Ainda que munido de um conjunto variado de grandes artistas nas três décadas anteriores, é bastante comum a afirmação de que o rock brasileiro surgiu apenas nos anos de 1980 (Alexandre, 2002; Dapieve, 1995; Motta, 2000). Uma série de circunstâncias e peculiaridades do contexto do país influenciaram decisivamente esse “nascimento” tardio do rock nacional. Como já relatado no primeiro tópico deste capítulo, nos anos de 1950, o que se assistiu num primeiro momento foi a chegada do rock principalmente a partir de
73
intérpretes vinculados às rádios, sem uma postura artística que estivesse relacionada aos primeiros cânones do rock and roll norte-americanos. Nos anos de 1960, ainda que o conjunto de artistas classificados sob o rótulo Jovem Guarda tenha alcançado dimensões massivas, e sua sonoridade fosse formatada tendo em vista o que circulava no
mainstream roqueiro da época, era ainda “inofensiva” demais para configurar tal
postura rock and roll. Já o exemplo bem-sucedido da Tropicália a partir do grupo Os
Mutantes não chegou a configurar um alcance massivo. Assim, se nos anos de 1970 já
havia um corpo sólido de artistas no âmbito do rock brasileiro, a marginalidade dessa produção – salvo as já referidas exceções como Raul Seixas, Rita Lee, Secos &
Molhados e Novos Baianos – era a característica marcante.
A conjuntura política, como evidenciado ao longo deste capítulo, foi fundamental para a maneira como se formatava a variante roqueira no Brasil. Esta ligação forte entre contexto histórico e surgimento e consolidação do rock torna-se ainda mais explícita na observação do fenômeno na década de 1980. Assim, a emergência do rock no Brasil apenas na década de 1980 está diretamente ligada ao processo de lenta redemocratização pelo qual passava o país. Os principais avanços neste sentido foram a revogação do Ato Institucional nº 5 (1978)30 , o fim da censura à imprensa (1978), assinatura da Lei da Anistia (1979) e a suspensão da obrigatoriedade do bipartidarismo (1979). Estes avanços foram fundamentais para o surgimento de uma cultura pop jovem massificada (Alexandre, 2002: 33-35). Assim, a abertura política lenta e gradual impulsionou o incremento do rock brasileiro “não como um gênero musical, um ritmo [afinal, este já estava sedimentado], mas como um movimento artístico, uma música de geração, de atitude, de massa, só possível na semiliberdade da lenta redemocratização” (Motta, 2000: 292).
No período imediatamente anterior à explosão do rock brasileiro, a música radiofônica não representava os anseios da maior parte de uma juventude órfã de
30 Que instalou o período mais obscuro da ditadura brasileira, permitindo, entre outras coisas, o confisco
74
manifestações culturais abrangentes e representativas. A programação consistia principalmente na versão nacional da disco music (As Frenéticas), artistas do chamado
brega (Sidney Magal), da música romântica (Fábio Jr.) e do segmento mais politizado
(Gonzaguinha). Sucessos repentinos e passageiros como Hermes Aquino, além da nova geração de vozes femininas como Simone, Zizi Possi e Marina Lima, também tiveram boa visibilidade nas rádios. Destas últimas, apenas Marina Lima se vinculou efetivamente à música jovem que começava a se formatar (Alexandre, 2002: 15-20).
Um fator estrutural importante para a compreensão da emergência do rock brasileiro nesta altura foi a descoberta tardia, por parte das gravadoras, do potencial lucrativo destes novos artistas, bem menos custosos do que os da MPB. De fato, o registro fonográfico de um artista padrão vinculado à MPB era oneroso por uma série de motivos: o intérprete geralmente exigia contratos com valores elevadíssimos, além de músicas cujos direitos autorais também poderiam atingir, em muitos casos, altas cifras31 (Dapieve, 1995: 23).
Os novos grupos de rock, por outro lado, assinavam contratos muito mais econômicos com as gravadoras. Além disso, a sonoridade simples destes grupos não requeria a contratação de músicos para a execução ou maestros para escrever os arranjos. O que de fato precisavam eram horas de estúdio e um produtor competente que, mais do que encomendar músicas aos compositores, já que estes grupos, em sua maioria, as compunham, selecionava o material e formatava a sonoridade para um mercado massivo. Além do mais, estes grupos eram testados em compactos econômicos para, somente após demonstrado o potencial de vendas, lançarem-se os álbuns, este último o formato padrão, e muito mais dispendioso, do grupo da MPB. Todas as economias nestes custos de gravação e royalties eram direcionadas para a promoção e marketing.
Assim, não demoraria para que estes lançamentos atingissem recordes de vendas e
31 Além de musicistas e produtores com altos cachês, haviam eventuais participações especiais e/ou
gravações no exterior. Mesmo com toda esta estrutura dispendiosa, um disco que alcançasse 40 mil cópias cifra moderada para o então mercado brasileiro, era considerado um êxito excepcional dentro da MPB (Dapieve, 1995: 23)
75
de lucratividade (Motta, 2000: 327-328). Portanto, a geração roqueira dos anos de 1980 no Brasil constituiu-se como o primeiro segmento fora do grupo da MPB a consolidar um conjunto mais ou menos coeso de artistas de trajetórias sólidas e vendas constantes. É a partir deste grande segmento também que se verifica o alinhamento do mercado fonográfico brasileiro aos mercados centrais – o que significava vendas direcionadas para um público jovem, a adoção do LP como suporte fonográfico principal e a ênfase no repertório nacional (Vicente, 2002: 118-119). Fato é que pela primeira vez após a Jovem
Guarda, o rock no Brasil estaria novamente no topo (Motta, 2000: 329), com um corpo
sólido de projetos artísticos-musicais, com a presença marcante em outras instâncias da indústria da cultura – novelas, filmes, séries -, assim como circulando em um conjunto vasto de instâncias de legitimação nos mais diversos meios – TV, Rádio, Jornais e Revistas.
Um dos marcos iniciais mais representativos do rock brasileiro da década de 1980 foi o surgimento da banda de rock progressivo Vímana32 ainda em meados da década de 1970. O grupo “tornou-se lendário não por conta de sua música, mas por ter unido, numa mesma formação, alguns protagonistas de um período vindouro que alteraria a história da música popular no Brasil” (Alexandre, 2002: 10). Estes eram o guitarrista e vocalista Luiz Maurício Pragana dos Santos, ou simplesmente Lulu Santos, o então baterista João Luiz
32 Entre os remanescentes que migraram para o rock brasileiro da década posterior, Lulu Santos foi o que
teve a trajetória mais bem-sucedida em termos de vendas de discos, chegando à marca de 1 milhão de cópias nos anos de 1990 com o disco Eu e Memê, Memê e Eu. O artista continua ativo no show business brasileiro até os dias atuais. Lobão, ainda que não tenha vendido tantos discos, constituiu uma das trajetórias artísticas mais multifacetadas e polêmicas no país. De baterista de um grupo progressivo, passou também pela banda new wave Blitz, primeiro fenômeno massivo do rock nacional da década de 1980, assumindo posteriormente as guitarras e vocais em carreira-solo, flertando com samba e música eletrônica, até romper com as grandes gravadoras no final da década de 1990, ocasião em que vendeu 100 mil unidades do álbum A Vida é Doce (1999) num sistema de distribuição alternativa em bancas de jornais a partir do seu próprio selo, o Universo Paralelo. No início dos anos 2000 lançou a revista Outra Coisa, sobre música independente, e participou também, na Play TV, do programa Saca Rolha. Posteriormente, lançou a autobiografia (2010) e outros livros, além de se envolver em acalorados debates políticos nas últimas eleições presidenciais (2014). Paralelamente a estas atividades, continuava com a produção musical, totalizando dezesseis discos oficiais. Ritchie, após estrondoso sucesso do LP Vôo de Coração (1983), que também vendeu mais de 1 milhão de cópias, e cujo carro-chefe era a música Menina Veneno, ganhou o prêmio de melhor cantor da música brasileira do ano de 1983 (Troféu Imprensa), deixando para trás pesos-pesados como Roberto Carlos e Tim Maia. Além de diversas parcerias na música brasileira e na música internacional (com nomes como Jim Capaldi), o inglês lançou nove discos no total. No ano de 2009 abriu o seu próprio selo musical chamado Pop Songs.
76
Woerdenbag Filho, ou simplesmente Lobão, e o flautista e vocalista inglês Richard David Court, ou simplesmente Ritchie. Além dos três futuros hit-makers, completavam o grupo o baixista Fernando Gama e o tecladista Luiz Paulo Simas. Um dos pontos altos da trajetória do Vímana foi quando o tecladista suíço Patrick Moraz, ex-integrante do famoso grupo de rock progressivo Yes, convidou o grupo para a gravação de um disco. No entanto, o grupo implodiu após uma série de desavenças internas.
A explosão do BRock, sigla criada pelo jornalista Arthur Dapieve para designar a sólida e heterogênea produção roqueira mainstream do país na década de 1980, esperaria ainda até o verão de 1982, e ocorreria no Rio de Janeiro. Principalmente sob as lonas da famosa casa de espetáculos Circo Voador, inicialmente instalado entre as praias do Arpoador e do Diabo, no bairro de Ipanema, e depois no bairro boêmio da Lapa. Foi nas dependências do Circo Voador que a Blitz, um dos mais importantes grupos da primeira leva do rock nacional, faria concertos emblemáticos33.
A Blitz foi o fruto de uma parceria entre a trupe teatral Asdrúbal Trouxe o Trombone e alguns músicos da banda da cantora Marina Lima. Após a estreia exitosa no Bar Caribe, na Zona Sul do Rio de Janeiro, em 19 de fevereiro de 1981, os artistas logo passariam a fazer vários concertos com positiva repercussão até o lançamento estrondoso do seu primeiro compacto, intitulado Você Não Soube me Amar, em julho de 1982, que chegou próximo de 1 milhão de cópias vendidas. Desde os Secos & Molhados, quase dez anos antes, não se via um fenômeno com essas dimensões no rock brasileiro (Alexandre, 2002: 87-90).Alexandre (2002: 87-89) elenca alguns fatores que possibilitaram o sucesso estrondoso do grupo logo no primeiro compacto. O canto falado, característica marcante da Vanguarda Paulista, discutida no próximo capítulo, foi formatado para um alcance
33 Outro precursor importante do rock brasileiro da década de 1980 foi o jornalista, disc-jockey e compositor
Júlio Barroso. Sobretudo a partir do trabalho desenvolvido com o grupo Gang 90 (posteriormente Gang 90 e as Absurdettes), Barroso fundou a New Wave nacional e o seu grupo fez grande sucesso com o hit Perdidos na Selva, apresentado no festival MPB-Shell (1981). No entanto, a turnê mal-sucedida, a saída da gravadora Warner e o retorno de Júlio Barroso para Nova Iorque, cidade em que residia antes de formar o grupo, foram alguns dos fatores que não permitiram uma repercussão ainda maior. Após um hiato de cerca de um ano, o grupo ainda voltou a fazer sucesso com a canção Nosso Louco Amor (1983), que foi tema de abertura de novela da Rede Globo. No ano seguinte, Júlio morreria tragicamente em virtude de uma queda do 11º andar do apartamento onde vivia em circunstâncias que nunca foram esclarecidas.
77
massivo. O tipo de narrativa excêntrica, que mantinha alguma semelhança com a Gang
90, era outro elemento. No entanto, a Blitz, diferente da Gang 90, ao abordar um flerte-
relacionamento, tinha como diferencial trazer uma letra que retratava as lógicas urbanas daquele início de década no Brasil. Junto a isso, o instrumental simples alinhado à estética
pop/new wave que vigorava na música internacional naquela altura, além de um refrão
pegajoso, como não se via desde a Jovem Guarda, fechavam o pacote. Havia uma contraposição implícita à música “séria” da poética universitária da época. Assim, junto a Lulu Santos, a Blitz abriria as portas para o rock Brasil. O grupo lançou três discos até 1986, ano da primeira separação. Nos últimos anos, a trupe se encontra com agenda cheia, viajando por várias cidades brasileiras.
Outro grupo que faria história na música brasileira e fruto deste período foi o Barão
Vermelho. Formado em 1981, no Rio de Janeiro, consolidou a sua formação clássica com
a entrada, no ano seguinte, de Agenor de Miranda Araújo Neto, mais conhecido como Cazuza, que se tornou vocalista, compositor principal e um dos maiores nomes da música brasileira daquela década. O grupo seguiria com essa formação até junho de 1985, quando Cazuza anuncia a sua carreira-solo. Neste período lançaram três discos, fizeram um concerto antológico na primeira edição do Rock in Rio (1985) e uma de suas músicas –
Bete Balanço – foi o tema principal do filme de mesmo nome. Em atividade até os dias
de hoje, o Barão Vermelho já lançou quinze discos oficiais e segue até hoje como uma das principais referências do rock nacional34
Também no Rio de Janeiro, formado no final da década de 1970, surgiu o grupo Os
Paralamas do Sucesso. Com o primeiro disco alavancado pela canção Vital e sua Moto,
o grupo foi chamado para uma apresentação no primeiro Rock in Rio (1985) que também entrou para o rol dos grandes acontecimentos do imaginário roqueiro do Brasil. O grupo teve grande penetração no mercado latino na década seguinte, sobretudo a vizinha Argentina, feito raro entre as bandas do Brasil, movido pela mescla entre sonoridades brasileiras e caribenhas intensificadas a partir do disco Selvagem? (1986).
34 Mesmo após um acidente de ultraleve que vitimou a esposa e quase tirou a vida do vocalista Herbert
Viana, que ficou fadado a uma cadeira de rodas, os Paralamas prosseguiram a carreira num dos recomeços mais comoventes da história da música brasileira. O grupo continua em plenas atividades.
78
Em meados de 1982 foi formado o grupo que, para muitos, conseguiu construir a combinação mais forte entre sucesso comercial e a construção de um público cativo35. A
Legião Urbana, enquanto trio, com a sua formação estabilizada em torno de seu
carismático vocalista e letrista, Renato Russo, o baterista Marcelo Bonfá e o guitarrista Dado Villa-Lobos, lançaria álbuns que entraram para a história do rock brasileiro. A Legião Urbana é advinda do punk de Brasília do final dos anos de 1970, contexto efervescente de onde surgiriam outros nomes que construíram trajetórias longevas no
rock brasileiro como Capital Inicial e Plebe Rude. O grupo Aborto Elétrico, principal
expoente do punk de Brasília, era composto por membros que integrariam posteriormente as principais bandas daquele contexto. Suas músicas foram registradas por grupos de grande sucesso como Capital Inicial, Paralamas do Sucesso e Legião Urbana36.
No início de 1985, dentro da onda da música jovem cada vez mais sedimentada, ocorreu um dos grandes divisores de águas na história da indústria cultural brasileira, e uma das maiores empreitadas da história do show business mundial. Com a ideia de fazer o maior festival de música do mundo no Brasil, país que, até então, não estava no mapa dos grandes concertos, o empresário Roberto Medina organizou, entre os dias 11 a 20 de janeiro, a primeira edição do Rock in Rio. Com a estrutura montada numa área de 250 mil metros quadrados, contando com 29 atrações37 e com um público estimado de 1,38 milhões de pessoas nas dez noites de concertos, esta edição se consagrou como uma das maiores da história em termos de estrutura, duração e público (Alexandre, 2002: 190;
35Com a formação clássica estabilizada em torno de Renato Russo, Marcelo Bonfá, Dado Villa-Lobos e
Renato Rocha, a Legião Urbana gravou o seu primeiro LP homônimo em 1985 já com grandes hits como Será, Geração Coca-Cola e Ainda é Cedo.A revista Bizz, mais antiga publicação do jornalismo musical brasileiro, elegeu a Legião Urbana como melhor grupo e Renato Russo como o melhor cantor daquele ano de 1985. Do ponto de vista comercial, o mais bem-sucedido foi o famoso As Quatro Estações (1989), com cerca de dois milhões de cópias vendidas apenas no ano de lançamento. O grupo seguiria produzindo novos trabalhos com regularidade até a morte de Renato Russo, no final de 1996, em decorrência de complicações advindas da AIDS. No total, foram sete álbuns lançados com Renato Russo ainda vivo e uma série de lançamentos póstumos, entre discos de estúdio, compilações e registros ao vivo. Renato lançou também, em carreira-solo, dois álbuns.
36 Fátima e Veraneio Vascaína (Capital Inicial); Química (Paralamas do Sucesso). Boa parte do terceiro
álbum do grupo é composto por canções do período do Aborto Elétrico. Em 2005, o grupo Capital Inicial registrou um álbum composto apenas com canções do grupo.
37 Dentre as atrações internacionais estavam nomes como Whitesnake, Iron Maiden, Queen, James
79
Alzer & Claudino, 2004: 134; Essinger, 2008: 59). No festival ,se apresentaram, além de artistas consagrados da MPB e veteranos roqueiros nacionais como Ney Matogrosso, Erasmo Carlos, Rita Lee, Baby Consuelo & Pepeu Gomes, nomes recém-lançados do
rock brasileiro como os Paralamas do Sucesso, Kid Abelha & os Abóboras Selvagens, Barão Vermelho, Lulu Santos, Blitz e Eduardo Dusek (Alzer & Claudino, 2004: 134).
Este último fator serviu para impulsionar ainda mais a produção roqueira nacional. “Tudo mudou depois do Rock in Rio, o festival que parou o país de 11 a 20 de janeiro de 1985 para colocar o Brasil na rota dos shows internacionais, apresentar um imenso público jovem à nação e elevar o pop brasileiro a outro nível de profissionalismo” (Alexandre, 2002: 190). Assim, com as condições estruturais necessárias para o pleno desenvolvimento – o fim do regime militar e um circuito de concertos estruturados, agora referência mundial – o rock brasileiro, na metade da década de 1980, chega finalmente no seu auge.
O incremento do profissionalismo da imprensa especializada em música, além da sedimentação do heavy metal no Brasil, antes, um ilustre gigante e desconhecido (Alexandre, 2002: 199-202), foram outros fatores bastante impulsionados pelo Rock in
Rio. O modelo do festival foi exportado e segue até os dias de hoje como um dos maiores
eventos de entretenimento do mundo, com versões já consolidadas em Lisboa, Madri e Las Vegas.
O ponto máximo, pelo menos no que diz respeito à venda de discos, viria já no ano seguinte ao Rock in Rio, com o lançamento do álbum Rádio Pirata ao Vivo, do grupo RPM. Sucessor de Revoluções por Minuto (1985), atingiu a impressionante marca de 2,2 milhões de cópias, cravando lugar na história da indústria fonográfica nacional como o álbum mais vendido até aquela altura (Alexandre, 2002: 252). O showRádio
Pirata, que deu origem ao álbum, foi um dos maiores indicativos do nível de
profissionalização a que havia chegado o rock brasileiro. Com a direção de palco nas mãos de Ney Matogrosso, e conduzido por Manoel Poladian, que já havia empresariado Roberto Carlos, o grupo saiu em turnê com um aparato técnico e um staff jamais visto na história do rock nacional, um concerto “(…) para teatros, com roteiro, efeitos de luz,
80
ambiências e climas, como nenhum grupo de rock fizera até então” (Alexandre, 2002: 229). Após todo este sucesso, o grupo ainda lançaria o disco Quatro Coiotes, sem a repercussão dos dois trabalhos anteriores, até anunciar a separação oficial. Entre términos e recomeços, atualmente, o RPM mantém uma constante agenda de shows pelo Brasil.
Na medida em que o rock nacional experimenta viabilidade econômica, começam a surgir vários selos especializados, seja a partir da estrutura das grandes gravadoras (por exemplo, o selo Plug, da gravadora RCA/Ariola), seja no segmento independente (o selo
Baratos Afins, existente até hoje, é um dos mais representativos deste grupo) (Alzer &
Claudino, 2004: 138)38. Prova da vitalidade do rock brasileiro já na primeira metade dos anos de 1980 é o conjunto extenso de instâncias de divulgação e legitimação associadas a este segmento no âmbito da TV39 , com destaque especial para as trilhas sonoras de novelas de grande sucesso40, assim como o rádio41, cinema42 e mídia
38 Estes selos divulgaram, a partir de algumas compilações clássicas, os novos artistas das cenas regionais
roqueiras do país. O Baratos Afins, por exemplo, lançou Não São Paulo (1985/1987) (volumes 1 e 2), com a safra pós-punk da cidade. Os grupos que compuseram os dois volumes da compilação foram Akira S e as Garotas que Erraram, Muzak, Chance, Ness, Nau, Gueto, 365 e Vultos. Nenhum destes grupos, no entanto, superou a barreira do underground. Já o selo Plug lançou o lendário disco Rock Grande do Sul (1985) no intuito de promover a efervescente cena roqueira de Porto Alegre. Participaram do lançamento os grupos Engenheiros do Hawaii, Os Replicantes, TNT e Garotos da Rua. Os Engenheiros do Hawaii foram o grupo do cenário gaúcho mais bem-sucedido comercialmente, totalizando dezoito lançamentos entre álbuns de estúdio e ao vivo.
39 Dentre a grande variedade de programas musicais na grade da programação de TV, muitos garantiram
espaço para o rock nacional como os lendários Cassino do Chacrinha (TV Globo) e Perdidos na Noite (TV