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RÉMUNÉRATIONS VARIABLES VERSÉES AUX MEMBRES DU COMITÉ DE DIRECTION

Na seção anterior, vimos como a obrigatoriedade da escola na vida das crianças na atualidade levou à institucionalização da infância. Por outro lado, ao nos fornecer um quadro teórico para as pesquisas que trazem à tona o ponto de vista das crianças, a Sociologia da Infância nos mostra o “outro lado da moeda”. A ideia de crianças como atores sociais, com suas possibilidades de participação, com suas interpretações sobre o que os adultos pensam, fazem e como o fazem também no espaço escolar, nos mostra essa outra escola, pensada e vivida pela infância.

O que as crianças fazem na escola escapa ao controle dos adultos, porque enquanto pensamos que elas estão brincando, por exemplo, elas estão, na verdade, a construir a sua infância, seus modos próprios de fazê-la e vivê-la, notadamente nas relações que estabelecem principalmente com seus amigos e colegas. E é aí que elaboram suas interpretações para todos esses fatos e vivências, constroem as suas culturas de pares infantis. O que chamamos genericamente de “brincar” é, para as crianças, muito mais do que isso, assim como afirma a pesquisadora da infância Ferreira, a partir da análise de seus registros etnográficos do cotidiano de crianças em um jardim de infância na zona rural de Portugal:

[...] elas desenvolvem ações sociais entre si, nos momentos e espaços mais distantes do olhar e da intervenção direta da educadora. Estas ações das crianças revelam a coexistência de uma outra realidade social que, emergindo das suas interpretações acerca do seu mundo de vida, subjaz, fervilhante e intensa, à versão lisa e de superfície que, enquanto adultos, apenas reconhecemos como sendo brincar (FERREIRA, 2008, p. 145). […] o que sobressai das ações sociais entre crianças é um conjunto progressivamente organizado e sistematizado de valores e critérios próprios de saberes, de saberes-fazer, saberes-estar e saberes-sentir que, aprendidos e usados como conhecimentos e competências sociais para poderem participar no seu mundo social como crianças, são (re) produzidos num quadro de relações sociais locais, estável e durável. É neste processo de atribuição de significado à realidade e às relações sociais que se forja o patrimônio cultural inerente ao grupo de crianças, permitindo que se fale de culturas de pares infantis (Ibid., p. 146).

Se por um lado podemos pensar nas escolas como espaços criados pelos adultos para as crianças obrigatoriamente frenquentarem, por outro, e do ponto de vista das crianças, as pesquisas nos mostram que elas são também os espaços de construção social da infância. Tomando a perspectiva das crianças para empreender estudos sobre as pré-escolas suecas, e com base nas suas análises, Halldén (2005, p.3) afirmou que:

[…] embora seja uma instituição, a pré-escola não é um agente na institucionalização da infância das crianças, mas é muito mais uma arena onde elas são os agentes. A perspectiva da criança significa que sua vida cotidiana está em foco. No estudo das pré-escolas nesse projeto, nossa perspectiva não foi pedagógica; preferivelmente nossa perspectiva foi o envolvimento das crianças nas relações de pares e seus caminhos para construir uma cultura infantil. Isso significa que a instituição chamada pré- escola não pode ser entendida como sendo completamente controlada pelos profissionais que implementam o currículo. A instituição da pré-escola é uma arena onde as crianças são atores e seus modos de “fazer pré-escola” não têm o mesmo significado que têm para os professores e o corpo administrativo (tradução livre).

[...] A pré-escola é uma arena para a vida cotidiana das crianças e um lugar onde a infância moderna é vivida (Ibid., p. 4, tradução livre).

Essas pesquisas trazem, então, a dimensão que nós, educadores, com todo o nosso “adultocentrismo”, desconhecemos sobre essa “outra” escola. Isso reforça a necessidade de ficarmos mais atentos às crianças, e conhecer seus pontos de vista deve ser um desafio constante para o nosso trabalho, um ponto importantíssimo que deve estar na agenda da formação e dos estudos de todos os professores e em todos os contextos nos quais acontece a educação da infância.

A escola da pequena infância deve, de maneira ideal, atender às demandas verdadeiras das crianças e, sendo assim, poderia funcionar como um grande campo de pesquisas. Ao afirmar isso, não nos referimos às pesquisas acadêmicas, mas às investigações brincantes que as crianças fazem o tempo todo, e que seus professores poderiam fazer junto com elas, como mediadores, como instigadores.

Conviver em espaços de descobertas e de negociações seria, assim, uma oportunidade para os professores aprenderem a fazer música com as crianças, porque, para professores que não são músicos, o que fazem as crianças, como pensam e como elaboram seu conhecimento também pode ser um caminho a percorrer, igualmente para a construção do seu próprio conhecimento nesse campo. Se os professores não são músicos, as descobertas, as aprendizagens, os modos de tocar, de cantar, de explorar e de inventar podem ser vividos junto às crianças, podem ser, portanto, compartilhados.

Ao propor, neste estudo, trazer para a pesquisa de campo a cultura das meninas e meninos pequenos, o que eles também sabem fazer e como o fazem, isso não estava descontextualizado, antes era parte integrante de um trabalho junto às professoras que pôde acontecer de maneira mais sintonizada com as crianças, com seus pontos de vista, com seus modos de escuta e de expressão musical, porque:

A educação infantil é chamada a responder às necessidades decorrentes dos mundos complexos em que vivem as crianças, na sua diversidade e na sua alteridade. Trata-se de, sem modelos pré-formatados, atualizar a missão de sempre da educação infantil na mutável realidade social. Afirmar os direitos da criança como orientação política da educação infantil pode ser uma via segura de adequação à infância contemporânea (SARMENTO, 2013b, p. 8). Para Nascimento (2009), que estuda as relações entre a Sociologia da Infância e a educação infantil,

As aproximações entre a sociologia da infância e a educação infantil reconhecem a interdependência entre as gerações. Os mundos sociais da infância são construídos a partir dos mundos sociais dos adultos (pais, professores e mídia, principalmente). Esse reconhecimento faz pensar as instituições de educação infantil como “espaços das crianças”, termo retirado de Moss e Petrie (2002), locais que “estabelecem potencial para muitas possibilidades – pedagógicas, emocionais, culturais, sociais, morais, econômicas, políticas, físicas e estéticas” (p. 110). Fica aqui o desafio (NASCIMENTO, 2009, p. 35).

Neste estudo, tanto conceitualmente como na pesquisa de campo, acreditamos que esse desafio foi aceito. Seus resultados? Logo serão vistos, no capítulo que trata da parte mais viva da pesquisa, no encontro com as professoras, suas escolas e suas crianças, um pouco mais à frente.