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1. Remarques importantes

1.1 Signification des symboles utilisés

Na cidade os tempos multiplicam-se e cruzam-se de formas diversas e, por vezes, contraditórias. Todas as cidades são diferentes e possuem formas distintas de administrar tanto o espaço, como o tempo dos seus habitantes, residentes, não residentes e estrangeiros. Pode-se falar-se na existência simultânea de várias configurações do tempo na cidade: umas baseadas nas articulações entre tempos de trabalho e tempos livres; outras baseadas nas articulações em tempos ocupados e não ocupados; e ainda outras baseadas nas articulações entre horizontes do passado, presente e futuro. Cada uma destas articulações tem presenças e formas de expressão diferenciadas, conforme os contornos e os valores em redor dos quais mais se organizam as

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identidades, as políticas e os poderes que, material e discursivamente, ditam formas de apropriação do espaço e de administração do tempo.

Na Sociologia e na Geografia estas configurações podem receber o nome de cronotopos (tempo- espaço) definíveis a partir de diversas dimensões, tal como afirma Schaick (2009:4): “according to a limited amount of time (e.g. 24 hours, week, season) in which a mixed and layered presence of populations is distributed over time and space; according to the degree in which it attracts different groups of people to perform specific activities bounded by the available place and time for these activities; according to mobility characteristics and the physical form of the chronotope supporting different types of mobility and immobility, such as the promenade, the transfer point, the traverse, a row of benches to sit down, etc”.

As actividades predominantes nas cidades formam o núcleo duro da determinação das restantes articulações temporais, definindo um ritmo geral de vida, em torno do qual se espera que os tempos individuais (dos indivíduos, dos grupos, das famílias) se ajustem, de modo integrado. Mas esta integração, é apenas aparente no contexto da própria definição de cidade cada vez mais organizada através de transacções electrónicas, materialmente efectivas, sensoriais e experimentadas.

A maior parte das cidades cresceu e desenvolveu-se mediante a instalação e da satisfação dos tempos das actividades, dos serviços e dos afazeres, ou mesmo do lazer “ocupado”, da fixidez dos tempos de descanso e da sua cadência estruturada. Mas todos estes tempos convivem com os seus antónimos: os tempos da não actividade, da abundância obrigada de tempo livre, da ausência de lazer “ocupado” e da pluralidade e emergência dos tempos de descanso e dos próprios tempos de lazer (emergência que acompanha, quase sempre, a própria construção diária do espaço destinado a esse tempo).

Á medida que se expandiram, as cidades, espaços conotados com criação de cultura, significação e civilização, enclausuram, pela ação da política, a diversidade de tempos: marginalizando uns (tempos de recolha, tempos de doença, tempos dos pedintes, tempos de trabalho socialmente menos prestigiantes), engavetando outros (tempos de prostituição, tempos de desporto, tempos de tráfico) e definindo outros como padrão (tempos de trabalho, tempos de aprendizagem, tempos de lazer, tempos familiares, horários nobres).

Vários trabalhos na área da sociologia urbana documentam fenómenos de exclusão, marginalização e de segregação que acontecem não só no espaço, como no tempo (Souza et al, 1999). Há vários locais nas grandes cidades que são “autorizados” a certos tipos de população, conforme a hora do dia e a estação do ano (por exemplo, certos espaços são mercados durante o dia e à noite lugares de prostituição e tráfico de droga; há locais que são passagens durante o dia e abrigos de certas populações migrantes durante a noite). Há locais na cidade que, dependendo da hora do dia, são “invadidos” e apropriados por populações distintas para actividades distintas, umas legais outras clandestinas (por exemplo, as estações de comboio na generalidade das cidades).

De alguma forma, o mesmo processo de crescimento das cidades condiz com as maiores ou menores possibilidades dos indivíduos se posicionarem face a esse ritmo dominante, face a essa temporalidade estandardizada, ficando mais ou menos beneficiários do “acesso” para a satisfação das necessidades.

Mas, se existem tempos marginais, escondidos e menorizados na cidade que acontecem, ou só podem acontecer, quando os tempos integrados, condizentes com os ritmos dominantes acabam, também é certo que existem outros tempos simplesmente paralelos, ritmos definidos pela sazonalidade de eventos do tempo sagrado e profano: por exemplo, aos tempos das festividades e celebrações.

Não existe uma única semiótica do espaço ou uma única linguagem universal do tempo. Não obstante, a organização do espaço e dos usos do tempo pode “definir relações entre pessoas, actividades, coisas e conceitos” (Harvey, 2001: 199). A cidade integra um mosaico de tempo (Harvey, 2001), mas o progresso e o impulso de mudança constantes que a ela se impõem, contrastam, por vezes, com os seus ritmos cíclicos e repetitivos – aqueles que orientam o quotidiano dos seus habitantes (do despertador, do café da manhã, da ida ao trabalho, da escola, das férias, etc.) e que lhes oferecem uma sensação de segurança.

A política de tempos tem particularmente em conta estes tempos e os seus ajustes. 3. A política de tempos: plano quotidiano

A "política de tempos" é definida como um conjunto de princípios e de acções que implicam diretamente os actores políticos e governos - a nível nacional, regional e local. Em geral, a "política de tempos" sugere a necessidade de investimento da parte dos governos em dimensões como os

transportes, os horários de escolas e de organismos culturais, das organizações de trabalho, das famílias e dos indivíduos. Envolve, por isso, elementos sociais e políticos mas também culturais e estruturais e normalmente implica intervenções e mudanças nos modelos de organização e de satisfação das necessidades das populações, assim como mudanças nos sistemas de valores e nos padrões de comportamento e de apropriação do espaço da cidade.

Tem-se realizado desde os anos noventa intervenções dirigidas aos tempos das cidades e nas cidades, nelas sendo contemplados os tempos e as necessidades das populações, assim como as possibilidades de intervenção da parte dos governos locais, empresas e entidades empregadoras em geral.

Estes programas de intervenção que, em detalhe, verificam a sincronização e a correspondência entre as possibilidades de tempo das famílias e as ofertas existentes e tentam superá-las com recurso a medidas criativas que podem implicar ou não a própria comunidade, estão assentes em diagnósticos elaborados e exaustivos normalmente orientados pelas autarquias locais, em conjunto com outras entidades dos governos regionais. Exemplos destes processos estão em várias cidades da Europa. Destaque-se a cidade de Lyon (projeto espaces des temps) onde a organização dos fluxos e transações na cidade dependem da integração do tempo como elemento que contribui para a qualidade de vida das populações. Nesta cidade, os horários das actividades e das organizações, assim como a participação das populações (ateliers de diálogo urbano) constituem dois pontos relevantes (Schaick, 2009). Refira-se ainda os casos de várias cidades italianas, tais como Turim, Milão e Pesaro. Em todas, os representantes políticos locais, juntamente com representantes de associações e a população participaram ativamente na definição de planos de administração e regulação do tempo.

A Itália é, aliás, um país pioneiro nos estudos e nas intervenções sobre os tempos das cidades (Paolucci, 1998; Belloni, 2007). Estudos que, além de propor a intervenção de políticos e de profissionais na área do planeamento e território, vincaram a necessidade de incluir na construção das cidades uma política desejável para as famílias, orientadas para a existência de espaços públicos destinados à participação cívica e cultural e também destinados ao lazer. De forma a gerar na cidade o cruzamento benéfico de ritmos, estas intervenções têm em conta a análise de diversas variáveis, entre as quais a idade e o sexo das populações, a actividade profissional, as taxas de natalidade e o número de crianças (Mareggi, 2000) e ambicionam reduzir os tempos gastos e perdidos na cidade (Bossi et al, 2010).

As várias dimensões da política de tempos que enunciámos são especialmente de foro sociológico. Referem-se a modelos de organização social e atendem a formas criativas de regular o tempo, aumentando as alternativas e as escolhas das populações. Além da planificação urbana propriamente dita, outros exemplos desta criatividade são a abertura das bibliotecas públicas ao fim de semana, ou dos museus e de outros equipamentos culturais ao fim da tarde e noite. São também demonstrações a instalação dos centros que oferecem serviços às famílias relacionados com compras, cuidados a crianças e a dependentes durante o tempo de trabalho. Incluem-se ainda os bancos do tempo geridos por várias associações e identidades (por exemplo, condóminos). Um dos eixos da política de tempos abrange, aliás, a gestão dos padrões de uso e gasto de recursos naturais escassos, como a água e outros.

A definição dos caminhos turísticos, que se intersecta com o ritmo das actividades da cidade, inclui a dimensão da gestão do tempo despendido, vivido e percebido por parte dos sujeitos em mobilidade.

A política de tempos, de modo muito ilustrativo apenas, implica ainda a disposição do tempo histórico no espaço da cidade e a criação de significações e de constructos simbólicos com poder na configuração identitária e na construção da imagem da cidade por parte dos estrangeiros, dos turistas, dos não habitantes.