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DE LA SITUATION FINANCIÈRE

Terminada a coleta de dados da pesquisa de campo desenvolvida no ano de 2012, deparamo-nos com um novo trabalho a ser feito: a análise dos registros dos temas e assuntos que fizeram parte dos encontros com as professoras. Se um dos princípios fundamentais da análise de uma pesquisa-ação é “deixar falar os dados”, ao final desse processo surgiram as seguintes questões: o que essas informações estão a contar? O que elas revelam? O que escondem?

Uma coisa era certa: a interpretação dos dados da pesquisa mostrava-se como uma tarefa que demandava energia e disposição para um trabalho artesanal, que implicava muitas escolhas, a ser construído com cuidado e delicadeza, como se fosse a feitura de uma obra artística. Nesse caso, o material a ser tratado para ganhar forma era composto pelos dados coletados ao longo dos encontros com os dois grupos de professoras durante o curso da proposta da pesquisa-ação.

De maneira regular, semana a semana, durante todo um ano letivo, foram registrados no caderno de campo inicialmente os dados mais objetivos, como o planejamento de cada encontro, os conteúdos musicais a serem abordados a partir das demandas das professoras e do que havia sido acertado na ida anterior às escolas. Depois do seu acontecimento, quando voltava para casa, esse registro inicial se ampliava com o que chamei de “notas sobre o encontro”, composto pelo que ocorreu em cada um deles: os conteúdos musicais de fato abordados e também os seus desdobramentos, temas adjacentes e falas das participantes.

Além disso, fizeram parte desses escritos expandidos muitas observações, reflexões, dúvidas suscitadas, assuntos a serem pesquisados e aprofundados, sensações e sentimentos, palavras não ditas e capturadas em gestos e olhares. E mais ainda: os registros evocavam lembranças de sons resgatados na memória da infância, canções, brincadeiras, movimentos, risos e vozes que foram ouvidas na partilha de repertórios musicais que permearam os encontros. Alguns desses momentos foram sensíveis e poéticos, verdadeiras pequenas celebrações.

O fato de nos debruçar sobre esse material foi desafiador e ao mesmo tempo instigante porque um pouco da vida de cada uma das participantes ficou ali contido e sua interpretação demandou uma estreita articulação entre as lógicas da razão e as lógicas da sensibilidade e da intuição.

Terminada a pesquisa de campo e com os dados em mãos, num primeiro momento tivemos a sensação de estar em um turbilhão: o que fazer com todas essas informações? Voltando ao início deste capítulo: deixamos falar os dados, permitimos que eles sussurrassem aos ouvidos como dar os primeiros passos para percorrer os caminhos escondidos, que levariam à escolha do modo mais adequado para tratá-los.

O fato de ter desenvolvido a pesquisa em dois contextos diferentes gerou dois registros distintos que, se em um primeiro momento suscitaram a possibilidade de serem tratados em separado, as leituras sobre pesquisa-ação indicaram que, de modo mais apropriado, eles poderiam servir para serem confrontados. Essa duplicidade de dados se prestaria melhor para aumentar a exatidão das informações em um processo essencialmente dialético (DICK, 2003, p. 21).

Além disso, sempre enxergamos as duas escolas como dimensões de um mesmo fenômeno: a educação das crianças pequenas. Se no sistema educativo municipal paulistano ela acontece em duas instituições escolares distintas, isso se deve a razões ligadas à sua história, constituição e estabelecimento como etapa de ensino21, e não às questões pedagógicas, assim com afirmam referenciais e orientações curriculares22 que a concebem, pelo menos teoricamente, como educação infantil. Aliado a essa opção de tratar os dados no seu conjunto, está implícito o estatuto metodológico fundamental da Sociologia da Infância de estudar a infância como geração. Nesse sentido, não caberia a sua divisão em mais uma subcategoria além daquela aqui empregada: a do foco na pequena infância.

“Deixar falar os dados”: mergulhos feitos nas anotações do caderno de campo trouxeram à tona os acontecimentos de cada encontro e tentamos captar seus significados explícitos e implícitos. Aos poucos, de tanto frequentar essas anotações, os caminhos começaram a se desenhar. Tímidos no início, incertos, inseguros, aos poucos os assuntos tratados foram se delineando com mais força e começaram a revelar a atração que existia entre muitos deles.

21

Sobre dados históricos de políticas públicas e gestão da educação infantil no Brasil, verificar Khulmann Jr. (2000) e Nascimento, Campos e Coelho (2011).

22

RCNEI (1998), DCNEI (2010) e, no âmbito municipal, as Orientações Curriculares-Experiências de Aprendizagem (2007).

Um novo escrito derivado do primeiro registro do campo foi gerado: um agrupamento de assuntos. Com a ajuda desse agrupamento, releituras foram feitas e começamos a enxergar as conexões entre os assuntos até o ponto em que, finalmente, chegamos a uma primeira versão daquelas ideias que poderiam vir a se constituir em tema ou categorias para a análise desses registros de campo.

Depois de conviver dias seguidos com esses assuntos, eles deram origem a sete temas que foram confrontados com os dados do primeiro e do último encontro, porque tinham características distintas dos demais. Esses dois encontros se deram nos moldes de entrevistas focalizadas em grupo, e esse formato, além de ter se prestado também à finalidade de “triangular os dados de informação” (MÁXIMO-ESTEVES, 2008, p. 98), levou à ampliação e à complementação dos registros do caderno de campo ao permitir:

[...] conhecer em profundidade as necessidades, os interesses, as preocupações de um determinado grupo de pessoas, para compreender o funcionamento do grupo, para estudar as interações e intenções, para

identificar o grau de concordância ou discordância em relação a um assunto (Ibid., p. 98, grifo nosso).

A partir dessa triangulação de dados, decidimos pela realização de novos arranjos para os temas. Esses temas, que expressavam ideias mais amplas, foram colocados em uma “linha do tempo” que contemplou três momentos da formação.

O primeiro deles, o início, foi tanto aquele do primeiro encontro com característica de entrevista focal com o grupo de professoras, como o registro dos primeiros relatos de seu trabalho. Os encontros iniciais foram fundamentais para a ampliação do mapa de saberes e práticas, feito a partir da primeira conversa com as participantes, porque permitiram a sua ampliação e um conhecimento maior sobre o trabalho educativo-musical realizado nas escolas.

O segundo momento, o mais alargado de todos do ponto de vista do período em que estivemos juntas na pesquisa de campo, foi o tempo da sua duração; ele nos conta sobre os encontros posteriores àqueles iniciais e os assuntos que se fizeram presentes no decorrer desse processo até o seu término.

O último momento, o da finalização, conta sobre o último encontro com as professoras, quando avaliamos todo o seu curso, características e ganhos, e tentamos traçar uma possível continuação para o trabalho com a educação musical em cada uma das escolas onde a pesquisa de campo teve lugar de acontecimento.