2.3 Interpersonal aspects of problem-solving
2.3.1 Socio-cognitive processes
É interessante perceber que devido à relação de proximidade e interdependência que os grupos de pescadores artesanais que habitam essas áreas
possuem com esse meio, o processo de modificação em curso nesse ecossistema está implicando em influências e alterações nas suas formas de organização ou reorganização de suas relações sociais familiares construídas em função da atividade pesqueira artesanal, onde a diversidade de atividades entre os membros das famílias é claramente percebida, o que tem gerado nos últimos anos uma crescente importância do trabalho das crianças.
A utilização do trabalho infantil (entre 7 e 14 anos de idade) para afugentar os peixes para dentro das redes através da “Carolina” (Fotografia 6), como foi descrito quando tratávamos sobre a pesca de “borqueio” e o trabalho das crianças, aponta para uma crescente relevância do trabalho infantil na pesca.
Os pescadores revelam que a inserção das crianças na pesca é uma forma de ocupá-los, principalmente nos períodos em que não estão na escola ou de férias, ou em horários que não estão em aula. Percebe-se pelos depoimentos que a aprendizagem do ofício da pesca também é algo relevante, sendo que esta é uma característica comum em comunidades pesqueiras, em que a socialização para a atividade pesqueira começa geralmente cedo.
O que pode ser considerado “novo” na participação de meninos na pesca, no caso em estudo, é sua presença freqüente na prática da carolina, durante os borqueios, que os informantes consideram como necessária devido à escassez dos maparás, conforme foi explicado anteriormente. Assim, trata-se de uma estratégia para enfrentar as dificuldades decorrentes das restrições do meio ambiente.
Para que os meninos possam participar das atividades pesqueiras dependende mais da estatura física do que propriamente da idade cronológica para participarem de atividades consideradas mais difíceis, como acompanhar a pesca de “borqueio” exercendo a função de “pilotos de casco” e “carolineiros”, como já tratamos acima. Já as meninas, na sua maioria, participam no trabalho doméstico e nas atividades complementares à pesca, que são responsabilidade das mulheres conforme o padrão tradicional de divisão sexual do trabalho.
Quanto aos homens adultos, percebe-se um envolvimento cada vez maior com atividades de pesca em locais mais distantes como os municípios de Prainha, Almerim e Monte Alegre, no Alto e Baixo Amazonas Paraense. Nesse caso os moradores da região trabalham como empregados nas chamadas “geleiras” (barcos com capacidade de armazenamento de 30 a 60 toneladas de peixes).
Pode-se perceber que o trabalho dos familiares apresenta-se como indispensável para realização do conjunto das atividades necessárias à subsistência, tanto no sentido de colaboração para dividir as tarefas, como pela possibilidade de aumento de produção e de renda. Isso evidencia que, no contexto daquela área de várzea, as famílias atuam como unidades de produção, ainda que não necessariamente os membros estejam atuando juntos nas mesmas tarefas.
Verifica-se a importância das formas de colaboração entre grupos domésticos, sendo o parentesco simbólico, através do compadrio, muito freqüente entre os moradores. As relações de trabalho ajudam a fortalecer e celebrar laços de amizade e confiança. Tais laços de amizade e parentesco simbólico são permeados por grande demonstração de confiança em vários sentidos, tanto na interdependência das atividades como ocorre entre marido e mulher que realizam suas tarefas acreditando que seu “parceiro” ou “parceira” está realizando a contento sua atividade, ou na relação de compadrio entre o dono da turma e o marreteiro, que deve fazer a venda do pescado e repassar a renda posteriormente.
De maneira geral percebem-se as relações familiares e os laços pessoais presentes na realização de todas as atividades e constituem-se como estratégia fundamental para o desenvolvimento e sucesso das tarefas que têm o intuito de garantir o alimento diário e a geração de renda com base em seus meios de vida tradicionais. Essas relações nas atividades produtivas acabam por contribuir para a consolidação dos laços de amizade e parentesco uma vez que se materializam em formas de expressão de confiança entre os moradores da região.
São relações e práticas que permitem considerar esses grupos familiares como grupos camponeses, com base na literatura sobre o tema. Tomando por base as análises de Queiroz (1976) que em sua obra “O campesinato brasileiro: ensaios sobre civilização e grupos rústicos no Brasil”, analisa o campesinato brasileiro através dos padrões de vida tradicionais dos grupos rústicos no Brasil, afirma que tais grupos se caracterizam principalmente pelo papel da família como constituinte da unidade social de trabalho e de uso e exploração dos recursos da terra, que geralmente satisfazem as principais necessidades da vida, o que é assegurado pela divisão de tarefas entre os membros da família. Tais questões representam características marcantes de modos de vida baseados em sistemas familiares de reprodução social.
Queiroz (1976) conceitua o camponês tradicional brasileiro através de certos comportamentos e modos de vida destacando a policultura, a autonomia relativa e o trabalho familiar.
cultivam pequenas áreas, consagrando uma porção significativa da colheita para sua subsistência; utilizam mão de obra familiar em suas plantações e ocasionalmente poderão utilizar também algum trabalhador exterior a família, remunerando-o de variadas maneiras (QUEIROZ, 1976, p. 25).
Uma outra questão que a autora ressalta é corroborada por Cândido (1987) em sua obra “Parceiros do Rio Bonito”. É a de que essas comunidades “rústicas” ou “tradicionais”, referindo-se aos grupos que compõem o meio rural brasileiro, em especial às populações interioranas do Estado de São Paulo, estão envolvidos em uma organização de vizinhança ampliada, diferente do que se pensou e foi difundido por muito tempo, de que estes grupos se caracterizariam por extremo isolamento, o que explicaria suas características organizativas.
Essas desmistificações são fundamentais para este trabalho cujo objetivo é refletir sobre os padrões organizativos de pescadores do interior do Estado do Pará cujas características do modo de vida se aproximam dos grupos analisados por Cândido (1987).
Apenas um ponto de divergência levantado pelo presente estudo refere-se aos estudos de Candido (1987) que destaca a relação que estes grupos estabelecem com o meio natural - terra virgem, abundância de caça, pesca, coleta – conforme padrões culturais específicos próprios de uma economia de subsistência. De acordo com o autor:
A sociedade caipira tradicional elaborou técnicas que permitem estabilizar as relações do grupo com o meio (embora em nível que reputaríamos hoje precário), mediante o conhecimento satisfatório dos recursos naturais, a sua exploração sistemática e o estabelecimento de uma dieta compatível com o mínimo vital – tudo relacionado a uma vida social de tipo fechado, com base na economia de subsistência. (CÂNDIDO, 1987, p. 82).
Na área em estudo, que não se caracteriza evidentemente como uma “vida social de tipo fechado”, os pescadores demonstram de varias formas que a de fato um processo de escassez em alguns recursos naturais, principalmente a caça e
pesca, que hoje são conduzidas com limitações pela dificuldade de se encontrar peixes e a impossibilidade de se encontrar caça.