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Papier II: First measurements of the submillimeter Sunyaev-Zel’dovich effect

6.4 Simulations sur des amas r´eels

A utilização do termo “elite”, se por um lado pressupõe um grupo específico de sujeitos, por outro lado suscita mais incertezas do que definições. A leitura desta palavra nos remete à ideia de uma classe, mas que classe seria esta? Quais os sujeitos estão implicitamente inclusos quando nos valemos da palavra “elite”? Para esclarecer estas questões, nos apropriamos do artigo de Gisele Leite5, no qual estes

conceitos são vistos pelo viés epistemológico e nos permitiu esboçar algumas considerações. Antes de adentrar nestes conceitos, julgamos pertinente trazer nossa compreensão de “classe social”, a que nos referimos para o entendimento de “elite”. Para trabalhar este conceito de “Classe social”, nos apropriamos das reflexões de Adriano Codato e Fernando Leite (2013), que apontam quatro princípios sociológicos essenciais para a compreensão do conceito de classe social. O primeiro deles determina que as diferentes posições sociais devem ser pensadas em conjunto, vez que uma posição não existe sem a outra; é desta relação entre as diferentes posições que surge a ideia de relações sociais ou sistema de relações sociais: a sociedade é um sistema de relações, não uma soma de posições individuais. O segundo identifica que essas posições/relações sociais formam uma estrutura, denominada “estrutura social”. Embora constituída por indivíduos, grupos, classes (os agentes sociais), tais relações ocorrem independente da “vontade” desses agentes.

Estas posições embora sejam exteriores aos indivíduos, influenciam sua forma de pensar e agir. O terceiro defende que a estrutura social comporta uma série de assimetrias e hierarquias, que fazem o espaço social ser um espaço de lutas. E o quarto, especifica que se os agentes sociais partilham da mesma posição social, devem ter algo em comum, e este constitui uma “classe”. Em síntese, ao colocar que a elite estudada pertence a uma “classe social”, dizemos que esta possui elementos em comum que mantém os agentes sociais de forma coesa, compondo esta classe; as posições que as várias classes sociais ocupam são exteriores aos indivíduos, mas influenciam sua postura individual; para que esta classe exista é fundamental a existência de outras, com as quais se relaciona; e finalmente, no caso da elite, ao

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falarmos em “estratificação social” posicionamos a elite numa classe social que detém uma situação de destaque – seja este destaque econômico, político ou intelectual.

Retomamos agora o que entendemos com o termo “elite”. Em toda sociedade existe sempre uma minoria detentora do poder em oposição a uma maioria que dele está privada. Dentre todas as formas de poder, são, sobretudo, os poderes econômico, ideológico e político que perfazem a diferença entre as elites e o restante da população. Para compreender este fenômeno, surgiu a teoria das elites, que se desenvolveu pela especial relação mantida entre as elites políticas e o Estado. Partindo de uma retrospectiva histórica, Leite (2011) esboça uma síntese-conceito de “elite”, a partir da qual delimitamos o que entendemos por elite nesta pesquisa. Em linhas gerais, segundo Leite (2011), os fatores que determinam a teoria das elites são os seguintes: em toda sociedade organizada as relações entre indivíduos e grupos são desiguais; a causa da desigualdade está na desigual distribuição de poder e sua concentração num grupo restrito de pessoas; entre as várias formas de poder, o mais determinante é o poder político; a classe política é sempre a minoria; a dominação se pauta nos interesses comuns da classe política e sua solidariedade permite a manutenção da situação; um regime se diferencia do outro com base na formação das elites e sua evolução, decadência e como exercem o poder; o elemento oposto à elite é a massa, conjunto de pessoas que não detêm o poder, ou não o têm de forma relevante. São numericamente a maioria, mas não são organizados, e estão a serviço da classe dominante.

Para efeito desta pesquisa, entendemos como elite um grupo restrito de pessoas que detêm poder em contrapartida de uma maioria, que não o possui total ou parcialmente; este poder a princípio é político, mas não descartamos as formas de poder econômico e intelectual (sobretudo porque identificamos sobreposições entre estas); esta minoria se une e trabalha em cooperação a partir de um interesse comum, ainda que haja frequentemente divergências internas à própria elite; como contraponto à elite, existe a maioria da população, que se encontra a serviço ou subordinada a esta elite bem como, às vezes, a ela se opõe. O estudo a que nos propomos demonstrará que, no período determinado para esta pesquisa (1822-1889), existiu de fato um grupo social que se constituiu numa elite, e é a percepção desta elite sobre a cidade potiguar que nos interessará sobremaneira.

É importante agora, tecermos rápidas considerações sobre a formação dos Presidentes de Província, principal personagem investigado nesta tese. Embora o Brasil fosse um Império, e houvesse implantado escolas para formação de bacharéis (São Paulo e Pernambuco), estas escolas só conseguem repercussão efetiva no Brasil após alguns anos e, sobretudo, na medida em que estas escolas começam a ter real

credibilidade perante a elite brasileira (as famílias ainda enviavam seus filhos a Europa). Enquanto esta consolidação das escolas brasileiras não ocorria, identificamos quais eram estes primeiros centros de formação da elite no Brasil:

A maior parte dos políticos brasileiros da primeira metade do século XIX estudou em Coimbra [...]. Ao lado da Universidade de Coimbra, duas outras instituições de ensino foram importantes para a formação da elite brasileira, a Real Academia de Marinha e o Colégio dos Nobres. Ambas destinavam-se à formação militar dos nobres. [...]. Mas as escolas [no Brasil] dedicadas explicitamente à formação da elite política só surgiram após a Independência. Trata-se dos dois cursos de direito criados em 1827 e iniciados em 1828, um na cidade de São Paulo, outro em Olinda, transferido em 1854 para Recife. Além desses, uma Escola de Farmácia foi criada em Ouro Preto em 1839 [...]. Os filhos de famílias de recursos, que podiam aspirar a uma educação superior, iniciavam a formação com tutores particulares, passavam depois por algum liceu, seminário ou, preferencialmente, pelo Pedro II, e afinal iam para a Europa ou escolhiam entre as quatro escolas de direito e medicina. As quatro cobravam anuidades e seus cursos duravam de cinco anos (direito) e seis anos (medicina) (CARVALHO, 1996, p. 59, 64-65).

Vez que eram poucas (e caras) as escolas que formavam os políticos brasileiros, e estas só iniciaram após a Independência, temos a situação de uma elite intelectual muito reduzida (quase sempre ligada à elite econômica). Outra caraterística da elite brasileira da época foi certa homogeneidade, em consequência da formação sempre nas mesmas escolas, compactuando com as mesmas teorias e conteúdos. Segundo o organograma teórico estabelecido para essa pesquisa, a elite potiguar, particularmente os Presidentes dá província, percebiam a realidade potiguar - inclusive e principalmente a cidade potiguar - ora apreendendo essa realidade, isto é, a descrevendo e criticando, ora intervindo nessa realidade, ou seja, propondo visões e projetos para sua melhoria, que podiam ou não se realizar na prática. Essa apreensão e intervenção ocorriam conforme sua vivência e experiência, tomando frequentemente como fontes de inspiração outras realidades conhecidas ou idealizadas. Em sendo uma província de “menor importância” para o Império, os Presidentes que eram destinados ao governo do RN (e outras províncias periféricas), em geral, consistiam em pessoas recém-iniciadas na política do império. Se por um lado, esta experiência gerava uma expectativa pelo bom desempenho do novo Presidente, por outro lado, este se via engessado em suas tentativas e projetos de intervenção e mais ainda na concretização destas, principalmente pela falta de recursos locais, mas também por outros fatores, como a falta de mão-de-obra especializada em várias áreas, pela indiferença ou inércia dos próprios membros do poder público, entre outros.

1.3.2 O Conceito de Percepção e Instrumentos de Análise Textual