Ao longo da leitura dos livros que compuseram o corpus do estudo, percebe-se como os
meios de transporte evoluíram facilitando a ligação entre os dois países e reduzindo distâncias
após o surgimento do avião. Antes disso, viagens em navios que duravam 20, 30 dias eram a
forma de conectar os dois continentes.
Antes de cruzar um oceano e passar dias em alto mar, o processo da despedida da terra
natal já era o marco inicial da viagem dos passageiros nos navios. Na época em que o Rio de
Janeiro ainda era a capital do Brasil, em seu porto, milhares de viajantes despediam-se usando
lenços brancos para acenar aos entes queridos que não puderam embarcar junto na viagem.
Gonçalves, autor do livro Roteiro de Portugal: A viagem da Embaixada Universitária “RUY
BARBOSA”, descreve como eram feitas estas despedidas, “pouco depois do almoço, dia 14 de
Agôsto de 1953, já de dentro do luxuoso transatlântico “Vera Cruz”, as nossas mãos se agitavam
acenando lenços brancos em despedida à bela capital do Brasil” (1954, p. 21).
Navios de várias nacionalidades ofereciam o transporte dos passageiros ligando os dois
países (Brasil a Portugal). Bandeiras como a francesa, inglesa, italiana, entre as de outros países,
eram hasteadas nos mastros, mostrando a nacionalidade dos navios. Bueno (1962), autor do livro
Pelos caminhos do mundo (Viagens), conta que nunca teve a oportunidade de viajar em um navio
português e que para ele não seria uma experiência muito positiva, afinal, não existiria a
impressão de estar viajando, uma vez que a língua falada é a mesma e os costumes parecidos. Ou
seja, o sentimento era de ainda estar em território brasileiro.
Nunca me foi dado viajar em navio português, mas não deve ser muito agradável, não
porque sejamos mal tratados, mas porque não se tem a impressão de estar viajando: a
língua é a mesma, os costumes idênticos, a mesa igual, dando-nos a impressão de ainda
estarmos no Brasil. Depois, os problemas são sempre os mesmos: política de Getúlio,
política de Salazar (Bueno, 1962, p.4).
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Engana-se quem pensa que os transatlânticos da época eram precários e pouco
confortáveis. Os navios contavam com grandes avanços tecnológicos como estações de rádio,
distribuição de jornais diários nos camarotes, ar condicionado, piloto automático, elevadores que
ligavam os diversos pavimentos dos navios, entre outras comodidades. Gonçalves, autor do livro
Roteiro de Portugal: A viagem da Embaixada Universitária "RUY BARBOSA", cita que todas
essas facilidades tornavam a viagem mais tranquila e cômoda, pois contavam com “radar com
alcance de 30 milhas, duas turbinas, com potência máxima de 25.500 CVE, desenvolvendo 20
nós, o colosso transatlântico encurtava a distância que nos separava de Lisbôa” (Gonçalves, 1954,
p. 22).
Figura 15- Transatlântico Vera Cruz76
Um marco para os passageiros dos navios era quando a linha do Equador era cruzada. Tal
feito era algo a ser celebrado pela tripulação, pois uma grande parte da viagem já havia sido
completada, passando-se agora para as águas no hemisfério norte. Outro momento que também
marcava a viagem era quando o navio passava por Fernando de Noronha, estado de Pernambuco,
devido à proximidade do arquipélago com a linha do Equador. Leite, autor do livro Episódios do
Exilio: Portugal e outras terras conta que, “quando o "Siqueira Campos" (navio para o qual
fomos transbordados em Recife) transpôs o farol que marca o extremo setentrional de Fernando
de Noronha, três apitos espaçados, longos e roucos, partindo de bordo, cortaram o silêncio da
76 Fonte: Gonçalves, D. d. C. (1954). Roteiro de Portugal: A viagem da Embaixada Universitária "RUY
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noite serena” (1938, p. 13). Graciotti, também narra sua experiência ao passar por estes pontos na
viagem, “a bordo do "Claude Bernard" (antes da linha do Equador, em qualquer ponto do
Atlântico) - Cá estou, meninos, no velho e antigo mare tenebrosum. Sei lá onde estou. Dizem que
deixamos à esquerda o Estado de Pernambuco” (1957, p. 17).
Figura 16- Cabine de comando do Claude Bernard77
A chegada de navio a Portugal era, na maioria das vezes, feita por Lisboa, cuja entrada
dava-se através do rio Tejo. Rosa narra que, “depois de percorridas 4.375 milhas o Curvello
fundeou ha cinco dias no amplo ádito do Téjo - como chamava Herculano ao ancoradouro de
Lisboa. Assisti, atento, á passagem da foz que é singularmente garrida” (1924, p.22). Vítima de
todos os tipos de problemas que o mau tempo durante a viagem poderia acometer a um
passageiro de navio, o autor Rio em seu livro Portugal D’Agora, conta o alívio ao chegar à terra
firme, “onde se rezara de joelhos pedindo a salvação, prazer da primeira imaginando o
desembarque e a terra firme - o transatlântico vagaroso cortava as aguas verdes do rio. - Já
estamos no Tejo?” (Rio, 1911, p.93). O autor Britto, do livro Portugal que eu vi, também fez a
77Fonte: Graciotti, M. (1957). Portugal: Crônicas de viagem para adultos e crianças. São Paulo: Editôra Clube do
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travessia do Atlântico por navio e desembarcou em Lisboa, “a 10 de Janeiro de 1928, obedecendo
aos desejos do Atheneu Commercial do Porto, que reclamava de mim uma conferencia sobre
assumptos brasileiros ligados a Portugal, embarquei no Poconé, o velho navio do Lloyd, com
destino a Lisboa” (1931, p. 1).
Para quem chegava a Portugal, os bondes ou carros elétricos eram uma ótima opção para
a deslocação em Lisboa, um serviço “de tal modo optimo que a população só delles se serve”
(Rio, 1911, p. 55). Rosa, autor de Por Amor de Portugal, tinha outra perspectiva em relação aos
carros elétricos, pois como o automóvel ainda não havia se democratizado pelo país, faltava-lhe o
bonde de 2ª classe a preço reduzido, para que não se misturassem “então, muito, os que andam
limpos e os que não andam limpos. Os educados guardam compostura e decência, respeitadores
do próximo; os não educados falam alto, empurram, ageitam-se, sem maior consideração pelos
visinhos” (Rosa, 1924, p. 32). Rosa, em visita ao Porto, sente-se desconfortável com a quantidade
de carros de bois que circulavam pela cidade, lamentando que “o Porto já não [fosse] para aquela
espécie de veículos, depois de conhecer o automóvel que vence todas as dificuldades, não suja as
ruas, nem dá o espetáculo que dão bois sem trato, nem limpeza” (1924, pp. 110-111).
Um fator que chamou a atenção de Rio era relacionado ao alto valor das passagens de
comboio dentro do próprio país. O autor compara o preço de viagens entre diferentes países e fica
impressionado com o valor que era praticado na época. “As passagens custam carissimo nas vias
ferreas portuguezas, quasi tão caras ou mais do que no Brasil. Um bilhete de ida e volta para o
Porto vale dez mil e tantos réis fortes” (Rio, 1911, p. 93). Entretanto, como constata o autor, não
se podia negar o conforto e o luxo que “os comboios esplêndidos e limpos, oferecem tôda
comodidade aos passageiros mais exigentes. Viajar no “foguete” de Lisboa ao Porto é delicioso, e
de uma rapidez surpreendente: em quatro horas, apenas, alcança-se o norte do país” (Lopes,
1956, p. 312).
Por fim, para aqueles que cruzaram o oceano por vias aéreas, a experiência da viagem é
algo muito melhor em relação ao tempo gasto. Viagens de 20 ou quase 30 dias em alto mar foram
encurtadas por 9 horas de voo entre Rio de Janeiro ou São Paulo até Lisboa. Além da
comodidade e rapidez, é interessante notar esta passagem do livro Portugal para Brasileiros,
onde o autor cita a extinta companhia aérea Panair que o transportou entre os dois países. “-Em
nome da Panair do Brasil cumprimento os senhores passageiros. Sou o comandante Carlos
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Swenson. Voaremos, sem escala, até o Aeroporto Portela de Sacavém, em Lisboa, a 12 mil
metros de altitude e 850 quilômetros horários” (Neves, 1965, p. 21). A antiga companhia aérea
inspirou algumas músicas
78no Brasil, incluindo uma interpretada por Elis Regina, "Saudade dos
Aviões da Panair (Conversando num Bar)", composta por Milton Nascimento e Fernando Brant.
Almeida (1971), autora de Passeio ao Alto Minho, conta que fez sua viagem pela TAP, “calma e
segura [...], num confortável avião da TAP. Também nos ares – pensamos nós - os portugueses
confirmam sua tradição de grandes navegadores” (Almeida, 1971, p. 10).
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SEARS CANADA : ÉTABLIR UNE RELATION DURABLE
(Page 29-32)