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7. Nettoyage et entretien

7.1 Programmes de nettoyage

Inicialmente a cultura foi considerada como um factor de competitividade nas estratégias de desenvolvimento regional, local e urbano. No domínio do marketing territorial, a sua função passava essencialmente por captar turistas e investimento nacional e internacional. Por sua vez, a interpenetração da cultura na economia alcançou resultados cada vez mais relevantes na forma como os conteúdos culturais moldam a produção, distribuição e consumo de bens e serviços económicos. No contexto desta nova era criativa, os Centros Cosmopolitas de Cultura devem ser analisados como lugares em que a economia da cultura se cruza com a cidade. Estes espaços contribuem para a reconfiguração urbana através da criação de novas dinâmicas culturais no espaço público.

Na cidade do Porto encontramos dois Centros Cosmopolitas de Cultura: o Contagiarte e o Maus Hábitos, espaços culturais transdisciplinares de intermediação cultural. Como vimos, a origem destes projectos coincide com o ano do grande evento Porto 2001 Capital Europeia da Cultura. A visibilidade e notoriedade lançada pelo grande evento na área das artes possibilitaram a criação de uma programação cultural independente, onde a transdisciplinaridade é uma das principais características. Esta oportunidade aliada à vontade de promoção de artistas e respectivas obras fomenta a produção de projectos culturais e a divulgação dos mesmos nos CCC. Nesta altura o Maus Hábitos apresenta várias iniciativas culturais que, apesar de não estarem integradas na programação da Porto 2001, funcionam como uma programação autónoma atraindo públicos e conquistando massa crítica. Como que numa contra-corrente perante espaços culturais institucionais e com programação cultural definida por valores de serviço público, surgem os CCC com linhas orientadoras em que a “ausência” de critérios é a chave para a criação e promoção da arte e da cultura. Mas, serve principalmente para a criação de um ambiente urbano de resistência à cadeia de distribuição de cultura em massa e de combate à instrumentalização da cultura para fins unicamente económicos. Com a criação dos CCC constituem-se equipas de profissionais criativos ligados a várias áreas, domínios e contextos potenciando a criação de emprego e crescimento económico para a cidade. Estes profissionais desempenham um papel importante ao nível da intermediação cultural, cuja proximidade aos artistas os distingue como profissionais privilegiados de mediação entre a criação/produção e a recepção/consumo da cultura. Ao nível da

criação proporcionam condições técnicas, humanas e financeiras que sustentam a liberdade da produção de obras. Por outro lado, os intermediários culturais dos CCC estabelecem a ligação entre os artistas e o público criando condições para a recepção e fruição cultural da obra.

O recurso ao acolhimento artístico, entre outro tipo de projectos, apresenta-se como uma estratégia própria para que os CCC ofereçam uma programação alheia às lógicas do consumo em massa. A transdisciplinaridade com recurso a linguagens translocais resulta em espaços culturais híbridos modelando ambientes que estimulam a troca de ideias, e a valorização do espaço multicultural e cosmopolita. Como resultado de um vazio cultural nos anos seguintes ao evento Porto 2001, a Ácaro – Associação Cultural ligada especialmente ao teatro abre um espaço ao público designado por Contagiarte. Já nessa altura entenderam que as opções programáticas não deveriam ser exclusivamente dedicadas ao teatro, mas a áreas diversas como a dança, a música, as artes plásticas, entre outras. O principal objectivo dos CCC relacionam-se com a promoção da arte em geral, porém, a necessidade de formar públicos assume-se como principal missão. Neste sentido, os CCC transformam-se em lugares de experimentação e de formação cultural direccionada para artistas, mas sobretudo abertos ao público em geral. Os CCC são espaços em que o público não só usufrui enquanto espectador, aliás ele é participante e faz parte do conceito do projecto. Deste conceito dos CCC, o público emerge na experiência criativa resultando na fusão da criação e fruição cultural. É possível concluir que os CCC ocupam um papel relevante como intermediários culturais dando o seu contributo na construção de cidade e no desenvolvimento da economia criativa. A autonomia e independência na definição das linhas orientadoras de programação cultural são garantidas pelo recurso a actividades de índole comercial necessárias à sustentabilidade destes projectos. No entanto, este tipo de actividades enquadra-se na missão principal do conceito dos CCC, uma vez que, são fundamentais ao nível da captação de públicos. Os resultados desta investigação propõem a continuação da pesquisa e a realização de estudos sobre os CCC da cidade do Porto em comparação com outros projectos, nomeadamente, o Lx Factory e a Galeria Zé dos Bois em Lisboa. Podemos mesmo concluir que a intermediação cultural dos CCC, em função da sua filosofia, deveria apostar em programas culturais em rede, locais, regionais, nacionais e internacionais. Aliás, os CCC enquanto elementos centrais na cidade do Porto, encontram-se em conformidade com diversos projectos criados em Berlim e em Paris, como por exemplo, o Point Ephémère. Estes centros cosmopolitas de cultura representam o cruzamento das artes e dos seus protagonistas: criadores, intermediários e público. 4. Uma nova tradução cultural da cidade-região?

Lewis Munford (1991) coloca a hipótese da cidade ter existido antes da cidade, em centros de reunião e convivência social de estranhos, como as aldeias, os cemitérios, os santuários, etc. Foi, porventura, a reunião desses centros num espaço específico que deu origem ao que viémos a chamar cidade. Mark Gottdiener (no prelo), por seu lado, propõe que uma ‘Multi-Centered Metro Region’ (MMR), ou seja, a região metropolitana polinucleada que caracteriza o século XXI, implica exactamente o centro como tematização e a tematização como mecanismo de produção de centros e competição entre centralidades. Ou seja, todos os equipamentos (residenciais, de negócios, de lazer) se apresentam como centros e a tematização é o próprio processo de produção de tais centralidades. Para Gottdiener nestas novas regiões urbanas, os centros comerciais e os aeroportos (e, por vezes, os espaços híbridos criados pela junção dos dois) competem em centralidade com o centro histórico (a city). No entanto, talvez possamos ir mais longe. Concordando com Gottdiener no sentido de afirmar que estamos perante uma nova forma urbana, será que os diferentes centros que a cidade criou na segunda metade do século XX, o centro histórico, o centro de negócios, o centro comercial, o interface ferro-rodo-metropolitano e o centro de lazer (os parques) não se estarão a conjugar na região urbana polinucleada do século XXI? É neste quadro que queremos deixar algumas questões de investigação ainda centradas nos CCC. Não serão estes Centros Culturais – que têm a sua base em organizações específicas mas que são incompreensíveis se não se tiver em conta um contexto de centralidade cultural urbana que ajudam a criar e em que se movem e ganham sentido – o lugar de mais uma centralidade regional urbana em ação? Mas não serão mais que isso? Não serão eles uma forma de leitura dessas diferentes centralidades em conjunção? Os CCC constituem-se como lugares onde vamos passar tempo; vamos encontrarmo-nos com amigos ou com estranhos; tratamos de negócios; divertimo-nos em família; vamos comer; ver ou participar em situações artísticas…Enfim, são lugares que propõem a viagem ou o tornarmo-nos viajantes nessas inúmeras possibilidades. O facto, ainda, de proporem cada indivíduo como um “prossumidor” e um “consumactor” de cultura numa mesclagem de géneros sempre em dinâmica criativa parece colocar o indivíduo-em-

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contínua-tradução num mundo-em-contínua-tradução como nova centralidade imaterial identitária e de construção da cidadania glocal.

Não serão, então, estes espaços a tradução cultural da cidade contemporânea?, já não da cidade moderna e da sua praça ao redor da qual se conjugavam as diferentes centraldiades tradicionais, mas da cidade-região do século XXI na sua relação com outras cidades-regiões numa quadro de arquipélago urbano planetário. Os CCC podem bem ser uma metáfora da região urbana polinucleada e de como os diferentes centros funcionais se sobrepõem como territórios cognitivos para cada um de nós. A viagem e a tradução são metáforas centrais da segunda metade do século XX e do século XXI. Torna-se necessário traduzir e voltar a traduzir toda a diferença que produzimos. Traduzirmos ao longo da viagem é a única maneira de tentar saber para onde vamos. E, no entanto, sabemos que nos vamos perdendo cada vez que traduzimos. Por isso é preciso interesse, atenção e, ao mesmo tempo, aceitar a reserva, a simples desatenção ou a ironia. Os CCC parecem apresentar-se no quadro desse jogo e, assim, colocamos a hipótese de serem a tradução cultural de novas centralidades contemporâneas, quer imateriais e materiais: a identidade peregrina do indivíduo-em-tradução na cidade-região polinucleada no quadro de um mundo-em-tradução num arquipélago urbano planetário.

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RECICLAGEM URBANA. GERIR O PASSADO COMO ACTIVO ECONÓMICO-