A par do grande evento da Porto 2001 aconteceram obras de renovação urbana que transformaram a baixa num “estaleiro”. As praças e ruas revolvidas em pleno evento não permitiram associar o acontecimento cultural à efectiva regeneração urbana, pelo contrário, foram um entrave à recepção dos visitantes e motivo de revolta para os habitantes. Apesar de algumas intervenções ainda estarem por terminar em 2002, a cidade do Porto desde essa altura que dispõe de vários equipamentos culturais com condições espaciais para apropriações diversas e movimentos de “retorno”. Esta regeneração urbana que no decorrer da Porto 2001 provocou até o encerramento de estabelecimentos comerciais, começa agora a dar frutos quer em termos económicos, quer ao nível cultural. Os novos espaços que se têm vindo a juntar ao comércio tradicional que conseguiu resistir, acarretam uma nova dinâmica económica para a cidade, e consequentemente, conquistam um lugar especial na oferta de programação cultural da cidade. Uma das razões pelo qual se dá esta transformação relaciona-se com o papel desempenhado pela Porto Vivo – Sociedade de Reabilitação Urbana, cujos incentivos proporcionou a recuperação de vários quarteirões da cidade do Porto.
Se hoje olharmos para a Rua Galeria de Paris, cujo comércio característico antes das obras já é quase inexistente, deparamo-nos com uma nova dinâmica comercial. Nesta rua encontrávamos o estabelecimento Euro-Meia, O Gomes e Pestana, e a Fábrica Armazém Cunha, além destes havia a livraria Casa do Livro e o antigo Hospital Privado dos Clérigos. Deste tempo resistiram apenas o
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O ponto 4 utiliza na íntegra texto da tese de mestrado de Márcia Clara Castro Pinto, intitulada Economia Criativa: Centros Cosmopolitas de Cultura na Cidade do Porto, orientada por Paulo Castro Seixas e apresentada na Universidade Fernando Pessoa em 2011 (Mestrado em Programação Cultural, Arte e Intervenção Social)
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café Portinho e o Itaipú que tiveram de alargar o horário e adaptar-se a este novo ciclo. Isto porque a partir de 2008, os espaços que se fecharam foram ocupados por bares e cafés, nomeadamente, pelo Galeria de Paris, Café au Lait e La Bohéme. A livraria Casa do Livro é substituída por um bar com o mesmo nome, e a partir de Junho de 2010, dá lugar ao Club More. No caso da Rua Cândido dos Reis, dá-se a abertura do bar Plano B e a este juntaram-se em 2008 o 3C - Clérigus Café Club e o Twins da Baixa. Em simultâneo, surgem lojas como A Vida Portuguesa, a Cooperativa Cultural Gesto, Mazzanine e Take Me conferindo um ar contemporâneo às outras lojas envolventes, como a Marques Soares, Biblioteca Musical e Coimbra Editora. Mais abaixo encontramos a Rua do Almada, cuja regeneração foi parcial e onde se reflecte um estilo comercial próprio através da venda de produtos, acessórios e vestuário vintage. Aqui somos convidados a viajar ao passado ao entrar em lojas como a Louie Louie e a Retro Paradise. Por sua vez, o “quarteirão do Piolho” constituído pela Praça dos Leões, Praça Parada Leitão e Largo do Professor Abel Salazar vê a celebração do espaço público, passando a zona interdita à circulação automóvel, conquistando praças renovadas e a criação de esplanadas que convidam à permanência e fruição do espaço público. A afluência de jovens estudantes universitários tem sido fenómeno de registo, especialmente, porque cerca de 1000 são oriundos de outras nacionalidades e têm mantido uma presença assídua nesta zona (a ‘cidade erasmus’ com renovação semestral e anual). O quarteirão de Miguel Bombarda, conhecido pelas galerias de arte, lança-se recentemente num programa de inaugurações “Simultâneas” ao sábado de dois em dois meses, reivindicando o seu público neste dia. Além desta iniciativa, inauguraram a 21 de Janeiro de 2012 o Bairro das Artes Circuit que pretende mudar a forma como todas as pessoas vivem aquela zona da baixa, transformando-a numa espécie de “nova aldeia”, com actividades tão variadas como aulas de ioga ou concertos de ópera. O “bairro” abrange sete ruas no chamado Quarteirão das Artes: Miguel Bombarda, do Breyner, da Maternidade, do Rosário, Adolfo Casais Monteiro, da Boa Nova e de D. Manuel II e o Largo da Maternidade.
Figura 1. OS CCC - Maus Hábitos e Contagiarte - no Porto Criativo
A – MAUS HÁBITOS - Rua Passos Manuel, 178
B – PITCH - Rua Passos Manuel, 34 C – RETROPARADISE – Rua do Almada, 561
D – Rua dos Clérigos
E - TWIN’S - Rua Cândido dos Reis, 12
F – PLANO B - Rua Galeria de Paris, 30
G – Praça dos Leões
H – CAFÉ PIOLHO - Praça Parada Leitão, 45
I - BAIRRO DAS ARTES CIRCUIT - Miguel Bombarda
J – Rua do Breiner
L - CONTAGIARTE – Rua Álvares Cabral, 372
Fonte: mapa elaborado por Márcia Pinto
O Maus Hábitos embarcou nesta dinâmica cultural em 2001, aquando da inauguração da Porto 2001, que embora não visse os seus projectos serem contemplados na programação do grande evento, este impulsionou a sua actividade. Através do contacto com diversos artistas nacionais e internacionais foi possível apresentar uma programação autónoma e diversificada. Em 2009 vê juntar-se na mesma rua o Pitch e juntamente com o Passos Manuel promovem num sábado por mês as noites “Alta Baixa”. O Contagiarte começou por apresentar-se como associação cultural “Ácaro” em 2001, não deixando escapar a oportunidade do Porto, Capital da Cultura. No entanto, enquanto espaço aberto ao público só aparece em 2003 e, apesar de não ter visto ainda o seu quarteirão ser alvo de iniciativas de requalificação urbana, adaptou o edifício à sua missão e respectiva programação.
O Contagiarte e o Maus Hábitos são os espaços culturais transdisciplinares eleitos para este estudo, quer pela sua presença ao nível da oferta cultural, quer pela dinâmica criada enquanto intermediários socioculturais na construção de cidade.
Figura 2, 3 e 4. Rua Galeria de Paris, Maus Hábitos e Contagirte
Foto de Márcia Pinto Foto de Márcia Pinto Foto de Paulo C. Seixas
Os centros Cosmopolitas de Cultura foram analisados em três dimensões: histórica, contextual e, especificamente, de Intermediação Cultural.
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