A rotatividade de crianças também é uma das dificuldades da Escola, devi- do a realidade vivida, principalmente no último ano, o que impede que se realize um trabalho pedagógico continuado, pois a dinâmica do acampamento perpassa a escola.
Neste ano, nos trabalhos que vêem sendo realizados, foi preciso abordar este movimento que acontece dentro do acampamento. Dentre os temas trabalha- dos, cita-se “as lutas populares” e “a água” - que se desdobraram em vários conte- údos que perpassam as áreas do conhecimento. Todos tiveram raízes na realidade destes últimos meses no acampamento.
O fato é que o Acampamento oito de março significa uma luta política e ideológica na região e sofre as conseqüências dessa situação. Desde o ataque dos pistoleiros dois dias após a ocupação até a conjuntura de repressão que vem en- frentando atualmente. Como na ocasião da Quinta-Feira Santa, três dias antes da
Páscoa, 17 de abril de 2008, às 07 horas da manhã, depois que alguns acampados
saíram para trabalhar fora do acampamento, um grupo de homens armados33 entrou
33 Segundo relatos das famílias havia um grupo de pistoleiros que, no final da ação, fugiram levando a maioria das armas pelo fundo da fazenda.
no acampamento e rendeu as famílias, demonstrando a intenção de retirá-las da fazenda, o que não conseguiram. Neste dia as crianças não tiveram aula.
Já há duas semanas anteriores a este fato, a escola estava trabalhando a partir do tema gerador “lutas populares”, abordando questões, como o Massacre de Eldorado dos Carajás, articulados a conteúdos de história e geografia. Devido a esta interferência que sofreu o acampamento, são recuperadas algumas discussões com ênfase na violência no campo, numa perspectiva de superar possíveis proble- mas que o ataque pudesse ter deixado nas crianças. Nas turmas foram realizados debates, as crianças participavam entusiasmadas, pois tinham coisas para falar. As- sim as discussões se desdobraram em conteúdos e atividades, produções de textos, situações problemas, cálculos matemáticos, desenhos, produções de palavras de ordem, leituras de jornais, “contação de causos” e histórias sobre o que aconteceu com elas, com sua família, ou alguém conhecido.
Outro fato que embora não interferiu diretamente no acampamento, mas deixou conseqüências sentidas até hoje, foi no dia 07 de maio. Na ocasião deram tiros contra os barracos e jogaram uma corrente na rede elétrica que abastecia o acampamento. Com isto, o transformador de energia explodiu e o acampamento acabou ficando sem água, pois a mesma depende de uma bomba d’água. A escola então traz o tema da “água” que se desdobra em: o meio ambiente, água fonte de vida.
O acampamento enfrenta ainda a falta de trabalho e a insegurança em ven- der o que está sendo produzido internamente pelas famílias, devido a possível apreensão dos produtos, o que vem impedindo esta ação.
Mesmo nesse contexto o coletivo de educadores e a comunidade mantêm a escola funcionando, pois sabem que essas crianças precisam continuar freqüentan- do as aulas, por ser o lugar onde moram com seus pais. Diante dessa dinâmica, a escola não fica alheia a ela.
Assim no dia 12 de agosto, depois de três meses de repressão de milícias armadas contra o acampamento, foi realizado um ato público de denúncia na ci- dade de Terra Rica, onde participaram as Escolas Itinerantes da Brigada Salvador Allende34.
Contudo, a realização deste ato surge como uma iniciativa do MST e outras entidades que apóiam o Movimento, tais como: Comissão Pastoral da Terra – CPT, Movimento Negro, Diocese de Maringá e Via Campesina. O ato visava denunciar à sociedade e aos órgãos públicos as diferentes formas de violências cometidas
34 Pertencem a esta Brigada as Escolas: Anton Makarenko, Carlos Marighella e Ernesto Che Gueva- ra.
contra este acampamento. Também era uma forma de pressionar a aceleração do processo de desapropriação desta área.
O planejamento e preparação para o ato aconteceu em conjunto, cerca de 800 famílias organizadas em torno do Movimento na Região, realizaram discus- sões, durante as duas semanas anteriores ao ato, nas instâncias do MST sobre as ações que deveriam ser feitas e o caráter do ato. Nesse quadro, as Escolas Itineran- tes realizam atividades referentes à mobilização.
Dentre as principais atividades que foram desenvolvidas na Escola Itineran- te Ernesto Che Guevara, merece destaque à carta coletiva construída pelas crian- ças. Na sua elaboração, destacaram-se nas pesquisas, na oratória, bem como na responsabilidade ao realizar cada etapa, pois se sentiam estimuladas pelas expec- tativas em relação ao resultado de seus trabalhos. A carta ainda propiciou que cada criança expressasse suas dificuldades e potencialidades, pois os conteúdos tinham um objetivo prático que exigia um esforço de todas em torno de algo comum.
Desse modo, ao estudar as tipologias textuais, uma das etapas mais impor- tantes foi à pesquisa/consulta que as crianças fizeram com as famílias acampadas, ouvindo delas o que era importante ser escrito na carta de denúncia. Outra dinâmi- ca interessante nesse processo foi a correspondência entre as crianças das Escolas Itinerantes, que ajudou a estimular a escrita.
Porém, mesmo antes da carta coletiva ser montada, os resultados desta di- nâmica já se mostravam positivos, com as crianças se expressando, conforme pode ser visto na carta escrita pela educanda do 2º ciclo (próxima página).
(...)
Na manifestação, nos dias 11 e 12/08, reuniram-se aproximadamente 500 Sem Terras de toda a região na avenida principal de Terra Rica. Sendo que dia 12 houve realização do ato público no qual autoridades falaram. Nesse dia, as Escolas Itinerantes participaram, e lá as crianças fizeram a leitura de uma das cartas escritas por elas.