James, Jenks e Prout (2004) nos informam que as crianças sempre foram objeto de estudo da Sociologia. Mas, segundo os autores, os primeiros olhares para as crianças a partir de uma conceituação perpetrada pela tradição sociológica operavam segundo a concepção de que elas faziam parte da sociedade e deveriam passar por um processo de ensino para se conformar a ela. O conceito de socialização é chave, portanto, para se compreender essa concepção de infância, e deve ser entendido como um processo por meio do qual as regras sociais vão sendo ensinadas às crianças pelos adultos.
Essa abordagem da Sociologia tradicional enxerga as crianças como seres passivos que recebem influências e são moldadas pela sociedade, num processo claro de inculcação de regras e condutas, e envolve, segundo os autores mencionados, o “sucesso da transmissão de cultura de uma geração para outra” (JAMES; JENKS; PROUT, 2004, p. 23, tradução livre).
Entretanto, principalmente a partir dos últimos vinte anos, os estudos sociais da infância começaram a seguir outros rumos e se estabeleceram como um campo independente de estudos, com a denominada Sociologia da Infância. Jens Qvortrup, pesquisador
dinamarquês e referência na área, conta sua conclusão após iniciar a busca de dados sobre a infância para as suas pesquisas: “Eu me dei conta de que as crianças são o grupo invisível par excellence na nossa sociedade” (QVORTRUP, 1997, p. 88, tradução livre).
No ano de 1993, Qvortrup publicou um artigo essencial para o estabelecimento do campo, no qual se encontram as “nove teses sobre a infância como fenômeno social”. Nascimento, na apresentação da tradução desse artigo de Qvortrup para a língua portuguesa no Brasil, no ano de 2011, nos explica que:
O artigo apresenta teses que sustentam que as crianças são parte da sociedade e do mundo e que é possível e necessário conectar a infância às forças estruturais maiores, ampliando as condições para a pesquisa sociológica dessa categoria social. Argumenta, a partir de eventos e estudos que tendem a excluir as crianças de suas análises, que o foco no desenvolvimento infantil e na socialização tradicional dificultou o reconhecimento da infância como fenômeno social. Como conclusão, indica a necessidade de uma abordagem interdisciplinar para estabelecer relações entre a infância, como categoria, e as crianças, em suas vivências cotidianas; e para prover um quadro positivo ou negativo das condições de vida das crianças em geral, com vistas a compreendê-las como cidadãs (NASCIMENTO in QVORTRUP, 2011, p.200).
Sem que nos detenhamos em cada uma das teses, vamos aqui citá-las para ilustrar as ideias que fundamentaram os novos estudos sobre as crianças e sobre a infância a partir do campo da Sociologia da Infância:
1 - A infância é uma forma particular e distinta em qualquer estrutura social de sociedade; 2 - A infância não é uma fase de transição, mas categoria social permanente, do ponto de vista sociológico; 3 - A ideia de criança, em si mesma, é problemática, enquanto a infância é uma categoria variável histórica e intercultural; 4 - Infância é uma parte integrante da sociedade e de sua divisão de trabalho; 5 - As crianças são coconstrutoras da infância e da sociedade; 6 - A infância é, em princípio, exposta (econômica e institucionalmente) às mesmas forças sociais que os adultos, embora de modo particular; 7 - A dependência convencionada das crianças tem consequências para sua invisibilidade em descrições históricas e sociais, assim como para a sua autorização às decisões de bem-estar; 8 - Não os pais, mas a ideologia da família constitui uma barreira contra os interesses e o bem-estar das crianças; 9 - A infância é uma categoria minoritária clássica, objeto de tendências tanto marginalizadoras quanto paternalizadoras (QVORTRUP, 2011, p. 203-211).
Do ponto de vista dessa área, a infância faz parte da estrutura social, ela é uma categoria do tipo geracional, e isso define o lugar que as crianças ocupam na sociedade. Esse conceito, o de geração, é o estatuto metodológico fundamental da Sociologia da Infância, assim como classe social é fundante para as investigações sobre desigualdade social, gênero para a questão do domínio patriarcal e etnia para os estudos sobre raça e culturas.
Ao analisar o postulado de Qvortrup da infância como um fenômeno social, Corsaro afirma que:
A abordagem de Qvortrup à infância como um fenômeno social e sua ênfase nas crianças como coconstrutoras ativas de seus mundos sociais refletem uma mudança importante nas visões individualistas de socialização nas quais cada criança internaliza habilidades e conhecimentos adultos. Sua abordagem leva a uma melhor compreensão do lugar, interesse e importância na produção e manutenção cultural das crianças. As crianças não apenas contribuem ativamente para a cultura adulta e de sua própria infância de uma forma direta, no entanto. As crianças se apropriam criativamente das informações do mundo adulto para produzir sua própria cultura de pares (CORSARO, 2011, p. 52 e 53).
A Sociologia da Infância tem como princípio estruturante o paradigma da competência infantil, ou, como afirma Sarmento (2009, p. 22): “todas as crianças são competentes no que fazem, considerando a sua experiência e as suas oportunidades de vida, sendo que as suas áreas de competência são distintas das áreas de competência adulta”. Ainda de acordo com o autor, “é da ordem da diferença e não da grandeza, incompletude e imperfeição, que a Sociologia da Infância trata quando estabelece a distinção das crianças face aos adultos” (Ibidem, p. 22). Em outro texto de sua autoria, o autor discorre um pouco mais sobre essa ideia:
[...] a infância deve a sua diferença não à ausência de características (presumidamente) próprias do ser humano adulto, mas à presença de outras características distintivas que permitem que, para além de todas as distinções operadas pelo facto de pertencerem a diferentes classes sociais, ao gênero masculino ou feminino, seja qual for o espaço geográfico onde residem, à cultura de origem e etnia, todas as crianças do mundo tenham algo em comum.
Assim sendo, a infância não é a idade da não-fala: todas as crianças, desde
bebês, têm múltiplas linguagens (gestuais, corporais, plásticas e verbais) por que se expressam. A infância não é a idade da não-razão: para além da
racionalidade técnico-instrumental, hegemônica na sociedade industrial, outras racionalidades se constroem, designadamente nas interacções de crianças, com a incorporação de afectos, da fantasia e da vinculação ao real (SARMENTO, 2007, p. 35 e 36, grifos nossos).