C HAPITRE IV S YNTHESE DES
II. Stratégie de synthèse convergente
Os seres humanos enfrentam um dilema. Vivem em contínua trans- formação. Tal realidade afeta os seus corpos, os seus cérebros e mentes, as suas relações com o ambiente em que se movem e, sobretudo, as re- lações que estabelecem com outros membros da sua própria espécie. Claro que esta condição de ininterrupta alteração abrange todos os seres vivos, incluindo os primatas, os nossos parentes mais próximos. De facto, podemos mesmo dizer que é este processo de transformação que permite às espécies persistirem ao longo do tempo.
Contudo, a transformabilidade inerente à própria vida não cria quais- quer problemas às criaturas não-humanas, ao invés do que se passa con- nosco. A contínua transformação é, para todas as criaturas vivas, um facto inescapável da vida; porém, para os humanos, existe uma condicionante social que lhes exige a negação desta fluidez permanente. Os seres hu- manos criam sistemas sociais que parecem transcender o tempo e adqui- rir uma aparência de estabilidade. Estas típicas negações da mudança só podem existir numa forma obscura e a nível da imaginação, já que a rea- lidade nua e crua é que nos é impossível negar a natureza orgânica que é a nossa. Porém, isso não nos impede de tentar. Estes sistemas imaginá- rios de estase de entes nem humanos nem não-humanos tornam-se mais óbvios quando temos em conta aquilo a que os funcionalistas estruturais chamaram grupos corporativos. Estes grupos podem ser clãs, nações, ou outros, que mantêm existência para lá da vida orgânica e das inconstantes ações dos seus membros. O conceito, como o termo legal «corporação» sugere, evoca quase corpos imaginários que não podem mais do que es- tabelecer relações indiretas com os corpos biológicos e mutáveis das pes-
soas envolvidas na sua constituição. E é assim que um clã pode afirmar algo como «nós (note-se o substantivo) viemos para este vale há trezentos anos e aqui vivemos desde essa altura, e continuaremos a fazê-lo para sempre» (note-se o uso do verbo «viver»).
O mesmo carácter de negação do tempo fenomenológico, e portanto da afirmação da transcendência da vida, ocorre em relação àquilo a que os cientistas sociais chamam papéis. Vejamos um exemplo simples: a re- ciprocidade dos papéis entre um pai e uma filha. Estas relações parecem existir independentemente, ou mesmo apesar da constantemente alterada relação empírica que existe entre os dois indivíduos que desempenham esses papéis. Um pai pode nunca ver a filha, pode até nem saber se ela está viva ou morta, mas os laços que os unem são, de alguma forma, con- siderados como «existentes» entre os dois, e imunes a qualquer transfor- mação.
Designei como «transacional» a nossa consciência desta transformação contínua, desta impermanência e fluidez, e como «transcendental» o sis- tema imaginário que nega o tempo e que engloba papéis e grupos cor- porativos. Dado que o transcendental só pode existir na imaginação, esta tem de ser partilhada, na medida em que organiza uma série de impor- tantes coordenações entre os membros de um sistema social. A capaci- dade de criar tais sistemas imaginários é, creio bem, um dado da nossa predisposição genética herdada, embora, evidentemente, a existência desta não seja suficiente para explicar as formas específicas que assume neste ou naquele lugar, neste ou naquele tempo, não mais do que a nossa predisposição específica para a linguagem é capaz de explicar porque fa- lamos uma dada língua em particular. E sobretudo não explica de que forma o transcendental acaba por ser partilhado.
A capacidade humana para criar sistemas com estas características tem um enorme significado social, e explica muito provavelmente porque é que, entre todas as espécies de animais sociais, são os humanos os únicos capazes de estabelecer sociedades com tão vasta escala que dão, além do mais, a ideia de que perduram no tempo. Comparemos a sociedade hu- mana com o carácter social dos nossos primos não-humanos mais pró- ximos: os chimpanzés. Estes possuem sistemas sociais complexos, mas sem carácter de transcendência. A organização social dos chimpanzés é um produto da natureza das transações que ocorrem entre indivíduos em determinados momentos e manifesta-se apenas em termos de fatores como alianças e estrutura de poder. Um chimpanzé dominante mantém essa posição graças a uma permanente manipulação das relações que es- tabelece com outros animais e à sua força física. No instante em que ele
Movimentos, Espíritos e Rituais
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ou ela perdem o pé no inconstante jogo do poder, deixa de ser um animal dominante. Assim, a sociedade dos chimpanzés reduz-se ao estado das transações no seio do grupo em cada instante particular. Está em cons- tante transformação, tal e qual como os corpos dos seus membros. Um lado da sociedade humana é similar, fluindo e alterando-se, mas temos também o transcendental, e essa fração existe, até certo ponto, para lá dos momentos fátuos, na forma de grupos e de papéis.
Como já deixei vincado, o sistema transcendental tem de ser do do- mínio do imaginário, já que se encontra em contradição clara com o facto da transformação contínua, mas para que esta imaginação seja par- tilhada e coordenada deve possuir, ao menos durante algum tempo, uma fundação empírica que permita essa partilha. Para que essa base seja uma realidade, o transcendental recorre a vários recursos. Dois deles salien- tam-se. Um é o ritual, o outro, a cultura material.
Não pretendo nesta ocasião alongar-me acerca de rituais, exceto para fazer notar que estes envolvem ações que parecem tornar irrelevante a intencionalidade individual, na medida em que num ritual o que é fun- damental é seguir outros em quem se confia. Criam-se assim imagens e estados que parecem transcender o meramente transacional, o qual, para ter significado, tem de depender das intenções individuais no momento em que ocorre a ação.
O elemento material que oferece um apoio à imaginação de grupos e papéis funciona de outra forma. Objetifica entidades imaginárias como os grupos corporativos ou os papéis. Coisas materiais inanimadas, tais como máscaras, uniformes, coroas, templos, estátuas, bandeiras, cum- prem esse papel de forma óbvia. O carácter não transformativo dos seus constituintes pode servir para demonstrar o carácter antiorgânico ou não- -orgânico dos seus referentes.
A instanciação do transcendental pelo inorgânico serve bem o propó- sito da manutenção de um sistema que é uma negação da fluidez da vida orgânica e das relações sociais, e que transcende o tempo