráter doutrinário deu lugar ao informativo, mais próximo do modelo de fazer jornalístico que conhecemos atualmente.

Sob essa perspectiva, faz-se necessário refletir sobre o papel do jornalista na construção da imprensa e da opinião pública no país. Se no início da imprensa no Brasil, o jornalista apenas reproduzia os decretos-lei enviados pela Corte e publicava, de forma seletiva, as notícias dos periódicos ingleses e portugueses, no decorrer dos séculos ele assumiu seu lugar de formador de opinião. Ainda no século XIX, os momentos de maior proliferação de pasquins foram os correspondentes à efervescência política no país:

Independência, Regência, Abolição e República. Desse modo, começava a se delinear a função da imprensa na sociedade brasileira. De forma incipiente e artesanal, os periódicos contribuíram para dar voz aos grupos políticos e idealistas que se formavam no país recém-independente. Para Traquina (2005), o novo grupo social que se formava, composto pelos jornalistas, reivindicava o monopólio do saber e a comercialização da informação como mercadoria. Além disso, eles foram responsáveis por travar discussões importantes e construir o espaço de socialização de ideias. Dito de outra forma, a imprensa tornava públicos os pensamentos que antes se mantinham privados e restritos a determinados grupos de intelectuais em seus salões de discussão.

Não apenas no Brasil, mas no mundo inteiro, a urbanização contribuiu com os avanços na transmissão de informação, especialmente com a criação das linhas telegráficas, nos anos 1850 e 1860 na Europa que uniram os europeus aos norte- americanos (TRAQUINA, 2005, p.39). Todo esse processo facilitou a proliferação dos jornais, fato que ocorreria no Brasil apenas no século XX. O desenvolver do século XX firmou a imprensa como a propagadora de informações.

Havia uma associação direta da imprensa aos movimentos políticos. Durante o século XX, quanto mais a imprensa se solidificava, mais ela representava a sociedade de forma pública, associada aos eventos políticos. O espaço democrático começava a se delinear através do novo instrumento de representação social. “Os jornais eram vistos como um meio de exprimir as queixas e injustiças individuais e como uma forma de

assegurar a proteção contra a tirania sensível” (TRAQUINA, 2005, p.47). Nesse

sentido, aqueles que escreviam nos jornais tinham a tarefa de lutar pela democracia, de ser a voz da sociedade e de representar publicamente determinados grupos sociais. A história do Brasil colaborou diretamente para o processo de expansão da imprensa. Quanto mais a sociedade brasileira tornava-se livre politicamente, mais o jornalismo assumia seu lugar de crítica e avaliação social. Desse modo, a Proclamação da República, no final do século XIX contribuiu sobremaneira para o avanço do papel social da imprensa. Para Silva (2012),

A expansão da imprensa também foi impulsionada pela liberdade, por meio da conquista de direitos fundamentais e da democracia como nova forma de governo. Os jornais passaram a ser reconhecidos como um meio de denunciar as mazelas e injustiças sociais. (SILVA, 2012, p.2)

Portanto, durante o século XX o jornalismo se deslancha em sua representação da sociedade. Sob tal perspectiva, os jornais começaram a se especializar em temas e assuntos específicos, de acordo com a linha editorial dos grupos idealistas que se formavam. Esses vínculos que se formavam eram de ordem política, econômica e social. A especialização também atingiu a estrutura material dos jornais, pois foi necessário dividir o conteúdo por assuntos para melhor distribuir os temas e proporcionar ao destinatário uma leitura mais direcionada. A partir de então, surgiram no final do século XIX as editorias especializadas (notícias, sociais, policiais, regionais, etc), juntamente com novos gêneros explorados nos jornais, além dos já conhecidos folhetins (textos literários publicados no rodapé da primeira página dos jornais) e as notícias, também mescladas ao estilo literário.

Outro fato importante que estabelece o progresso da imprensa é a sua institucionalização no espaço acadêmico. O jornalismo enquanto curso nas universidades surge nos Estados Unidos, em 1860. A partir de então, a profissão é regulamentada e tem início também a teorização da produção jornalística e o estabelecimento de conceitos sobre o fazer jornalístico. No Brasil, esse processo ocorreu quase um século depois, quando em 1935 foi criada a primeira cadeira de Jornalismo, integrando-se à Universidade do Distrito Federal. Em 1942 e 1943 são criados cursos de Jornalismo no Rio de Janeiro e em São Paulo (HOLFELDT & VALLES, 2008). Assim, estava estabelecido o espaço para o desenvolvimento dos embasamentos teóricos da comunicação.

Se retomarmos a função social do jornalista, verificamos que além de representar a sociedade e motivar as discussões sociais, o jornalista assume o lugar de

propagador da “verdade”. Para usar os termos de Charaudeau (2007), há uma instância de produção credível que assume a função de produtora e veiculadora da “verdade”. Tal

imaginário ao redor da figura do jornalista permite a construção e solidificação na sociedade da ideia de que a mídia torna-se o quarto poder. Em referência direta aos três poderes instituídos pelo filósofo iluminista Montesquieu e sustentadas pelo artigo segundo da Constituição Brasileira, a mídia ainda é considerada por muitos como a sobreposição dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário. Para o imaginário social, a mídia tem influência na tomada de decisões, sejam elas políticas ou comportamentais, e interfere (direta ou indiretamente) na condução de um país. Dito de outro modo, aquilo que a mídia divulga, promove e publica com seu efeito de verdade, pode ser

assumido socialmente, em termos de moda, escolhas alimentares e comportamentais, opiniões políticas e econômicas, enfim, toda a visão de mundo propagada pela instância de produção tende a ser aceita pelos grupos alvo de tal proposta midiática.

Ao noticiar os fatos, o jornalista é também figura testemunhal. Ele assume o lugar daquele que presenciou o acontecimento e dele dá testemunho. O pensamento de Charaudeau segue tal perspectiva, pois defende que o jornalista conquista sua legitimidade à medida que seu público confia em suas palavras e as torna credíveis.

Faz-se necessário pontuar que a notícia é compreendida aqui como construção.

Portanto, o jornalista não é capaz de “reproduzir” tal verdade de forma isenta. Por haver

uma distância temporal e espacial entre o fato ocorrido e a notícia narrada/publicada no veículo impresso, há uma lacuna entre o fato e o discurso jornalístico. Sendo assim, podemos compreender, em concordância com Charaudeau, que “o jornalista se apresenta como intérprete dos acontecimentos, buscando-lhes as causas e situando-os. (...) Enfim, o jornalista pretende ser didático, aspirando ao papel de educador da opinião

púbica” (CHARAUDEAU, 2007, p.78). A produção/construção da notícia explora os

sentidos e a percepção do jornalista, como também evidencia seus valores e o conjunto de regras morais às quais ele se filia. Produzir uma notícia é também implicar-se enquanto ser social e discursivo, submetido a determinadas sanções e imbricado em valores e modos de compreender o mundo e retratá-lo.

Sob esse prisma, Charaudeau (2007) define dois papéis específicos ao jornalista no processo de comunicação midiática. Segundo o pesquisador, o jornalista desempenha a função de pesquisador-fornecedor e de descritor-comentador. Em determinados momentos, ele é responsável pelo contato com as fontes, realizar pesquisas, buscar as informações e organizá-las; em outro momento, ele explica os fatos, busca certa didática em seu discurso para fazer com que o destinatário compreenda a narrativa. As duas funções revelam a imagem e função do jornalista a partir do processo discursivo de produção da notícia.

Com a consolidação da democracia, o jornalista assume o papel de elo entre a opinião pública e as instituições governamentais. Cabe a ele ser porta-voz do cidadão

no exercício de seus direitos. Ele é considerado, em muitos casos, como o “justiceiro”,

aquele capaz de resolver o problema social, de solucionar uma dificuldade vivida pelo cidadão. Sendo assim, compreende-se que a produção e veiculação de notícias na mídia são utilizadas para o exercício da cidadania e o jornalista é peça fundamental neste

processo, pois ele será o alerta para o leitor a respeito daquilo que é feito/articulado por instituições e governantes. De forma mais objetiva, podemos dizer que o jornalista observa, analisa e avalia (a partir do seu olhar) e publica aquilo que a sociedade deveria ver (escolha também pautada pelo olhar do profissional da comunicação).