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Soustraction des hadrons primaires et des hadrons secondaires 126

5.3 Soustraction du bruit de fond

5.3.2 Soustraction des hadrons primaires et des hadrons secondaires 126

Conheci Faysal, um senhor com cerca de 60 anos, desde minha primeira visita ao acampamento montado em frente ao ACNUR, ocorrida em agosto de 2008. Ele foi um dos quatro refugiados que permaneceu em frente à Agência Internacional durante todo o período do protesto, sendo um dos responsáveis pela organização de sua estrutura.

Desde o primeiro momento em que me aproximei, Faysal se apresentou bastante disponível, esforçando-se por falar em inglês comigo. Embora ambos não fôssemos fluentes na língua, conseguíamos trocar informações básicas sobre os acontecimentos do acampamento, os motivos que o levaram a sair de Mogi das Cruzes e seus objetivos com aquele protesto. Com o tempo, em minhas várias visitas ao acampamento, passei a dirigir-me principalmente a sua tenda, sendo recebida com chá preto e até mesmo outras refeições que preparava em seu fogão improvisado. As comidas oferecidas variavam conforme seu poder aquisitivo no momento de minha visita, dado que era, especialmente através da ajuda de algumas pessoas, cujos nomes nunca revelava, que conseguia dinheiro para suas refeições. A situação no acampamento, no entanto, teria variado bastante, havendo períodos (principalmente os primeiros meses) em que apenas se alimentou das mangas que encontrou nas árvores.

A vinda de Faysal a Brasília foi motivada por fatores diversos, os quais eram constantemente retomados quando lhe sugeriam retornar a Mogi das Cruzes. Tendo chegado de Ruwesheid ao Brasil desacompanhado de qualquer familiar, assim que foi recepcionado

pelos funcionários da Cáritas no aeroporto, foi informado de que viveria em um asilo com outros três refugiados idosos. Ao tomar ciência disto, Faysal contestou de forma veemente, dizendo tanto que a informação repassada ainda no campo de refugiados foi a de teria uma casa alugada apenas para ele, quanto que não era um inválido, tendo plenas condições de cuidar de si próprio. Inconformado com a situação, dias depois, chegou a dizer que dormiria na mesquita local, caso não fosse transferido do asilo, o que desencadeou os primeiros desentendimentos com membros da comunidade islâmica de Mogi das Cruzes, que não o queriam dormindo na mesquita, e com os funcionários da Cáritas. Após suas várias reclamações, estes terminaram por alugar uma casa com dois quartos para ele e outro refugiado idoso, conforme havia solicitado.

Com o tempo, no entanto, Faysal ficou insatisfeito com a casa e com os serviços prestados pela Cáritas. A casa, de acordo com ele, estava infestada de ratos, tinha várias rachaduras e não possuía armários nos quais pudesse guardar suas coisas. A compra de um armário apenas teria ocorrido após cinco meses de estadia no local. Ademais, no período em que estava morando na casa, esta foi invadida por um ladrão que levou sua TV, ventilador e ferro de passar. Depois do episódio, ele não teria mais conseguido dormir tranquilo. Outro aspecto por ele ressaltado era o de que a casa ficava numa região de grandes ladeiras, o que tornava seu trânsito pelas proximidades absolutamente difícil, na medida em que tinha vários problemas na coluna. Explicou que havia sido atropelado no campo de refugiados da Jordânia por um carro do próprio ACNUR, não tendo tido tratamento adequado desde então.

Em razão de tal quadro, ele disse ter pedido inúmeras vezes para ser transferido de local, ao que a funcionária da Cáritas respondia que, para isso, teria que pagar três meses adiantados de aluguel para conseguir locar um imóvel. Ademais, diante das demandas referentes ao tratamento dos inúmeros problemas de saúde que possuía, dizia que os funcionários lhe tratavam com desdém, atrasando a entrega de remédios, não comparecendo às consultas ou atendendo a suas demandas. Cansado do referido tratamento, ele teria decidido ir a Brasília requisitar sua saída do país.

José (o representante do ACNUR em Brasília) came (para Mogi das Cruzes) the second time and we told him about the situation and that these people have increased in their oppression and abuse. We want to leave. We have reached a dead end. That’s it, no more. He was trying to talk me out of it, but I said, “That’s it, no more”. The UNHCR is lying-lying is in its foundation; lying is in their blood. There was no result. One month later I came to Brasilia. I took the bus, I got my last salary, and I came to them and I meant to sleep in the street. I read the Fat’ha (o primeiro trecho do corão) and I wish that I would die and become the first martyr. I would be called Brazil’s first martyr. We met them and the meeting lasted until 1:00 a.m. They tried

to soothe us. They told us to go to the hotel and I don’t know what. They are lies, as always. (Faysal, 21/02/10)

Ao vir à Brasília, Faysal se construía como um mártir que simbolicamente oferecia sua própria vida para denunciar os problemas do programa de reassentamento. O idioma por ele utilizado era largamente pautado pela forma como a “palestinidade” vem sendo constituída pelos movimentos políticos palestinos e pela sociedade civil. Segundo Schiocchet (2011), mártir também é uma denominação utilizada para indicar os palestinos que continuamente resistem à ideia de esfacelamento de sua vida e de sua identidade. Resistir, dentro desta perspectiva, estaria relacionado a um conjunto de discursos e práticas que visaria tanto a manutenção da identidade palestina, tendo em vista o risco de assimilação dos palestinos aos países nos quais são reassentados, quanto a uma postura de resiliência diante das situações de opressão nas quais são confrontados. Schiocchet aponta em seus trabalhos (2010 e 2011) que, se tal idioma vem sendo historicamente incorporado pelos movimentos palestinos, tal incorporação varia entre os diversos grupos de refugiados palestinos, conforme seus contextos sócio-históricos.

No caso de Faysal, tal idioma seria continuamente reiterado para se opor a qualquer tratamento por ele entendido como “humilhante” ou degradante por parte dos funcionários, e mesmo para se opor a proposta de programa de reassentamento que lhes estava sendo oferecida. A assunção de tal idioma não deixava de estar relacionada à sua trajetória como “refugiado palestino” ou como um feda’i – combatente em movimentos de resistência. Sua trajetória, brevemente referida no capítulo 1, aponta que ele passou por inúmeros deslocamentos antes de chegar ao Iraque (Gaza, Egito, Arábia Saudita, Líbia e Iraque) seja em decorrência de conflitos, seja pela busca de trabalho, tendo vivido em campos de refugiado e participado brevemente de movimentos de resistência.

Em Brasília, as relações de Faysal com os funcionários da agência internacional seriam, desde os primeiros momentos, marcadas por uma forte tensão. Com efeito, ele relataria inúmeras situações que o levaria, em alguns momentos, a decidir romper qualquer possibilidade de diálogo com a Agência internacional. Dentre elas, ele apontaria o fato desta Agência ter cortado o auxílio subsistência logo após sua vinda a capital, de modo a pressioná- lo a retornar a Mogi das Cruzes; o fato dele achar que o ACNUR teria acionado a Polícia Federal para abordá-lo quando este estava em sua barraca; a revolta diante de uma suposta tentativa de atropelamento empreendida por uma funcionária do ACNUR, em que esta teria subido com seu carro sobre o colchão onde estava dormindo; e a descoberta de que, no

período em que estava acampado em Brasília, a Cáritas, com a autorização do ACNUR, teria entrado em sua casa em Mogi das Cruzes e retirado seus bens sem qualquer aviso prévio.

Todos estes acontecimentos o levavam, de forma reiterada, a recusar o retorno para Mogi das Cruzes, ao mesmo tempo que reivindicar sua saída do Brasil. Se tal atitude reivindicatória seria encarada como um ato de ingratidão82 por parte da então representante do Conare, sob o argumento de que o Brasil teria sido o único país a acolhê-los, Faysal responderia que “seu problema não era o Brasil” ou o “povo brasileiro”, mas o ACNUR:

We do not have a problem with Brazil. This country is dear to us, we respect it, and the Brazilians are all our brothers. May God guide them; they support our cause. We have no problems with Brazilians or the Brazilian government. Our problem is with UNHCR. They brought the people for degradation and abuse and insult, to kill the people.

Em sua resposta à dádiva-refúgio oferecida pelo Estado brasileiro, Faysal fazia questão de se mostrar “grato”, sem, contudo, anular a ideia de que o ACNUR tinha responsabilidade em relação às suas vidas e aos problemas por que passavam. Em muitos momentos, portanto, Faysal estabelecia uma diferenciação entre o Conare e o ACNUR, atribuindo, sobretudo a este último, responsabilidades diante da situação em que se encontrava. De um lado, tal atribuição estaria diretamente relacionada ao fato de que membros desta instituição lhes teriam feito promessas no campo Ruwesheid sobre as condições de vida que aqui teriam, além do claro entendimento de que o programa de reassentamento brasileiro era estruturado e financiado no país pela instituição internacional.

De outro, os refugiados palestinos não deixariam de significar os posicionamentos do ACNUR tendo em vista o próprio papel que esta instituição historicamente jogou em relação à constituição do problema do refugiado palestino. No capítulo 1, apontei brevemente como os refugiados palestinos atribuiriam responsabilidade à Organização das Nações Unidas (ONU) pela criação do problema do refugiado, uma vez que ela aprovou a criação do Estado de Israel. (Peteet, 2005). Pautando-se nessa questão, movimentos políticos ligados a “Causa Palestina” tenderiam a atribuir total responsabilidade à organização internacional em relação à sobrevivência e bem-estar dos refugiados, isso até que seu referido problema fosse definitivamente solucionado (Schiocchet, 2011). Tal marco refletir-se-ia nos próprios posicionamentos de Faysal, uma vez que tanto tenderia a explicitar uma posição de

82 A ideia de que os refugiados estavam apresentando uma reação de ingratidão também teria sido explicitada

publicamente através de entrevistas concedidas pelos representantes do Conare a jornalistas (Ver Agência Estado, 2009).

desconfiança em relação ao ACNUR (muitas vezes acusando-os de seguirem contribuindo com a política de judeus e americanos), quanto a lhes atribuir responsabilidades em relação a sua vida.

Palestinian. Ok, one who hates Palestinians, how does he work with them? You work to serve the refugee, you get paid to serve the refugee; you get paid double for no other reason. But what is a refugee? Ask him what is a refugee? He will not be able to answer you. We are disgusted with this country, even though we want to live and be part of this country, give back and participate, we are not looking for charity or hand out. They were supposed to take care of us, give us what we need. The most important thing is our dignity, our dignity as you see it. Look what is happening to us. Look what is happening to us. Sixty years the Palestinian people have fought for their freedom. The Palestinian people gave, sacrificed, you understand me? And the last thing, what happened in Gaza two weeks ago. You understand me? Never--the Palestine people will not surrender or give up. Until eternity Palestinians will fight and defend their land, their honor.

Considerando tal visão em relação ao papel da entidade internacional, Faysal subverteria a ideia de “ajuda” imbricada nos serviços prestados pela Agência humanitária, colocando como um “direito” a eles devido, dado, além dos aspectos já referidos, o fato de que os funcionários da Agência foram contratados justamente para atendê-los. Ademais, Faysal acionaria continuamente o discurso referente aos “direitos humanos” para afirmar os “direitos” que tinha de ser bem tratado e para acusar a “Agência humanitária” de não saber o que significava o “humano”.

Nesse ínterim, o acampamento seria acionado por Faysal como sua principal forma de protesto/resistência em relação ao tratamento dispensado pelo ACNUR e como meio para conseguir a saída do Brasil. É importante notar que a escolha do acampamento como forma de protesto seria absolutamente simbólica, tendo em vista a importância do acampamento ou do campo na própria visibilização e luta dos refugiados palestinos de forma mais geral. Como apontei no capítulo 1, o campo de refugiados, além de ter funcionado para visibilizar a existência dos refugiados palestinos, foi tomado, como salienta Feldman (2008), como um modo de incorporar autenticamente a experiência de ser palestino.

Além dos protestos, Faysal, através da parceria de uma advogada pertencente a um movimento de direitos humanos – Instituto Autonomia –, que, de forma voluntária, se prontificou a ajudá-lo, impetraria ação judicial contra a Cáritas, o ACNUR e o Conare, demandando o pagamento dos valores a ele devidos (em razão da suspensão dos benefícios desde o momento em que optou pelo protesto ou dos bens retirados de sua casa de Mogi das Cruzes), além da possibilidade de serem reassentados em outro país.

No momento em que finalizei a pesquisa, período em que o acampamento havia sido desmontado, Faysal, diante da insistência do ACNUR de que nenhum país queria reassentá- los e que a instituição não tinha como obrigar qualquer país a recebê-los, terminou por negociar com eles sua transferência ao campo de refugiados localizado entre a Síria e o Iraque. Segundo ele, no campo de refugiados, poderia manter suas esperanças de que algo melhor pudesse lhe ocorrer, dado que teria oportunidades de ser reassentado. No Brasil, em contrapartida, não havia a possibilidade de uma vida digna, nem as chances de um novo reassentamento. Diante deste quadro, o campo de refugiados, do qual havia esperado cinco anos para sair, apesar de suas inóspitas condições, se apresentava como mais atrativo do que o território brasileiro. Ao aceitar esta proposta, no entanto, Faysal aceitou a condição colocada pelo ACNUR de abrir mão do processo judicial. Tempos depois, como viria a saber através da advogada, o ACNUR local voltaria atrás afirmando que a Síria não teria aceitado recebê-lo.

Por último, ressalto que se, em geral, Faysal tendia a estabelecer uma diferenciação entre Estado brasileiro (Conare) e Organização Internacional (ACNUR), atribuindo ao último maior responsabilidade sobre o reassentamento, argumento que, ao longo do protesto, na medida em que a posição do primeiro pareceu cada vez mais se coadunar com a do último, o discurso de “gratidão” ao Brasil passou a concorrer com um de caráter mais crítico à posição do país de tê-los aceitado. Tal posicionamento ficará mais claro através da postura do refugiado Nasser, o qual discutirei na próxima seção.