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Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Estudos Linguísticos da Universidade Federal de Uberlândia. ORIENTADOR

Prof. Dr. Guilherme Fromm

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como Fillmore, Berber Sardinha (2004, p. 35) antagoniza essas duas perspectivas da seguinte forma:

Quando se encontram, os dois linguistas se estranham – o de poltrona indaga “porque eu deveria acreditar que o que você me diz é interessante?”, ao que o de corpus retruca “por que eu deveria acreditar que o que você me diz é verdadeiro?”.

Essa comparação bem-humorada revela divergências básicas entre as duas abordagens. A pergunta feita pelo linguista de corpus questiona o fazer do “linguista de poltrona”, cujo trabalho é essencialmente de abstração: “formular hipóteses sobre como deve ser o conhecimento linguístico existente na mente das pessoas” (Kenedy, 2013, p. 16). Dessa forma, não há garantia de que as formulações feitas nessa perspectiva representem como a língua é de fato usada, ou seja, as hipóteses não são validadas com dados, uma vez que o linguista usa a própria intuição enquanto falante de determinada língua. Para o Gerativismo, “Tal como a maior parte dos factos interessantes e importantes, este [conhecimento da língua] não se apresenta à observação directa nem é passível de extracção a partir dos dados através de qualquer tipo conhecido de processos indutivos” (Chomsky, 1978, p. 100).

Desse modo, o que interessa para o gerativista é o conhecimento da língua do falante- ouvinte ideal, e esse conhecimento não pode ser mensurado por meio da observação direta de dados linguísticos. Por isso, o “linguista de poltrona” questiona o de corpus a respeito do interesse e da relevância de seus dados para a formulação de uma teoria linguística. Nesse sentido, Meyer (2004) afirma que, o que é mais importante para o linguista de corpus é uma descrição precisa da língua, enquanto para o gerativista o que mais importa é uma discussão teórica que amplie o nosso conhecimento sobre a gramática universal (GU).

Assim, fica claro que as abordagens apresentam perspectivas diferentes em relação à análise da língua, tanto no que concerne à metodologia empregada em cada uma, quanto aos objetivos. Em termos metodológicos, gerativistas utilizam informações provenientes da introspecção a fim de investigar a competência gramatical. Os linguistas de corpus, por sua vez, utilizam dados provenientes dos chamados corpora (coleções de textos criteriosamente compilados e armazenados em arquivos de computador para fins de pesquisa), ou seja, o foco recai no desempenho linguístico dos falantes em situações concretas de uso. Desse modo, enquanto o Gerativismo busca investigar o conhecimento da língua presente na mente das pessoas em termos do que seja teoricamente possível, a LC investiga o que é concretamente provável.

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Desse modo, ambas as abordagens concebem a língua de forma diferente. Chomsky concebe a língua em duas instâncias: língua-I e língua-E. A língua-I remete à dimensão subjetiva da língua, ou seja, como ela está internamente configurada na competência linguística do indivíduo. A língua-E, por sua vez, refere-se à dimensão objetiva da língua, ou seja, como a língua encontra-se fora do indivíduo, sendo, portanto, um reflexo parcial da língua-I em conjunto com as restrições do uso. Nesses termos, podemos dizer que o Gerativismo preocupa-se com a língua-I, e a LC, com a língua-E.

A LC prioriza a observação de dados linguísticos, caracterizando-se dentro de uma abordagem empirista e de uma visão da língua como sistema probabilístico (Berber Sardinha, 2004, p. 30). Dizer que a língua é um sistema probabilístico significa que os traços linguísticos não ocorrem com a mesma frequência, isto é, de modo geral, todas as categorias gramaticais, por exemplo, têm a mesma chance de ocorrerem; porém, observa-se que, dependendo do contexto, da situação comunicativa, dentre outros fatores, certo traço linguístico será mais frequente que outro, o que, por sua vez, não é um fenômeno aleatório. Isso nos leva a dizer que a língua é padronizada, ou seja, é possível observar regularidades de determinados usos linguísticos (colocações, por exemplo) que se repetem significativamente em determinado contexto, caracterizando um padrão léxico-gramatical. Em resumo, a LC, baseada em uma visão empirista da pesquisa científica, focaliza o desempenho linguístico23 por meio da descrição linguística

(Sardinha, 2004).

Em Aspectos da Teoria da Sintaxe, Chomsky (1978) explica os três níveis de adequação com os quais gramáticas e teorias linguísticas devem ser avaliadas: adequação observacional, descritiva e explicativa. A adequação observacional refere-se a uma descrição linguística capaz de explicitar quais frases de determinada língua são bem formadas ou não. Para atingir a adequação descritiva, é preciso antes ter a adequação observacional, além de explicitar as propriedades gramaticais abstratas que fazem com que uma frase seja bem formada ou não. A adequação explicativa, por sua vez, não só fornece uma descrição adequada, mas também explica tal descrição por meio de princípios abstratos que vão além da língua particular sendo descrita, para se tornar parte da gramática universal. Tal nível de adequação pretende explicitar as estruturas subjacentes ou regularidades profundas capazes de gerar as frases da língua. Logo, esse último nível de adequação é o almejado pela Gramática Gerativa. Nesse aspecto, a LC é criticada por priorizar a adequação descritiva.

23 Materialidade linguística passível de observação.

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Apesar das críticas feitas à LC, Meyer (2004) aponta que há alguns estudos gerativistas baseados em corpus, como o de Haegeman (1987). Tal estudo objetivou analisar posições em orações nas quais um elemento (objeto direto) está ausente em receitas culinárias. O que mais diferencia o estudo citado de outros estudos gerativistas é que ele demonstrou que informações sobre a gramática universal podem ser obtidas tanto pela investigação da estrutura de superfície quanto da estrutura profunda (Meyer, 2004, p. 5).

Assim, com poucos estudos gerativistas baseados em corpus, Meyer (2004, p. 5) salienta que ele é mais útil para análises funcionais do que gerativas, justificando o seu posicionamento da seguinte forma:

dada a ênfase da gramática gerativa em investigações da estrutura profunda da língua (principalmente nos trabalhos recentes de Chomsky no minimalismo), corpora provavelmente nunca terão um papel importante na gramática gerativa. Por essa razão,

corpora são melhores utilizados para análises funcionais da língua: análises que objetivam

não só fornecer uma descrição formal da língua, mas descrever o uso da língua como uma ferramenta de comunicação (tradução nossa).24

A Gramática Funcional difere da Gramática Gerativa principalmente por ser “uma teoria da organização gramatical das línguas naturais que procura integrar-se em uma teoria global da interação social” (Neves, 2004, p. 15). Enquanto o Gerativismo descreve a língua tendo em mente um falante-ouvinte ideal, retirado do contexto comunicativo, o Funcionalismo ancora a sua descrição linguística em situações concretas de comunicação. Assim, a Gramática Funcional entende que a gramática sofre pressões do uso, e, por isso, a língua não é um sistema autônomo como concebida pelo Gerativismo.

Meyer (2004), a fim de marcar a diferença entre a perspectiva gerativista e a perspectiva funcionalista, faz uso da análise de frases na voz ativa e na voz passiva. Para demonstrar a relação entre as frases I made mistakes (Eu cometi erros) e Mistakes were made by me (Erros foram cometidos por mim), o gerativista estaria interessado em descrever a estrutura formal das frases em relação à ordem das palavras e as generalizações que determinassem o pertencimento desses casos específicos a uma regularidade profunda da língua. O caso acima faz referência ao movimento do sintagma nominal em inglês, representado como SN [sintagma nominal] – movimento. Uma análise funcionalista das mesmas frases, ainda de acordo com Meyer (2004), focaria no potencial comunicativo das vozes ativas e passivas.

24 No original: “Unfortunately, given the emphasis in generative grammar on investigations of the core of a language (especially as reflected in Chomsky’s recent work in minimalism), corpora will probably never have much of a role in generative grammar. For this reason, corpora are much better suited to functional analyses of language: analyses that are focused not simply on providing a formal description of language but on describing the use of language as a communicative tool” (Meyer, 2004, p. 5).

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Um político envolvido em um escândalo, por exemplo, diria a frase “Erros foram cometidos” em vez de “Eu cometi erros” ou “Erros foram cometidos por mim”, porque a voz passiva sem o agente permite que o político admita o erro ao mesmo tempo em que fuja da responsabilidade por meio da imprecisão de quem o cometeu (Meyer, 2004, p. 6, tradução nossa).25

Com base nesse simples exemplo, ilustramos a seguinte afirmação de Neves (2004, p. 23): “A gramática funcional [...] não confere uma estrutura sintática inequívoca à sentença, e, com certeza, não lhe confere uma estrutura representável por meio de diagramas de árvores, ou de colchetes ou parênteses rotulados”. Porém, isso não significa que o Funcionalismo desconsidera o aspecto formal da língua na análise linguística. Ainda segundo Neves (2004, p. 23),

Na perspectiva funcionalista [...], não se considera que uma descrição da estrutura da sentença seja suficiente para determinar o som e o significado da expressão linguística, entendendo-se que a descrição completa precisa incluir referência ao falante, ao ouvinte e a seus papéis e seu estatuto dentro da situação de interação determinada socioculturalmente.26 Em virtude do foco funcionalista no contexto comunicativo, os corpora configuram-se como recursos valiosos para a análise linguística, uma vez que fornecem contextos reais de usos linguísticos e acrescentam uma dimensão mais pragmática à análise. Nesse sentido, somos da opinião de que,

Apesar de que nem todos os estudos baseados em corpus são explicitamente funcionais [...], todas as pesquisas baseadas em corpus são funcionais no sentido de que elas estão fundamentadas no pressuposto de que a análise linguística será beneficiada se for feita com base no uso real da língua em contextos reais (Meyer, 2004, p. 11, tradução nossa).

Dessa forma, inúmeras pesquisas têm-se beneficiado do uso de corpus nas mais diversas áreas, como Lexicografia, Variação Linguística, Linguística Histórica, Análise Contrastiva e Estudos em Tradução, Processamento de Linguagem Natural, Aquisição de Língua, Ensino de Língua, para mencionar apenas algumas.

25 No original: “A politician embroiled in a scandal, for instance, might choose to utter the agentless passive Mistakes were made rather than I made mistakes or Mistakes were made by me because the agentless passive allows the politician to admit that something went wrong but at the same time to evade responsibility for the wrong-doing by being quite imprecise about exactly who made the mistakes” (Meyer, 2004, p. 6).

26 No original: “Although not all corpus studies are as explicitly functional […], all corpus-based research is functional in the sense that it is grounded in the belief that linguistic analysis will benefit if it is based on real language used in real contexts” (Meyer, 2004, p. 11).

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O presente ensaio teve como objetivo caracterizar a abordagem da LC tendo em vista as suas divergências e convergências com o Gerativismo e o Funcionalismo. Para isso, discutimos alguns aspectos de cada uma das abordagens e traçamos conexões necessárias entre elas. De modo geral, muitos gerativistas negam a LC por verem os corpora apenas como uma fonte de dados para o estudo do desempenho linguístico, e não da competência. Os funcionalistas, por sua vez, beneficiam-se do seu uso ao encontrar nos corpora uma fonte de contextos autênticos de usos da língua.

REFERÊNCIAS

CHOMSKY, N. Preliminares metodológicas. In: ______. Aspectos da teoria da sintaxe. 2. ed. Coimbra: Armênio Amado, 1978, p. 83-146.

FILLMORE, C. J. "Corpus linguistics" or "computer-aided armchair linguistics". In: SVARTVIK, J. (Ed.). Directions in corpus linguistics: proceedings of nobel symposium 82, Stockholm, 4-8, August 1991. Berlin: Mouton de Gruyter, 1992. p. 35-60.

HAEGEMAN, L. Register variation in english: some theoretical observations. Journal of english linguistics, Bellingham, Wash, v. 20, n. 2, p. 230-48, 1987.

HER, S. O.; WAN, I. P. Corpus and the nature of grammar revisited. Concentrics: studies in linguistics, Taiwan, v. 33, n. 1, p. 67-111, jan. 2007.

KENEDY, Eduardo. Curso básico de linguística gerativa. São Paulo: Contexto, 2013.

MEYER, C. F. English corpus linguistics: an introduction. Cambridge: Cambridge University Press, 2004.

NEVES, M. H. M. A gramática funcional. São Paulo: Martins Fontes, 2004. SARDINHA, T. B. Linguística de corpus. São Paulo: Manole, 2004.

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