Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Estudos Linguísticos da Universidade Federal de Uberlândia. ORIENTADOR
Prof. Dr. Guilherme Fromm
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No início de seu trabalho, Jones trabalha com a ideia de uma língua hipotética que teria precedido o sânscrito, o grego e o latim. Lançam-se, então, as bases da Linguística comparativa, na qual as estruturas semelhantes das línguas são consideradas (principalmente morfologia e léxico), e as bases dos paradigmas da Linguística Histórica são lançadas. Alguns linguistas tentam refutá-lo e afirmam que as marcas morfológicas podem ser marcas de empréstimo, apesar de não ter como excluir o léxico dessa possibilidade, por ser mais suscetível a ele. A exploração sistemática das implicações de hipóteses de uma língua ancestral em comum, a qual talvez não exista mais, é o que diferencia a pesquisa linguística do séc. XIX das pesquisas amadoras do século anterior.
A influência de Darwin na Linguística se deu pelo fato de que o cientista, representante das Ciências Naturais, concebe a língua como um organismo vivo, que nasce, cresce e morre segundo leis físicas. Darwin foi inspirado pelos trabalhos sobre a história da linguagem da gramática grega clássica. Em contrapartida, ele inspirou os linguistas para que vissem a língua como um organismo vivo, assim como os animais e plantas. Essa perspectiva ficou clara em Schleicher, Bopp e Pott, e a tendência à inserção da teoria linguística no interior da teoria evolucionista dos seres vivos contaminou as abordagens sobre a língua, reivindicando para ela o mesmo estatuto evolucionista determinado às espécies vivas.
Schleicher (apud Weedwood, 2002, p. 94) escreveu o panfleto O darwinismo testado pela ciência da linguagem, no qual tratava da relação do darwinismo e o estudo das línguas,
O que Darwin agora defende acerca da variação das espécies no curso do tempo [...] tem sido há muito tempo e em geral reconhecido em sua aplicação aos organismos da fala [...] . Traçar o desenvolvimento de novas formas com base em formas anteriores é muito mais fácil, e pode ser realizado em escala bem maior no campo da língua do que nos organismos de plantas e animais [...]. O parentesco das diferentes línguas pode servir, por conseguinte, [...] como uma ilustração paradigmática da origem das espécies, para os campos de investigação que carecem, ao menos até o momento, de oportunidades semelhantes de observação.
Essa influência se deu na fonética e na morfologia, submetidas a normas rigorosas e objetivas que permitiram a cientifização da Linguística. Na segunda metade do século XIX, um grupo de universitários germânicos – os neogramáticos –, ainda sob influência do darwinismo (Junggrammatiker), reconhece o caráter histórico dos estudos linguísticos. Sua contribuição foi o princípio da regularidade nas mudanças fonológicas. Segundo os neogramáticos, as tendências gerais de mudança fonética, mecânica e fisiologicamente motivada que as línguas indo-europeias evidenciavam em alguns contextos eram leis linguísticas de natureza absoluta, que ditavam a
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regularidade dessa mudança. Contrária à essa perspectiva, havia a materialista, que concebia a língua como um organismo sobre base material, em oposição àqueles que defendiam que a língua era um organismo sobre base espiritual.
Ao lado dessas leis, que postulavam a essência mecânica de toda a mudança linguística, os neogramáticos reservaram um espaço para a atuação da analogia, que Coutinho (1976, p. 150) definiu como o “princípio pelo qual a linguagem tende a uniformizar-se, reduzindo as formas irregulares e menos frequentes a outras regulares e frequentes”. Segundo Dubois et al. (2006, p. 52), a analogia
designou, entre os gramáticos gregos, o caráter de regularidade atribuído à língua. Nessa perspectiva destacou-se, por exemplo, um certo número de modelos de declinação, tendo sido também classificadas as palavras segundo estivessem ou não conforme um desses modelos. A analogia fundou assim a regularidade da língua. Serviu, por conseguinte, para a explicação da mutação genética, sendo, por tal fato, oposta à norma... a analogia desempenha, portanto, um papel importante na evolução das línguas, e os neogramáticos a utilizaram para relacionar exceções às suas leis fonéticas.
Esse fenômeno linguístico funcionava como um mecanismo de fuga ao princípio da regularidade, uma vez que as várias formas de um paradigma tendiam a agir analogicamente umas sobre as outras, permitindo justificar a disposição excepcional de certos padrões flexionais. No contexto intelectual e cultural vigente, os neogramáticos procuraram aplicar métodos científicos de análise à mudança linguística e conseguiram demonstrar que só a linguística Histórica poderia ser verdadeiramente científica. Essa convicção constitui o maior tributo da teoria neogramática para a descrição da evolução dos princípios orientadores da Linguística Histórica. Stricto sensu, a hipótese da regularidade defendida por essa escola de pensamento é ainda hoje sustentável, apesar de seus princípios de mudanças fonológicas terem sido reformulados ou complementados pelas teorias linguísticas subsequentes. A tese lançada pelos neogramáticos de que as leis fonéticas eram absolutamente regulares, apesar de controvertida, já era bastante aceita no século XIX e tornou-se o fundamento do método comparativo. O método comparativo ocupava-se da reconstrução de uma língua ou de seus estágios mais antigos por meio da comparação de palavras e expressões aparentadas em diversas línguas ou dialetos derivados delas.
Ainda segundo Dubois et al (2006, p. 54), anomalia,
Para os gramáticos do séc II a.C., designava o caráter da irregularidade da língua, e, por extensão, qualquer emprego que não podia se explicar fazendo intervir uma regularidade de
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um certo tipo. Fundamentava-se na anomalia na tese dos anomalistas, segundo a qual, numa língua, as exceções eram mais importantes do que as regularidades.
Os filólogos predecessores de Saussure, usando o método histórico-comparativo, buscavam entender o parentesco entre as línguas, e a analogia permitia explicar as semelhanças e correspondências. Ao surgirem as diferenças – as características que fugiam ao padrão da analogia –, eles a justificavam pelo princípio da anomalia, existente nos estudos da linguagem desde os gregos. Contudo, a justificativa da anomalia não esclarecia as quantidades inquietantes de irregularidades, considerando-se que, para os neogramáticos, as regras não eram concebidas com muitas exceções.
Mais tarde, com os estudos fonético-fonológicos do século XX, muitas dessas anomalias foram justificadas e explicadas. Contudo, o método histórico-comparativo contribuiu para seu estabelecimento, ao se confirmar sua validade com os estudos da filologia românica. Esse ramo da Filologia conseguiu resgatar a origem das línguas românicas, remontando-as ao latim, em virtude da grande quantidade de corpora em língua latina que sobrevivera até então.
Considerei esses temas relevantes dentro da área da Linguística pois fazem parte da história dessa ciência e também de sua epistemologia como disciplina. A influência de Darwin para a ciência é algo que não se pode ignorar, pois foi tão grande e revolucionária que até as ciências da linguagem puderam se beneficiar de seu trabalho e de seu espírito inquieto e em constantes buscas de respostas para seus questionamentos.
Darwin contribuiu para o conhecimento científico do século XIX, e sua noção de que os seres e plantas têm início, meio e fim na natureza influenciou a Filologia. Apoiado em seu método de análise do ontem, hoje e possível amanhã, esse cientista influenciou e instiga o surgimento da Linguística Histórica. A concepção de que as línguas tiveram um ontem, têm um hoje e terão um amanhã permitiu o estabelecimento da Filologia Comparativa e o surgimento da Linguística como disciplina. Saussure, aluno de filologia românica e clássica, parte dos pressupostos da Filologia e postula os primórdios da Linguística Sincrônica, focando na língua como um sistema.
Como não é possível construir o hoje sem o ontem, a influência dos gregos quanto aos princípios de analogia e anomalia nos estudos das línguas contribui para o estabelecimento das regras linguísticas, como as de Grimm. Entendida a analogia, os filólogos fundadores da disciplina estabelecem as regras que contribuem para o conhecimento mais profundo das mudanças fonético-fonológicas, sintáticas, lexicais e semânticas das línguas. A anomalia, apesar
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de não ser legitimada a princípio, passa a ser explicada futuramente com os avanços da escola estruturalista, principalmente com a influência do Círculo de Viena.
Hoje, a Etimologia, a Filologia Clássica e Românica e as Linguísticas Histórica e Diacrônica têm um vigor teórico-metodológico com cientificidade reconhecida graças aos méritos dos filólogos e linguistas que nos precederam. Com o advento da Linguística de Corpus, maior robustez tem sido acrescida a essas ciências. Isso se deve ao fato de que o computador propicia uma análise mais rigorosa dos dados e potencializa a quantidade de informação que pode ser processada, em relação ao que conseguíamos pela leitura e análise humana dos corpora. Finalmente, posso ver que os rumos da Linguística Histórica e de todas as ciências da linguagem têm sido retraçados, e estamos vivenciando um novo momento de evolução rumo a um novo perfil e a uma nova metodologia que serão garantidos às Ciências Humanas.
REFERÊNCIAS
COUTINHO, I. de L. Pontos de gramática histórica. 7. ed. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 1976.
DUBOIS, J. et al. Dicionário de linguística. São Pauo: Cultrix, 2006.
FARACO, C. Linguística histórica: uma introdução ao estudo da história das línguas. São Paulo: Ática, 1991.
VIDOS, B. E. Manual de linguística românica. Rio de Janeiro: EDUERJ, 1996.
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