Bourdieu, segundo Wacquant (2013), na maioria de suas publicações aborda aspectos de classe. A partir do ano de 1992, suas reflexões procuram compreender a formação de classes a partir das lutas simbólicas. Para Catani (2011) Bourdieu foi um lutador, pois construiu durante sua carreira de intelectual, uma sociologia em que problematiza concretamente a dominação nas sociedades hierarquicamente organizadas em classes sociais e os mecanismos pelos quais ela se perpetua e invisivelmente opera na construção dos saberes e regras nas relações de dominação e poder. O referido autor, cita seu colaborador de investigações Wacquant, por este ter se referido a sociologia de Bourdieu como uma ímpar contribuição a ―construção de uma antropologia generativa dos poderes focada na contribuição especial que as formas simbólicas dão à respectiva operação, conversão e naturalização‖.
[…] Bourdieu foi um lutador incansável. o longo de 45 anos, desenvolveu uma sociologia em que se estuda 'a lógica da dominação social nas sociedades de classe e os mecanismos pelos quais ela se disfarça e se perpetua, procurando extrair os princípios que regem esta lógica a partir de análises concretas' (Catani, 2007, p. 74). Ou, nas palavras de seu amigo e colaborador, Loïc Wacquant, talvez a principal contribuição da sociologia de Bourdieu foi a construção de 'uma antropologia generativa dos poderes focada na contribuição especial que as formas simbólicas dão à respectiva operação, conversão e naturalização' (Wacquant, 2007, p. 308). (CATANI, 2011. p. 190).
Bourdieu aponta que as estruturas simbólicas têm poder de constituir classes ao mesmo tempo que são instrumentos de classe para manter a dominação. Por este ponto de vista, as desigualdades sociais são compreendidas pelas relações materiais e simbólicas de poder, ou seja, pela posição social objetiva – espaço de constrangimento estrutural - que as pessoas ocupam no mundo social em relação aos outros e pelos esquemas mentais de percepção e apreciação incorporados. A posição que um indivíduo ocupa, entre dominantes e dominados, determina a percepção, a ação e as incorporações que realiza que, por sua vez, constroem internamente o mundo vivido. O entendimento da formação de classes passaria por compreender esta relação entre as estruturas sociais e cognitivas, ou seja, das posições e das disposições adquiridas e encarnadas - ―da qual a prática deriva‖ (WACQUANT, 2013).
Embora não se possa falar de uma teoria Bourdesiana propriamente sobre festas, e reconhecidamente não há um texto específico do autor sobre o tema, sustentamos que a sua produção teórica sobre o Simbólico e Espaço Social, utilizada na análise de outros temas aos quais Bourdieu se dedicou, a exemplo do campo das artes, da ciência e da política, servirá de ponto de partida para a análise das festas das sementes crioulas do sul do Brasil. Embora se saiba das ponderações necessárias devidas ao contexto e ao momento histórico francês que forjaram tais conceitos, ou seja, no estudo das estruturas que reproduzem a ordem vigente, suas análises permitirão objetivar as festas em sentido inverso, ou seja, como instrumento (formas simbólicas) de contestação ou de desnaturalização do poder estabelecido e reproduzido, ou seja, como movimento contra hegemônico.
Os sistemas simbólicos são reconhecidos frequentemente como instrumentos de dominação social. Bourdieu (2007, p. 10) afirma que estes ―servem interesses particulares que tendem a se apresentar como interesses universais, comuns ao conjunto do grupo‖. Se valem da hierarquia e da integração da classe dominante para a desmobilização das classes dominadas pela imposição a todos de visões particulares, aceitas como de interesse coletivo, ou seja, naturalizam a dominação. Os símbolos, como nos ensina Mauss (2012), são instrumentos de integração social, de comunicação e de conhecimentos e, portanto podem ser utilizados para manter a dominação, à medida que legitimam a classe dominante, mas também para subvertê-la ou desnaturalizar uma dada ordem social, econômica e cultural.
Isso nos coloca em linha com a tradição clássica dos estudos sobre as festas, iniciada por Durkheim. De forma geral, segundo a revisão bibliográfica realizada sobre a categoria ―festas‖, estas têm intrinsecamente potencial de subversão, mas historicamente também se prestaram para a manutenção ou naturalização da dominação (AMARAL, 1998).
Uma das características centrais das festas – que nos interessa destacar aqui – é que elas se apresentam como suspensão do dado, instigando o exercício dos possíveis. Então, nessa perspectiva podemos enfrentar a questão da complexa forma por meio da qual as festas operam a alquimia sócio-simbolica que desnaturaliza o uso e a superioridade das sementes melhoradas.
revelação da ―alquimia sócio-simbolica‖ implica considerar as complexas interações presentes na produção do poder simbólico. Bourdieu (2007) ao referir-se aos sistemas simbólicos, os classifica em ―estruturas estruturantes‖; ―estruturas estruturadas‖ e como ―instrumento de dominação‖.
Para Bourdieu, os sistemas simbólicos são estruturantes porque são estruturados. O princípio estruturante dos sistemas simbólicos radica nas estruturas estruturadas. DaMatta (1986) a exemplo disto cita o exemplo da religião para salientar as propriedades estruturais dos momentos solenes, nos quais os ritos partem da Igreja, de locais sagrados, que ordenam o mundo sob valores próprios, denominados geralmente de ―mundo de Deus‖, para promover a manutenção das hierarquias ordenadas de cima para baixo. Os instrumentos simbólicos, compreendidos como estruturas estruturadas, como a língua e a cultura, arte, religião, podem ser apreendidos através na análise das estruturas (BOURDIEU, 2007).
Ao tomar as festas como sistema simbólico a partir das tradições Neo- Kantianas, presente em Durkheim e Mauss, estas podem ser consideradas, também, como um instrumento de conhecimento, ou seja, como estruturas estruturantes, concepção que reconhece o aspecto ativo do conhecimento e toma os sistemas simbólicos como construtores do mundo dos objetos.
Ainda, Bourdieu (2007) procura superar o entendimento que os sistemas simbólicos sejam apenas instrumentos de comunicação e de conhecimento. A priori, estes cumpririam ainda uma ―autêntica função política‖ ao estarem inseridos em uma luta pelo poder de definir legitimamente a ―di-visão do mundo social‖, portanto uma relação de poder entre as classes sociais. Esta luta depende do tipo e da quantidade
de capital acumulado pelo agente, ou seja, de capital econômico e de capital cultural. O autor sustenta que o poder simbólico não reside nos sistemas simbólicos, ou seja, este é uma forma irreconhecível de outras formas de poder. Portanto, faz-se necessário compreender a relação entre os que exercem o poder e os que lhes estão sujeitos.
As festas das sementes crioulas serão, portanto, estudadas como instrumentos simbólicos. Desta forma podem ser compreendidas como espaço estruturado, estruturante e como instrumento de poder, segundo a classificação dos sistemas simbólicos de Bourdieu (2007). Desta forma, a análise sobre as festas das sementes crioulas brasileiras pode enriquecer os referidos eventos de significados.
4.2 APROXIMANDO-SE ÀS FESTAS I: O LOCUS, ATORES E ORIGEM DAS