TYPES OF SPEECH AND INTERACTIONAL MECHANISMS IN COMMUNICATION
THE SITUATION IN THE REPUBLIC OF MOLDOVA Marta ISTRATI
Nestes quase oitenta anos desde o lançamento da primeira animação da Disney, as princesas vêm, pouco a pouco, tomando as rédeas de seus próprios destinos. O mesmo acontece com a mulher da vida real que vem superando obstáculos criados pela cultura androcentrada.
Contudo, foi somente em 2012, com o lançamento de Valente que o paradigma do romance entre e a princesa e o príncipe, um dos eixos principais nas narrativas, foi definidamente quebrado. O amor verdadeiro, anteriormente relacionado com o romance – e grande elixir na quebra de maldições – também será compreendido de outra forma em muitas das adaptações fílmicas dos contos de fadas.
Em Valente, Merida (Figura 20), uma princesa celta escocesa, é uma garota de dezesseis anos com volumosos cabelos cacheados e ruivos que passa seus dias cavalgando pela floresta, treinando a pontaria com seu arco e flecha41. Valente, apesar de retratar uma
princesa do passado, contém elementos considerados muito atuais na narrativa. Isto também se deve ao fato de que o filme é uma produção da Pixar Animation Studios – estúdio notoriamente conhecido por trabalhar somente com roteiros originais e que pertence ao conglomerado da Disney desde 2006.
Ela não é a primeira princesa guerreira da Disney – Mulan (1998) já desempenhara essa função. Contudo, há uma diferença muito importante e que, na nossa perspectiva, precisa ser destacada: Merida não precisa se disfarçar de homem para guerrear, e também não se envolve romanticamente em nenhum momento. Se Mulan luta para defender seu pai e seu país, Merida interessa-se por preservar a si mesma e proteger sua liberdade. Neste sentido, podemos relacioná-la diretamente com o arquétipo de Ártemis (Figura 21), deusa regente do mundo selvagem na mitologia grega que nunca se casou e permaneceu virgem42.
41 Há uma recorrência de personagens independentes que portam um arco e flecha nas narrativas de Hollywood.
Dentre elas, a personagem Guinevere, em King Arthur (EUA, 2004), é mostrada como uma habilidosa guerreira celta, bem diferente das versões medievais, onde a futura esposa de Arthur é retratada como uma donzela nos moldes do amor cortês. Outro exemplo é a icônica personagem Katniss, da saga Jogos Vorazes (EUA, 2012- 2015).
42 A “virgem” neste contexto se relaciona à mulher livre e não casada. Ver mais nas obras de Merlin Stone,
Figura 20 – Merida
Fonte: http://migre.me/sZnqC
Figura 21 – Ártemis (470 a.C.)
Fonte: http://migre.me/t02Fz
Deusa lunar e arqueira, protetora da caça e das caçadoras, relacionada ao feminino primordial, Ártemis nunca se submeteu aos parâmetros patriarcais. Ela representa a mulher livre e é indomesticável, assim como a “mulher selvagem” que encontramos também em Malévola.
A Virgem Ártemis, arquétipo de uma feminilidade mais pura e mais primitiva, começa a tornar-se importante novamente. Por muito tempo permanecemos sem representação da feminilidade absoluta, isto é, que não fosse definida pela sua relação ou com um amante (Afrodite), ou com um filho (Deméter ou Maria, Mãe de Jesus), ou com um pai (Atena), ou com um marido (Hera). [...] Amazona e arqueira infalível, Ártemis garante a nossa resistência a uma domesticação que seria completa demais. Além disso, como protetora da fauna e da flora, ela é a figura mais diretamente ligada ao debate ecológico contemporâneo e às opções sociais decorrentes dele (PARIS apud WOOLGER, 1997, p.82).
Da mesma forma que no mito, a prioridade de Merida é sua liberdade. Porém, na narrativa, ela é pressionada por seus pais – especificamente, por sua mãe, a rainha – a se casar
com um dos príncipes dos clãs aliados de seu reino. Merida, porém, nega-se veementemente, questionando o porquê da necessidade do matrimônio para uma princesa. Inconformada, ela entra na competição de arco-e-flecha, disputada pelos príncipes de outros clãs para definir quem seria o futuro marido de Merida. Usando um estandarte com uma espada, ela diz seu nome e que é a primogênita de seu clã – apta, portanto, para competir, visto que esta era a regra principal da disputa. A princesa vence a competição, acertando todos os alvos e superando cada um dos príncipes – sem quebrar as regras do jogo, mas subvertendo as regras morais tradicionais. A espada é o símbolo do clã de Merida. Para Gilbert Durand (2012, p. 130; 168), tanto a espada quanto as flechas são símbolos ascensionais ligados à estrutura heroica do regime diurno do imaginário e ao masculino. Ao adentrar a arena e não escondendo que é uma mulher, Merida reforça a condição de heroína e a apropriação de formas simbólicas antes restritas aos personagens masculinos. Aqui temos elementos muito importantes: a vitória de Merida não somente desestrutura a suposta diferença entre os gêneros, mas também desafia toda a moral que trata a mulher como mercadoria de troca, além de trazer à tona o questionamento sobre um dos pilares da sociedade patriarcal: o casamento tradicional.
Porém, há um detalhe fundamental na narrativa: a guardiã da tradição é Elinor, rainha e mãe de Merida. Após a vitória de Merida, mãe e filha discutem e a princesa foge para a floresta, sendo atraída até a cabana da Bruxa – personagem citado na seção anterior. Merida pede um feitiço que faça sua mãe mudar e assim, vê a possibilidade de mudar seu próprio destino também. Porém, as coisas não saem exatamente como ela desejava, pois a rainha é transformada numa ursa43. Dá-se então, a jornada das personagens pelo mundo selvagem.
A história de Merida e Elinor aborda um tema que toca muitas mulheres: a relação entre mãe e filha que, simbolicamente, representa também o conflito entre seguir as tradições familiares ou optar por uma vida que não dependa da aceitação e repetição de padrões pré- determinados – duas das questões que envolvem o dilema da “terceira mulher”. Cabe enfatizar que Elinor é uma personagem bem complexa e, apesar de exercer uma força contrária a de Merida, Elinor não é uma vilã. Na verdade, ela é a co-protagonista na narrativa, pois sua jornada individual é tão importante e essencial quanto à de Merida. Por conta disto, Valente mostra um avanço no sentido de que, conforme a rainha-mãe se integra à mulher
43 Apesar de controverso, Junito de Souza Brandão – uma das grandes referências nos estudos da mitologia grega
– uma das possibilidades do significado etimológico de Ártemis é deusa-ursa, derivando do ilírio artos, urso, em grego árktos. Outra explicação é que seu nome procede do grego artamos, ou “a sanguinária” por conta de sua excelência com o arco e flecha.
selvagem e se liberta da rigidez de alguns papéis impostos pela tradição, abre-se um caminho para o surgimento de “quarta mulher”. Representada por Merida, a ainda jovem, imatura e prototipada “quarta mulher” vê a interdependência como algo natural e é justamente esta princesa livre que conduz e instrui a rainha-mãe a resgatar seus dons selvagens e, principalmente sua individualidade. Da mesma forma, Merida – ao reconhecer o amor verdadeiro e o valor de sua mãe e da família – torna-se mais madura e equilibrada. A cena que mostra a recuperação da forma humana de Elinor, Merida diz que sua mãe mudou e a rainha responde que as duas mudaram. A última cena da narrativa mostra a Elinor com os cabelos soltos cavalgando lado a lado de Merida. Valente quebra a dicotomia mãe tradicional vs. filha rebelde e estabelece uma relação integrativa entre duas mulheres que enfim compreendem suas diferenças e aceitam-se como iguais.