A avaliação deve ser feita e compreendida como diagnóstica porque visa fornecer referências para a intervenção pedagógica. Também deve ser processual, considerando as transformações que ocorrem com o educando durante a prática pedagógica e emancipadora, possibilitando que este desenvolva a criatividade, ca- pacidade de iniciativa, sendo sujeito no processo de ensino e aprendizagem.
Por isso ela precisa ser refletida em suas especificidades, pois faz relação com outros aspectos da escola. Aponta as necessidades organizativas, quando iden- tifica a demanda por oficinas ou tempos educativos; redimensiona o planejamen- to quando consegue identificar o que precisa ser trabalhado e aponta as questões pertinentes à formação dos educadores; quando se torna uma prática permanente nos diferentes coletivos na escola. Por isso ela deve ser garantida e planejada em diferentes momentos, no acompanhamento aos educandos, no acompanhamento dos pais, do coletivo de educadores e das instâncias da comunidade.
Educandos a)
O acompanhamento aos educandos e educandas neste processo é funda- mental, pois dele resulta o parecer descritivo que é feito no primeiro e segundo semestre do ano, o qual passa pelo coletivo de educadores e também pelos pais. É preciso pensar e criar formas de garantir o acompanhamento sistemático de cada educando, identificando o que já aprendeu e o que ainda precisa retomar. Como estratégia pode ser implementada a prática de anotações diárias ou se- manais de cada uma das crianças em um caderno de avaliação. Também se faz necessário ter uma pasta individual onde estejam recolhidos os trabalhos como: textos, desenhos ou outras produções, organização de questões trabalhadas du- rante o desenvolvimento das aulas, testes de conhecimentos no final ou durante cada tema. Enfim, ainda podem ser pensadas outras questões, o que não se pode é admitir que esta prática seja feita de forma autoritária ou descomprometida
com a apropriação dos conhecimentos e comportamentos necessários em cada ano dos ciclos.
No entanto, ainda percebe-se que a grande preocupação dos educadores é com o parecer, ou seja, descuidam do processo de acompanhamento sistemático de cada criança e quando se aproxima o tempo de elaborar o parecer começam a rebuscar instrumentos como textos, cadernos dos educandos e outros que dêem elementos para tal fim. Neste sentido, é preciso pensar estratégias de como garantir a avaliação nos aspectos que destacamos acima.
Todavia consegue-se garantir a socialização dos pareceres com os pais, vendo a importância dos mesmos conhecer ou intervir na avaliação de seus filhos. Considerando que, por diversos fatores, alguns pais fazem deste o único momento de participação direta na escola.
b) Acompanhamento dos pais
Além do momento de socialização dos pareceres, como já havíamos destacado, os pais participam de outras formas de interferência e avaliação da escola junto às instâncias. Neste sentido podemos destacar como um momen- to importante desse processo, por fortalecer o acompanhamento dos pais aos educandos, o conselho de classe. No final do ano letivo de 2006, havia alguns educandos com faltas excessivas, o que interferiu muito na compreensão dos conteúdos trabalhados. Então reuniu-se os pais, juntamente com os educandos e mais o coletivo de educadores. Cada educador relatou os avanços e limites da turma e dos respectivos educandos que posteriormente foram ouvidos, assim como também os pais.
Foi ressaltado o acompanhamento freqüente dos pais e o comprometimento referente as faltas dos seus filhos; que os educadores focassem nas necessidades dos educandos afim de superá-las no decorrer do ano. Nessas condições, os edu- candos não foram retidos.
c) Avaliação no coletivo de educadores
No coletivo de educadores se pondera toda a organização pedagógica, re- lações pessoais entre educadores e educandos, acompanhamento pedagógico, rela- ção da comunidade com a escola e aprendizagem dos educandos e dos educadores diante da prática diária dentro ou fora da sala de aula. Assim afirma o educador em uma das reuniões de avaliação: “Penso que avaliar nosso trabalho permite o reco-
nhecimento das nossas falhas e nos condiciona melhorar nossas práticas na escola e até mesmo na comunidade” (Adangley Souza da Rosa – educador do 2° ano do
2° ciclo - 2008). Entretanto, dá-se ênfase em questões que já foram abordadas no texto, junto à reflexão sobre os coletivos pedagógicos.
Instâncias da comunidade d)
Um dos momentos que envolve a comunidade organizada em brigadas de 50 famílias, na avaliação e projeção da escola, é no final de cada ano letivo. Como nesta situação sempre há pessoas com tempos diferentes de entrada no acampa- mento, inicia-se a reunião abordando elementos históricos da escola. Discute-se a forma da organização do trabalho pedagógico e o que é de responsabilidade dos núcleos, garantindo que todos participantes tenham elementos para avaliar.
Da avaliação, feita sobre aspectos referentes às questões tratadas no primei- ro momento, aponta-se sugestões para a continuidade no ano seguinte, as quais são incorporadas ao planejamento anual da escola.
Estes momentos são importantes, tensionando a importância das famílias permanecerem organizadas, pois quando a estrutura organizativa do acampamento perde a funcionalidade a comunidade deixa de incidir na escola e não consegue garantir o que é acordado nestes momentos de avaliação.
É importante refletir sobre como a escola vem fortalecendo a organização neste acampamento e em que aspecto essa relação aproxima-se da intenção de ter uma escola que eduque para a emancipação dos sujeitos que se envolvem nela.
Ao longo desta trajetória podemos destacar alguns avanços no aspecto da aprendizagem das crianças, pois as avaliações contribuem para que os educadores, nos planos diários, dêem destaque aos conteúdos e as metodologias, contribuindo para que as crianças avancem na apropriação do conhecimento e também na sua participação na escola.
Constata-se que os educandos/as aos poucos vão sentindo-se mais a vonta- de para se expressar e até dar idéias práticas nas aulas. Assim, afirma a educanda durante a aula:
Eu não tenho vergonha dos meus amigos e nem das educadoras. Por- que quando elas perguntam as coisas que eu sei eu já respondo com certeza. Eu sou muito feliz de estudar nessa escola... Eu queria que tivesse mais do que a 4 ª série, pra eu não sair daqui (educanda Keila Souza dos Santos. 1° ano do 2° ciclo – 2007).
Nos aspectos da avaliação diagnóstica, processual e emancipadora o educa- dor não fixará somente nos critérios de aquisição de conhecimento pelo educando,
mas também busca avaliar seu desempenho, seus objetivos, o que espera dos edu- candos e o que considera essencial retomar em cada área do conhecimento.
Vimos em um curso de formação dos educadores o quanto é impor- tante que o educador realize registros diários sobre a atuação das crianças, bem como coletar trabalhos demonstrativos dos avanços e até limites dos educandos, o que facilitará a elaboração dos parece- res de cada período. (Gileusa da Silva Oliveira, educadora do 2° ano do 2° ciclo – 2007).
Embora consideremos as questões abordadas importantes, ainda há muito que avançar nesse aspecto, pois se percebe que a avaliação na escola gera insegu- rança, pois os educadores não têm o hábito de fazer registros, o que dificulta essa prática em sua totalidade.
Algumas famílias afirmam que a escola é como um marco por estar dentro do acampamento, próxima dos pais, bem como pelo fato de ajudar a afirmar a per- manência das famílias neste espaço, devido à existência de uma instituição pública, legítima, localizada em uma área em disputa.