Chapitre 3 : Structure des tubes de Ge-imogolites
3.4 Structure locale des tubes
É interessante notar mais uma curiosidade sobre a cena da saída da escola, a única em que Maluquinho explicitamente compra algo: o dono da banca é interpretado por ninguém menos que Tarcisio Vidigal, que fez assim uma pequena e reveladora ponta no filme (ver fig. 10). O produtor acaba identificado, a ssim, com aquele comerciante que vende gibis, revistas, jornais, produtos da indústria cultural enfim, e que concilia os desejos da criança e de sua mãe. Ele comercializa criações de autores e, ao vender Pererê a Maluquinho e sua mãe, assume a função de contribuir para fazer chegar ao público obras de Ziraldo. Curioso que, hoje, Vidigal trabalha para transformar a Turma do Pererê numa franquia, tendo inclusive envidado esforços para o lançamento de uma caixa com a republicação de algumas coletâneas em 2010, em comemoração aos 50 anos da primeira edição.
Em entrevista no ano de 1998, antes do lançamento de Maluquinho 2, Tarcisio Vidigal viu a oportunidade para que um personagem brasileiro concorresse com os estrangeiros no mercado de entretenimento nacional, indicando o seu desejo de construir um produto longevo, que contasse com muitas sequências.
Eu acho que o mercado de consumo de entretenimento precisa de um personagem brasileiro. Nós temos o mercado dominado por produtos estrangeiros, produtos americanos, principalmente. O único que tem uma trajetória industrial competindo com os personagens americanos é a Mônica. Mas eu acredito que tem espaço para um outro tipo de personagem e o Maluquinho pode ser esse personagem nos próximos anos. Com trabalho, com planejamento, a gente pode conquistar o mercado que está aí. (REAL, 1998, p.3)
56 O art. 3o. da Lei do Audiovisual ( Lei Federal no. 8.685/1993) permite que uma empresa distribuidora invista em produção cinematográfica brasileira uma parte do imposto sobre as remessas de lucros para o exterior. 57 Depoimento à autora.
Figura 10 – Tarcisio Vidigal em Maluquinho 1
Fig 10 - Tarcisio Vidigal faz uma ponta como o dono da banca de jornal que vende a Maluquinho Pererê, um gibi de autoria de Ziraldo. Vários gibis de autores estrangeiros como Tarzan e Superman ficaram esquecidos na prateleira ao fundo. Já Pererê, Veja, Enciclopédia Abril e Estado de Minas, produtos dos patrocinadores do filme, ficam à frente.
O produtor e Ziraldo tentaram viabilizar outros produtos baseados no personagem após o bom desempenho do primeiro filme. No entanto, percebe-se a dificuldade e a lentidão na viabilização dos projetos. O largo tempo de intervalo entre o lançamento de um produto e outro é prejudicial para uma franquia do ponto de vista comercial, pois ela perde um momento de exposição na mídia e não aproveita a publicidade do filme. Esse intervalo é problemático especialmente no caso das franquias que têm como alvo o público infantil, pois muitas das crianças que assistiram ao primeiro filme crescem e podem, num relativamente curto espaço de tempo, deixar de se identificar com o personagem. A franquia tem uma probabilidade maior, portanto, de perder parte do público a que agradou. E não só o público. Se o filme é live-action, pode perder os atores mirins, que crescem. Ou as obras acompanham o crescimento de seu público e do personagem, como ocorreu com a série Harry Potter.
Quase um ano após o lançamento do primeiro filme, em 1996, foi colocado à venda um CD musical pela PolyGram intitulado A festa do Menino maluquinho – o disco. Composto quase completamente por Antonio Pinto, o CD chama a atenção por não ser exatamente a comercialização da trilha sonora do filme, uma vez que, de 13 faixas, apenas 3 constavam na película: as canções “A valsa do tempo” (a canção do sonho) e “O menino maluquinho” (a música-tema do filme) e “Macaquinhos no sótão”, música instrumental do filme que foi
A festa promove, reunindo os temas das músicas, um encontro entre personagens
amigos de Maluquinho: alguns dos títulos das canções são “Julieta”, “Shirley Valéria”, o “Rap do Lúcio”, o “Pum de Bocão” e “Voa, vovô”. Da mesma forma, a coletânea reúne também nessa “festa” vários intérpretes conhecidos da indústria fonográfica brasileira, numa eclética mistura de ídolos e ex-ídolos do público infantil e artistas mais ligados à MPB. Uma das cantoras com maior participação no disco, além de Antonio Pinto, é Patrícia Marx, ex- integrante do grupo musical Trem da Alegria, que lançou discos infantis na década de 1980. Nomes mais atuais e mercadológicos que foram evitados no filme, como Sandy e Júnior, também gravaram uma faixa. Paulo Ricardo e Herbert Vianna tinham apelo a um público mais juvenil, ou de jovens adultos. Guilherme Arantes, Milton Nascimento, Paula Morelembaum atrairiam um público mais maduro e/ou afeito à MPB.
Antônio Pinto e Patrícia Marx chegaram a participar de alguns programas de televisão infantis para promover o disco, como o Xou da Xuxa. Porém, segundo Tarcisio Vidigal, com pouco dinheiro para o lançamento do disco, as vendas não foram boas.
Outro produto que tentaram derivar do filme foi uma série para televisão, que se aproveitaria do carisma do elenco do filme. O então diretor artístico da Rede Manchete, Walter Avancini, teve planos de fazer uma minissérie. De acordo com ele, “Essa ideia veio a minha cabeça por causa da repercussão do filme. O livro também voltou a ser muito cobiçado” (INFÂNCIA..., 1996, p. 13). Essa ainda seria uma maneira de retratar Minas Gerais e sair do eixo Rio-São Paulo, dominante na ficção televisiva brasileira. No entanto, a série, que teria roteiro de Ziraldo, não chegou a ser realizada.
Os produtos que surgiram do filme foram de fato poucos, ainda mais se comparados aos que derivam do filme-família. Logo após o Maluquinho 1, foram lançados quatro produtos licenciados com a marca (BARROS, 1995, p. 2). Ziraldo teve o projeto de lançar mais 4 gibis de Maluquinho, sem sucesso, e o personagem ganhou uma história interativa em disquete, o Kit do cientista Maluquinho, lançado pela patrocinadora Abril Jovem.
A própria natureza do combinado entre Tarcisio e Ziraldo não incentivava o produtor a pensar em outros produtos vinculados ao filme, a não ser os que estivessem mais na sua seara de atuação, como o CD, o programa de TV, os filmes e os vídeos. Tarcisio havia comprado os direitos do livro para fazer o filme. Entretanto, não receberia mais por outros tipos de negócios eventuais. É verdade que o filme deu um pequeno fôlego à franquia do personagem,
com o Menino maluquinho encarnado em Samuel Costa, ator do filme. O produtor até poderia receber, todavia, não teve nenhum ganho com o uso comercial do personagem cinematográfico na propaganda, dada sua relação de amizade com Ziraldo.
Se a onipresença dos produtos de franquias hollywoodianas e a grande narrativa que constroem é, segundo Ndalianis (2004, p. 55), uma alegoria do poder dos grandes conglomerados que concentram ramos diferentes da indústria cultural, a lentidão e desconexão da franquia de mídia de Menino maluquinho é um pouco a imagem da fragilidade da produção cinematográfica independente no Brasil. Isso implica que não é só pelo conceito de Ziraldo e de Ratton em restringir a comercialização do personagem que a franquia tem a imagem de “anticonsumo”. É também pela dificuldade de produzir e difundir adequadamente os produtos dessa franquia, como veremos acontecer também no caso de Menino maluquinho
2.