Como não foram identificados textos específicos que caracterizassem componentes de comportamentos constituintes do comportamento econômico, foi necessário selecionar as fontes de informação de maneira que contemplasse os três aspectos principais destacados em literatura (e.g., Akerlof & Schiller, 2009; Ariely, 2008; Bazerman & Moore, 2010; Bechara & Damásio, 2005; Chandola, Heraclides & Kumari, 2010; Chanlat, 2000; Damásio, 1996; Elster, 1998; Ferreira, 2007a, 2007c; Finucane, Alhakami, Slovic & Johnson, 2000; Flyvbjerg, 2003; Gondim & Siqueira, 2004; Goulart, 2009; Kahneman, 2003, 2011; Loewenstein, 2000; OECD, 2010b; Pompian, 2012; Rick & Loewenstein, 2007; Schein, 1999; Simon, 2009; Thaler & Sunstein, 2009), acerca do que é importante uma pessoa levar em conta ao comportar-se economicamente: (a) aquelas variáveis já estudadas usualmente em Economia; (b) as emoções e sentimentos; e, (c) os próprios limites, vieses, crenças e preconceitos.
a) Texto, em psicologia organizacional, onde estão apresentados diferentes aspectos de comportamentos relacionados aos processos de perceber e sentir.
Como já destacado nas características das fontes de informação, dos três autores (Falconi, 2004b; Matus, 1996; Schein, 1999) de textos relacionados à solução de problemas em ambientes organizacionais, Schein (1999) foi o único autor a chamar a atenção do leitor para o que ele chama de “processos intrapsíquicos”. Em linguagem comportamental, esses processos “intrapsíquicos” nada mais são que três classes gerais de comportamentos encobertos, relacionados ao conhecimento do próprio indivíduo acerca da maneira que age ou se relaciona com o “mundo”. Mais especificamente, Schein (1999) destaca o papel de três ações nomeadas, por esse autor, de (a) observação (que pode ser traduzida simplificadamente como um processo comportamental denominado de
atentar); (b) reação emocional (que pode ser traduzida simplificadamente como uma
parte do processo comportamental denominado de sentir); e (c) julgamento (que pode ser traduzida simplificadamente como um processo comportamental denominado de
Com relação a esses três processos comportamentais constituintes dos “processos intrapsíquicos” de Schein (1999), apresentados especificamente no capítulo 5 do livro, o aspecto que mais chama a atenção é o alerta que faz sobre um pré-requisito para qualquer comportamento adequado de uma pessoa no ambiente em que se encontra: o “acesso à própria ignorância” (Schein, 1999, p. 98). Para esse autor, se a pessoa não consegue observar e avaliar seus próprios vieses, sentimentos, distorções perceptivas e impulsos, a pessoa dificilmente saberá se sua ação é baseada em informações acuradas sobre o “mundo” ou se é baseada em ilusões, delírios, racionalizações e outros processos relacionados à dificuldade da pessoa em lidar com diferentes situações cotidianas. A partir desse pressuposto, Schein (1999) conclui que os “processos intrapsíquicos” são fundamentais para prevenir, atenuar ou eliminar erros sistemáticos cometidos pelas pessoas ao perceber e sentir aspectos em uma situação.
O alerta de Schein (1999) em relação à importância das pessoas acessarem sua própria ignorância, ao agirem diante de diferentes situações, não é ao acaso. Alertas similares também são frequentes em diferentes subáreas da Psicologia, e são resultado de programas de estudos específicos. Por exemplo, em análise experimental do comportamento, Catania (1999), Millenson (1975) e Skinner (2003) destacam vários equívocos, que diferentes organismos cometem ao agir em diferentes situações, a partir de processos comportamentais denominados de supersticiosos. As superstições acabam por levar as pessoas a agirem de forma inapropriada, pois, em resumo, as pessoas passam a ser controladas por eventos ambientais percebidos de maneira enviesada ou distorcida. Outros autores em Administração, Contabilidade, Economia, Matemática, Física e em demais subáreas de Psicologia (Ariely, 2008; Fantino & Kennelly, 2009; Kahneman, 2011; Kennelly & Fantino, 2007; Macedo Jr., Kolinsky & Morais, 2011; Mlodinow, 2009; Pompian, 2012; Thaler & Sunstein, 2009) também têm mostrado, desde fins da década de 1970, como membros da espécie humana agem equivocadamente com base em informações imprecisas, ilusões, preconceitos e reações emocionais inapropriadas, entre outros. Considerando esses dados, é fundamental que o
comportamento econômico seja constituído de processos comportamentais que
aumentem as chances de produção de bem-estar em sociedade, ao invés de processos comportamentais supersticiosos ou que diminuam as chances de produção de bem-estar.
b) Textos, em análise experimental do comportamento, onde estão apresentados diferentes aspectos de comportamentos relacionados à solução de problemas.
Foram selecionados três livros em Psicologia, onde há extensa argumentação acerca de princípios básicos da subárea denominada análise experimental do comportamento, escritos por Catania (1999), Millenson (1975) e Skinner (2003). Esses livros foram selecionados por dois aspectos principais: (a) fornecem informações sobre comportamentos relacionados ao processo de solução de problemas em capítulos específicos e (b) estão em linguagem comportamental, o que é importante como maneira para estabelecer equivalências entre diferentes termos em solução de problemas utilizados por diferentes autores de diferentes áreas do conhecimento. Aspectos de comportamentos relacionados à solução de problemas aparecem no capítulo vinte de Catania (1999), capítulo catorze de Millenson (1975) e capítulo dezesseis de Skinner (2003).
Além desses livros, foi selecionado o artigo de Botomé, Kubo, Mattana, Kienen e Shimbo (2003) acerca de processos comportamentais básicos como objetivos gerais, ou classes gerais de comportamentos ou competências para a formação do psicólogo. O aspecto relevante desse texto está relacionado ao fato de que os autores explicitam classes gerais de comportamento relacionadas à intervenção profissional, que têm relação direta com o processo de solucionar problemas. Qualquer intervenção profissional – quer seja para prevenir a ocorrência de problemas, quer seja para atenuar ou eliminar problemas existentes, ou ainda, quer seja para aperfeiçoar certos tipos de situações – é composta por elementos relacionados à solução de problemas.
c) Textos, em ciências sociais, onde estão apresentados diferentes aspectos de comportamentos relacionados à solução de problemas.
As organizações fazem parte da vida de cada membro da espécie humana desde o nascimento até a morte. Quer seja em organizações hospitalares, educacionais, familiares, religiosas, não governamentais, comerciais, industriais, científicas, governamentais e assim por diante, a vida em grupo é parte fundamental da produção da sobrevivência e desenvolvimento da cultura e dos membros da espécie humana. Nesse contexto, é relevante incluir aspectos de comportamentos relacionados à solução de problemas em ambiente organizacional no âmbito do comportamento econômico. E esses aspectos foram identificados em certos capítulos das obras de Schein (1999), Falconi (2004b) e Matus (1991, 1996), incluindo a entrevista a Matus feita por Huertas (1996).
No capítulo oito do livro de Schein (1999) há um processo de resolução de problemas singular, pois esse autor examina esse processo em conjunto com os
“processos intrapsíquicos” e processos decisórios em grupo, em ambiente organizacional, e a partir de uma perspectiva da psicologia organizacional. Por esse exame diferenciado, onde Schein (1999) busca integrar indivíduo e grupo, o capítulo foi selecionado como fonte de informação para esta pesquisa.
O livro de Falconi (2004b) foi selecionado, pois resultados obtidos por meio da implementação do método de solução de problemas proposto por esse autor, dentro do contexto mais amplo da gestão pela qualidade total, têm sido consistentes em diferentes organizações (Fundação Christiano Ottoni, 1996). Por decorrência dos bons resultados obtidos em gestão empresarial, aspectos do método de trabalho proposto por Falconi (2004b) também têm sido adaptados e integrados à gestão pública em saúde, educação, justiça e governo, conforme pode ser observado em diferentes notícias presentes em < http://www.indg.com.br/saladeimprensa/indgnamidia/index.asp >.
Por sua vez, as obras de Matus (1991, 1996) foram selecionadas tendo em vista o sucesso que o método de solução de problemas proposto, o planejamento situacional, alcançou em certas organizações governamentais. Além disso, é necessário destacar que a obra Política, planejamento e governo (Matus, 1996) é especialmente relevante no contexto desta tese, uma vez que Matus (1996) propõe, examina e argumenta, contundentemente, no capítulo 11 (p. 99-134) da parte I (Tomo I), uma teoria integrada de produção social. Algo que, de acordo com argumentos desse autor, é fundamental para (a) a produção de conhecimento mais fidedigno acerca da realidade das pessoas em sociedade e (b) intervenção adequada nessa mesma realidade.
No decorrer da coleta e tratamento de dados dessa obra, houve necessidade de avaliar novamente se esse texto auxiliava efetivamente na identificação de comportamentos elementares relacionados à solução de problema, em uma linguagem acessível o suficiente e dentro dos limites do sujeito-alvo especificado no item 2.5.5 (letra “a”) deste procedimento. Como houve dúvida a esse respeito, foi consultada a obra escrita por Huertas (1996), onde há uma entrevista com Matus, justamente acerca do método elaborado por esse autor. Como essa obra está escrita de forma mais sucinta, objetiva e em linguagem mais acessível, foi decidido coletar dados também dessa obra. De forma geral, é possível afirmar que na obra de Huertas (1996) há uma explicação abrangente o suficiente acerca do método de solução de problemas de Matus. Essa explicação atendeu às necessidades de dados para responder à pergunta de pesquisa. O texto Política, planejamento e governo, apesar de também conter elementos básicos e abrangentes com relação ao método de Matus, é escrito em linguagem mais específica e detalhada em relação ao seu método. E, finalmente, o artigo de Matus (1991), O plano
como aposta, também foi selecionado pelo mesmo motivo que o texto de Huertas (1996)
No caso específico do texto de Matus (1996), o critério utilizado foi o de identificar aqueles capítulos onde as propostas mais gerais desse autor estivessem sintetizadas. Isso foi encontrado nos capítulos de 1 a 4, da parte I (Tomo I); e capítulo 1, da parte IV (Tomo II). De forma a complementar à coleta de dados feita a partir desses capítulos de Matus (1996), foram coletados dados das propostas gerais relacionadas ao planejamento situacional presentes no capítulo “A quarta pergunta”, da obra de Huertas (1996). Demais capítulos excluídos das obras de Matus (1996) e Huertas (1996), apesar de não serem fontes de consulta direta, foram utilizados para o entendimento mais completo de dados coletados dos capítulos de interesse. O artigo de Matus (1991) foi utilizado para esclarecer dúvidas relacionadas aos capítulos dos livros citados.
d) Textos, em ciências sociais, onde estão apresentados diferentes aspectos de comportamentos relacionados à microeconomia e finanças.
O artigo da OECD (2010b), PISA 2012: Financial literacy framework, foi escolhido principalmente por ser resultado de exame de especialistas representantes de diferentes países – como Austrália, Alemanha, Bélgica, Canadá, Estados Unidos, França, Japão, Luxemburgo, Noruega, Nova Zelândia, Reino Unido e República Checa – acerca de aspectos relevantes em educação financeira. Além disso, esse texto foi resultado de trabalho que vem sendo feito desde 2005 pela OECD International Network of Financial
Education e de diferentes propostas relacionadas ao que deve constituir o ensino em
educação financeira, elaboradas por especialistas e o PISA Governing Board, entre junho e dezembro de 2010. A importância em incluir esse texto na coleta de dados está relacionada justamente à integração de variáveis em finanças relevantes no âmbito da educação financeira, aos componentes de comportamentos elementares constituintes do
comportamento econômico.
Com relação aos três textos em Economia, foram selecionados certos capítulos, dos livros de Krugman e Wells (2007), Mankiw (2009) e Stiglitz e Walsh (2003), como fontes de informação. Especificamente, foram selecionados os capítulos 1 (Teoria econômica e a Nova economia) e 2 (Pensando como um economista) do livro de Stiglitz e Walsh (2003); o capítulo 1 (Dez princípios de economia) do livro de Mankiw (2009) e o capítulo 1 (Princípios básicos) do livro de Krugman e Wells (2007). Esses capítulos foram selecionados, principalmente, porque apresentam aqueles aspectos do comportamento
econômico mais fundamentais e gerais em relação a esse comportamento. Além disso,
um aspecto relevante de escolha a ser destacado, é que dois livros foram escritos por pesquisadores que ganharam o prêmio “Nobel” em Economia: Joseph Stiglitz em 2001 e Paul Krugman em 2008. A relevância desse aspecto não está no fato desses autores
terem ganhado o prêmio “Nobel” ou, mesmo, nos resultados obtidos em suas pesquisas. A relevância está em conhecer o que esses autores, com produção científica relevante no âmbito mundial, entendem a respeito de variáveis fundamentais para o entendimento do
comportamento econômico.