Chapitre 1 : Nanotubes inorganiques et imogolites
1.6 Applications des imogolites et allophanes
O cinema infantil parece contar com algumas convenções estilísticas para ser reconhecido como tal, que têm origem muitas vezes em outros meios, como o teatro ou a literatura. Embora não haja uma receita ou uma lista obrigatória de itens, alguns são muito recorrentes. Algumas estratégias comuns já foram mencionadas, mas neste item nos concentraremos em questões mais ligadas ao estilo, muitas vezes não tão relacionadas à transmissão de informações da fábula.
Há uma organização clara de elementos dos cenários e figurinos em ambos os filmes. No caso do primeiro, é adotada a paleta de cores do livro de Ziraldo: amarelo, vermelho e azul escuro intensos. A organização de cores se verifica nas casinhas da rua, nas roupas dos personagens, em paredes pintadas. O filme traz uma referência estética forte – a das histórias em quadrinhos. Os cenários, em geral, apresentam traços simples, lembrando a economia das HQ's. Há alguns objetos e caracterizações bem estilizadas, como a peruca da mãe de Maluquinho, os óculos de Junin, o carro do pai, a mãe de Bocão (com bóbis no cabelo e creme no rosto), o rabo de cavalo sempre impecável de Irene. Ainda é comum a composição de uma figura recortada do fundo, um fundo “plano” ou chapado, com muito pouca sombra. Um exemplo marcante é o momento em que Shirley Valéria passeia com seu cãozinho em frente de um muro pintado de azul, com estrelas.
O fotógrafo José Tadeu Ribeiro afirma no material de divulgação à imprensa: “usei um filtrozinho - soft net – que abrandou o realismo sem quebrar o profundo das cores, o tom quente das cores. Eu queria entrar na fantasia, sem ser aquela magia excessiva, sem exageros.” (MENINO..., 1995, p. 14). Softnet é um filtro que difunde levemente a luz, suavizando detalhes como rugas, pintas, texturas finas, sem deixar perder o foco ou o
a sensação de desenho que o filme transmite. O resultado é um realismo com pequeno toque de fantasia.
Menino maluquinho 2 já bebe de outra fonte também bem conhecida do público. Sua
estética lembra os filmes de aventura e ação para o público familiar do cinema dominante, como Os Goonies, E.T. e Indiana Jones. Iluminação com sombras mais marcadas, apresentando uma fonte principal mais forte sobre os rostos, colaboram com o suspense que a fita pretende produzir. As cores se apresentam mais foscas, o uso do amarelo e do vermelho são bem dosados, geralmente reservados para o protagonista; predominam no filme tons acastanhados e o azul escuro. Os cenários têm mais volume e são grandiosos: a caverna, as grandes casas da cidadezinha, a igreja, as traquitanas estranhas inventadas por Tonico que povoam sua sala e oficina. O enquadramento busca ângulos um pouco inusitados, uma certa sofisticação da imagem.
A composição de efeitos especiais pode ainda ser apontada como uma recorrência no filão. No segundo filme, efeitos especiais associados ao fogo são concretizados em Tatá Mirim e na explosão do paiol de fogos de artifício, lembrando mais uma vez os filmes de ação. No primeiro filme, o relógio e o pêndulo gigantes são destaques, rememorando as locações fantásticas de musicais.
Como já comentado, alguns personagens do segundo filme apresentam também traços caricaturados. No entanto, os traços não se restringem a acessórios, como perucas e óculos do primeiro filme. Eles são características essenciais de alguns personagens, como de Tatá Miguel (que tem bigode, cabelo e roupas laranja e age de forma um tanto animal), do prefeito Costa e de sua esposa, de seu Zé e das duas beatas. A estilização desses personagens chega ao ponto máximo quando os três últimos se encontram na frente da igreja. O que vemos nesse encontro são na verdade suas sombras, esticadas e bem demarcadas, no muro – uma alusão ao teatro de sombras. Em movimentos bem ensaiados, conversam e cochicham, arqueando o corpo e gesticulando bastante.
A polarização entre personagens “do bem” e “do mal” existe de forma sutil em ambos os filmes. De qualquer maneira, ela é muito mais fraca que a polarização comum em diversas tramas de filmes infantis (conforme notaram Bazin (1949) e Wojcik-Andrews (2000)). No primeiro filme, Quincas vira uma espécie de inimigo após cair no truque das crianças. Ele veste roupas pretas, jaqueta de couro, e costuma usar óculos escuros. No segundo filme, os
quer acabar com a festa. Ele está reclamando constantemente, quase sempre sentado à poltrona. Sua esposa senta-se frequentemente em outro aposento, a casa é cheia de animais empalhados e há poucos movimentos de câmera em sua casa, ao contrário do que acontece na casa de Tonico. Ou seja, a casa de Costa é um lugar de pouca vida e pouco movimento – enfim, de pouca alegria. Um contraste claro com a casa de Tonico e Iaiá, que sempre recebem visitas e são carinhosos um com o outro.
Aliada à questão do overacting anteriormente comentada, em ambos os filmes, a voz dos personagens parece possuir uma modulação peculiar. As crianças costumam ter um tom agudo e animado, marcando bem as variações. É o caso de Nina, quando negocia frutas roubadas com Bocão e estranha o acordo a que chegaram: “sete mangas - e meia? Com caroço ou sem caroço?” Irene e a mãe de Maluquinho, muitas vezes, falam de forma bem aveludada, carinhosas ao extremo. No segundo filme, seu Zé fala sempre resmungando, assumindo um estilo de dicção um pouco gutural. As beatas falam em agudo contido e, algumas vezes, sussurrado. Iaiá, em tom frágil e um pouco fanho. A voz é assim, de certa maneira, estilizada também, artifício a que contadores de história e atores de peças infantis muitas vezes recorrem. Essa característica foi criticada por Bravo (2000), descontente com o extremo esquematismo sonoro do qual muitos filmes infantis sofrem: neles, são usados tipos de vozes clichês para personagens como o vilão, a mocinha, o herói... Isso ocorre um pouco nos filmes, principalmente, como vimos, no segundo. Entretanto, mesmo padecendo um pouco de esquematismo, o filme busca apresentar um trabalho mais refinado e diferenciado na caracterização vocal. Busca fugir de alguns clichês – Iaiá, por exemplo, não fala como uma mocinha, sua voz é esganiçada, e o vilão Costa não tem uma voz gutural.
Com relação à estruturação dos diálogos, podemos observar algumas construções rítmicas que lembram jograis, um certo paralelismo. Tonico e Pedro Fogueteiro, à mesa, dividem falas sobre a festa e os fogos de artifício. Maluquinho e seu pai também têm textos semelhantes, como quando estão na enfermaria – o menino começa dizendo que “no meio do caminho, tinha uma árvore”, e o pai termina, completando a alusão drummondiana. Além do efeito estético dessa organização, ela evidencia ainda a afinidade existente entre os personagens.
Com relação à banda sonora de filmes infantis, destacamos já os efeitos engraçadinhos. Jullier e Marie denominaram esse tipo de recurso de “efeito-circo”:
destaca o que se passa, ou quando a voz comenta os acontecimentos e os objetos apenas à medida que aparecem, é legítimo falar de efeito circo. A orquestra do circo tradicional toca em função do que se desenrola no picadeiro: se uma pomba demora a sair da cartola, se um palhaço derrubado por uma torta demora a se levantar, com um gesto o maestro fará executar alguns compassos da capo. O efeito circo é particularmente sensível com uma música que constitui um correspondente perfeitamente sincrônico a um gesto – o que se chama de mickeymousing, por causa dos desenhos animados ávidos por esse efeito. É o soco pontuado por uma batida de címbalo, a escorregadela acompanhada por um glissando do trombone, etc. (JULLIER; MARIE, 2009, p. 55)
Trata-se de uma estratégia que frequentemente visa o humor. Ela também enfatiza o movimento da imagem. Em Maluquinho 2, o uso do efeito-circo não se circunscreve a “sons engraçadinhos”. A trilha musical acaba acompanhando alguns movimentos em
mickeymousing. A inserção desses sons pode apresentar o tom que a narração confere à ação,
podendo conotar a reprovação de uma atitude, por exemplo, ou a ridicularização do modo de andar de Seu Zé. Em alguns filmes infantis, a atitude de julgamento da narração tem a tendência de transparecer bastante.
Os filmes ainda propõem toques de fantasia pela sincronia não-realista entre imagem e som. Para chamar o menino e seu amigo Bocão para o almoço, a mãe pega uma pequena corneta de plástico na sala. A imagem mostra-a levando a corneta à boca, balançando levemente a cabeça e piscando os olhos: ela está tocando. O que ouvimos, no entanto, não é o som característico de uma corneta de plástico, mas uma corneta profissional que executa um toque clichê de chamada de soldados em quartel militar. Por um momento, com o dedo indicador, a mãe dedilha um pistão imaginário, acompanhando as variações da música. Em outro plano, Maluquinho, deitado no chão de seu quarto com Bocão, escuta a chamada da corneta (agora um som off), levanta-se rapidamente e exclama: “Oba, hora do rancho!”, utilizando um termo militar para a refeição.
O som adquire uma ambiguidade. Sua fonte é visível na imagem, mas o som não é realista. Como música que quebra o naturalismo, que fica entre o mundo diegético e o não- diegético, ela chama a atenção para artimanhas da narração. Ela adiciona um aspecto lúdico ao filme, semelhante ao tipo de escuta subjetiva que construiu para seu personagem.
No segundo filme, sons fantásticos também ocorrem com as estátuas de cães em metal que Costa tem em sua casa e em seu carro: elas latem. Semelhante construção, mas com funções mais expressivas, se dá no primeiro filme quando Nina abre a boca para que os meninos a incluam na guerra de almofadas: o som que ouvimos é um rugido de leão.
do balão e em outras, uma melodia de piano que lembra uma caixinha de música de ritmo mais rápido. A valsa, presente no sonho do menino, é também frequente em filmes infantis, marcante em cenas de dança das princesas da Disney. As melodias são singelas e alegres.
Maluquinho 2 já parte para uma música mais orquestrada e de composição um pouco mais
sofisticada, que trabalha com tensões - mais uma vez mais afeita aos filmes de aventura.