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Structures compactes : graphes et petits s´eparateurs

Fonte: Vida cotidiana em São Paulo

A cidade (...) conservava hábitos um tanto feudais e aparência medieval. Suas ruas tristes , com passeios tão estreitos que apenas davam para duas pessoas lado a lado, não se viam senão casas baixas e pequeninas, habitadas por profissionais de vários ofícios: sapateiros, latoeiros, caldeireiros. E, qual conta disjuntiva naquele sombrio rosário, aqui e ali um vasto casarão, grave e soturno, residência de família mais abastada, com suas janelas de rótulas, sempre cerradas... (p. 91)

Nota-se nesse trecho que há referência a um comércio acanhado, composto basicamente por produtos artesanais. A maioria da população consistia de pessoas de poucas posses. Os mais abastados mantinham casas na capital, porém raramente a utilizavam.

Zaluar (1953 apud MARTINS, 1990), provavelmente tendo a corte como elemento de comparação, ressalta a falta de atrações e atividades sociais na cidade: “São Paulo é monótona, e nos seus dias de festa, em vez do riso jovial e franco, é taciturna e reservada, como uma beata que vai à missa das almas com o rosto escondido na mantilha e as contas do rosário a aparecerem por baixo das rendas de mantelete de seda.” (p.124)

Barros (1999) também faz referência ao caráter mais reservado dos paulistas: Nesses tempos serenos, a cidade pobre não oferecia diversões... a não ser para desempenho de seus afazeres, ninguém andava pelas ruas solitárias, calçadas de grandes pedras irregulares. Sobre elas rodavam, aos solavancos, as três únicas seges da cidade, pertencentes ao Bispo, à marquesa de Santos e ao comendador B. (p.91)

A infra-estrutura era precária. Adorno (1988) relata que não havia plano de arruamento e nem calçamento, a iluminação era insuficiente e o sistema de transportes praticamente não existia. A questão do saneamento básico também era problemática, a cidade não dispunha de água encanada e as residências seguiam padrões inadequados

de segurança, comodidade e higiene. Não havia controle da qualidade dos gêneros alimentícios que, juntamente com os demais itens, eram comercializados preferencialmente por mascates, ambulantes e pequenas vendas. As opções de acesso à instrução e à cultura também eram bastante restritas. Não havia livrarias ou colégios para o sexo feminino.

No ano de 1827, começou um período de mudanças na capital. A escolha da cidade para abrigar uma das duas faculdades de Direito criadas no Brasil logo após a sua Independência marcou o início dessas mudanças. Segundo Hallewell (1985), o Rio de Janeiro era a primeira opção para a instalação da faculdade, mas por razões que ainda não estão claras, São Paulo foi a escolhida. Cogita-se que a decisão foi baseada “em grande parte na esperança de que, ali, os insetos causariam menos dano aos livros!” (HALLEWELL, 1985, p.224). Segundo Adorno (1988), a escolha da localização, bem como do currículo, teve motivação política, que era a de “se constituir quadros para o aparelho governamental e de exercer pertinaz controle sobre o processo de formação ideológica dos intelectuais a serem recrutados pela burocracia estatal” (p.88). Embora a Faculdade tenha tido um início promissor, ela só veio a se estruturar, segundo Hallewell (1985), em 1855.

Não obstante esse aspecto, os estudantes gradualmente passaram a transformar os hábitos da cidade “com suas serenatas, namoros, bebedeiras e tagarelice sem fim” (HALLEWELL, 1985). Surgiram tavernas, um teatro e, algum tempo depois, uma livraria. Estrangeiros, principalmente professores de línguas, música e ciências, foram atraídos pelas novas oportunidades. “Então já estudavas, pensavas, conversavas. E, ao

mesmo tempo, ias abandonando teus rudes hábitos campesinos, pelos mais apurados, de uma cidade progressista” (BARROS, 1999, p. 91).

Em 1836, foi impresso o primeiro livro em São Paulo, Questões sobre presas

marítimas de José Maria de Avelar Brotero. Nos três anos seguintes, foram impressas

mais duas obras e somente dez anos mais tarde é que se volta a imprimir livros em São Paulo. A “Typographia Liberal” de Joaquim Roberto de Azeredo Marques começou com obras literárias: Rosas e goivos de José Bonifácio (o moço), e, em 1852, Cantos

da solidão de Bernardo Guimarães.

Em 1855, enquanto a corte reunia uma população acima de 200 mil habitantes, São Paulo ainda permanecia com 15.000, e o número de estudantes das faculdades atingia apenas seis por cento desse total. Nessa época, a capital paulista já contava com três livrarias: Fernandes de Souza, Gravesnes e Torres de Oliveira, e três gráficas que produziram diversos títulos. Em 1860, a casa Garraux com sede no Rio de Janeiro abriu uma filial em São Paulo, “...fato por si só indicador de que o mercado de livros ali já era de bom tamanho” (HALLEWELL, 1985, p.226-7).

Esses novos elementos, no entanto, parecem não ter causado um impacto significativo no contexto geral da cidade, pois o norte americano James Codman, em visita a São Paulo, no ano de 1865, afirmou que, “não obstante a importância – pequena – da cidade naquela época, essa importância desapareceria assim que a estrada de ferro atingisse Campinas” (apud HALLEWELL, 1985, p.225). A pujança da Academia, segundo Adorno (1988), contrastava com a miséria e a “desordem” imperantes no espaço da cidade. Os estudantes eram os efetivos usuários dos serviços

urbanos. A vida social e associativa era organizada pelos membros da academia e a estes se restringiam.

No entanto,

através da ação dos acadêmicos, de seus institutos e associações, de sua imprensa e do que a vida estudantil proporcionava em termos de prestígio e poder, tanto a professores quanto a estudantes, foi a cidade, pouco a pouco, perdendo sua fisionomia herdada dos tempos coloniais e abrindo espaço para as transformações que se anunciavam (ADORNO, 1988, p.81).

Ao final da Guerra do Paraguai em 1870, a São Paulo das memórias de Barros (1999) já era bem diferente daquela do início do século, como demonstra o depoimento abaixo:

Extraordinário foi o desenvolvimento da imprensa, demonstrado por grande número de jornais e publicações diversas. Expandiam-se as vias de comunicação, móvel de todo progresso. Já existia a estrada de ferro de São Paulo a Santos. Construía-se agora outra, até Jundiaí, que porém não estacionou nesse local, graças ao concurso entusiasta dos fazendeiros paulistas, que se organizaram para tornar possível o prosseguimento da obra. Fundou-se, assim, por iniciativa particular, a Companhia Paulista de Estradas de Ferro, uma das mais bem organizadas empresas do país (BARROS, 1999, p. 141).

Além do crescimento econômico advindo principalmente do cultivo do café nas fazendas do interior, outros fatores impulsionaram o desenvolvimento da cidade de São Paulo nas últimas décadas do século XIX. Conforme Souza (1999), após 1850 a ocorrência de uma epidemia de febre amarela no interior da Província causou um êxodo para a cidade. No final da década de 1880, Campinas, a capital econômica da Província, foi alcançada também pela epidemia, provocando a fuga de famílias inteiras. Comerciantes industriais, fazendeiros, sitiantes e toda sorte de pessoas deixaram suas casas e negócios e migraram para a capital. Alguns anos mais tarde o

mesmo aconteceu em menor escala às cidades mais distantes do interior, como por exemplo Jundiaí, Limeira, Rio Claro e São Carlos.

Essa explosão demográfica e os excedentes financeiros gerados pelo momento econômico favorável resultaram no desenvolvimento de novos bairros e na transformação de casas modestas e antigas em suntuosas residências. Houve também a expansão da área do comércio e dos serviços, com a vi nda de importantes estabelecimentos industriais e comerciais que vendiam artigos importados. Surgiram clubes de jogos, em cujas instalações não se mediam despesas para torná-las suntuosas e atraentes. Vieram os operários, artífices e outros profissionais que ofereciam serviços considerados de alto luxo, tais como alfaiates, confeiteiros, padeiros e cabeleireiros, que ali se estabeleceram. A falência econômica da Argentina ocorrida nesta época causou o desvio da rota dos grandes espetáculos e as grandes companhias teatrais passaram a se apresentar, além do Rio de Janeiro, também na capital paulista.

Por sua vez, a educação também sofreu alterações. No final da década de 1850, verificou-se um movimento católico liderado pelo bispo Antônio Joaquim de Melo para a educação dos jovens leigos, em especial as mulheres. O princípio que norteava o projeto de educação católico era a cristianização da sociedade através da mulher: “da mãe cristã para filhos cristãos; de filhos cristãos para famílias cristãs; das famílias cristãs para a sociedade cristã” (MANOEL, 1996, p.49). Em 1859, foi inaugurado na cidade de Itu o Colégio Nossa Senhora do Patrocínio, que era voltado unicamente para mulheres e estava sob a direção de freiras francesas (NADAI, 1991 apud HELLER, 1991). Anos mais tarde as filhas do Conde do Pinhal estudaram neste colégio.

A educação primária e secundária, no entanto, não sofreu alterações e continuava inacessível para a maioria. Manoel (1996) descreve a escassez dos professores e os baixos salários aos quais eram submetidos. A partir de 1848, paralelamente ao ensino domiciliar, comum às famílias abastadas, surgiram as primeiras escolas particulares em regime de internato para as meninas nas principais cidades da Província paulista. Até 1885, já havia vinte e uma dessas escolas (MANOEL, 1996). O ensino ministrado, porém, era de curta duração e de qualidade duvidosa, além de custosos. Devido a esses fatores, e ainda à má-fé de alguns professores que não possuíam preparo para o exercício do magistério, o funcionamento dessas escolas foi bastante precário e efêmero.

Um outro afluxo de habitantes para São Paulo foi causado pela seca no Nordeste, ocorrida entre 1877 e 1886. Nos últimos quatro anos da década de 1880, a população na capital cresceu de 44.030 para 192.409 habitantes. Esse crescimento também foi sentido no interior da Província. O quadro 01 reúne alguns dados que refletem o crescimento da Província de São Paulo ao longo do século XIX.