O ancestral fascínio da descoberta do mundo, e de nós próprios, tem conduzido à produção de uma variedade de discursos explicativos dos fenómenos físicos e sociais, destacando-se uns em detrimentos de outros, por força de condicionalismos históricos, religiosos, políticos, económicos, científicos, culturais e sociais. É por via da ciência que têm sido estabelecidos e divulgados os consensos decorrentes da força dos factos empíricos, da clareza, da consistência e coerência teórica, e dos resultados pragmáticos da sua aplicação, afirmação esta que não é imune à imposição e autoridade de discursos dominantes, à opressão e ao irracionalismo de grupos ideológicos, fundamentalistas e dogmáticos. Juntamente com a técnica, a sociedade e o Estado, a ciência é um ator neste processo interretroativo: o conhecimento produzido pela ciência transforma a sociedade, mas também, retroativamente, a sociedade tecnologizada transforma a ciência, num cenário em que jogam interesses económicos, capitalistas e políticos.
A ciência convive com esta “realidade dual ambivalente” (Morin,1994), ora elucida,
enriquece, conquista e triunfa, ora cria problemas referentes ao conhecimento que produz,
à ação que determina, à sociedade que transforma. Não obstante, a ciência é uma força emancipatória da humanidade e ela própria extrapola as redomas dos laboratórios e das comunidades científica, liberta-se das fronteiras e das dicotomias, e explora discursos alternativos, reinventa-se teórica e metodologicamente, e segue a sua cruzada na busca da proximidade da relação homem-natureza-cultura. Neste percurso de investigação não deixa de ser inquietante questionar que “novas” fronteiras se erguem? Que isenção é possível aos cientistas? O que aprenderam os cientistas do século XXI com os erros e as limitações da produção da ciência dos séculos anteriores? Ainda que fiquem certas questões por responder, gostaríamos de afirmar aqui que é louvável a possibilidade de questionar a ciência, expandir as áreas do conhecimento e devolvê-lo pragmaticamente aos indivíduos, envolvendo-os neste processo. A transformação social traz a ciência para o quotidiano e confronta-a e incorpora-a no conhecimento de senso comum, podendo ser uma ferramenta para o ser humano descobrir a sua própria natureza e dignificar a sua liberdade e existência.
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Ao longo das últimas quatro décadas as críticas ao projeto epistemológico têm ganho expressão, passando pela transferência da soberania epistémica (Rouse, 1996) para o “social”, pela redescoberta da ontologia, pela atenção à normatividade constitutiva e às implicações políticas do conhecimento (Nunes, 2008). Não nos parece profícuo apresentar exaustivamente as características da ciência moderna, a crise do paradigma dominante (Santos, 1988) nem tão pouco expor as limitações do paradigma positivista, pois esta atitude não estaria em consonância com a abordagem que se pretende valorizar e que iremos apresentar de seguida. Para mais, já Popper, Kuhn, Lakatos e Feyerabend mostraram que as teorias científicas têm uma parte que não é científica, mas que é indispensável para o desenvolvimento da ciência (Morin, 1994); a ciência não é apenas uma acumulação de “verdades verdadeiras”, mas um campo sempre aberto onde se combatem não só as teorias como os princípios da explicação, assim como o cientista não é um homem superior, desinteressado, pois tem a mesma “pequenez” e propensão ao erro.
A opção epistemológica da presente investigação parte da ciência pós-moderna, na senda do pragmatismo epistemológico, partilha da proposta de uma ecologia dos saberes, e é enquadrada pelo construcionismo social, que pode ser aferido e testado mediante a abordagem teórica-metodológica da Teoria das Representações Sociais com o intuito de compreender, propor estratégias com implicações para a prática e, por conseguinte, operacionalizar o desenvolvimento sustentável.
A produção de conhecimento científico envolve um conjunto de atores, de saberes e de contextos distintos, e a fronteira que separa a ciência dos seus “outros” (senso comum, saberes locais ou práticos, saberes indígenas, crenças, incluindo crenças religiosas, filosofia e humanidades) obriga a um trabalho de demarcação (boundary work) permanente. Estamos de acordo com Nunes (2008) nesta operação de “resgate” da epistemologia que, não obstante a procura das condições da sua produção e validação, passa a abranger explicitamente todos os saberes “num mundo que é mais do que o mundo ocidental e uma compreensão do mundo que não se esgota […] na compreensão ocidental do mundo” (Nunes, 2008, 61). Os Estudos Sociais da Ciência e a Sociologia do Conhecimento têm vindo
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a dar um contributo61 expressivo no reconhecimento da impossibilidade de definição de critérios de avaliação e validação do conhecimento sem a sua respetiva ancoragem a situações e contextos históricos particulares; como refere Nunes (2008) e Faria (2001) conceitos como os de verdade e erro, objetividade e subjetividade, observar e experimentar, descrever e explicar, medir e calcular, passaram, assim, a ter significados e utilizações variáveis, conforme os contextos. Tal como designa Annemarie Mol (1999), esta “política ontológica62” enfatiza a indissociabilidade das implicações cognitivas, materiais e normativas da atividade científica, aliás, de todas as formas de produção de conhecimento. Podemos encontrar estas preocupações nos pragmatistas clássicos, Charles Sanders Peirce, William James e John Dewey, nas suas discussões sobre as condições de produção e de validação do conhecimento, e do conhecimento científico em concreto. Nunes (2008) afirma que Dewey foi o filósofo pragmatista que mais contribuiu para a reflexão sobre as condições sociais – o “inquiry”, isto é, o processo de envolvimento ativo com o mundo através da construção de conhecimentos e de experiências que resultam das atividades coletivas; são estas “maneiras de investigar” que se constituirão enquanto estratégias inteligentes para resolver problemas, quer sejam práticos, teóricos, “de facto” ou “de valor”.
Parece-nos pertinente este contributo do pragmatismo epistemológico63, na medida em que segue o princípio da interação e enfatiza a ancoragem no caracter situado, nas condições locais de produção e validação do conhecimento, e que reconhece a indissociabilidade da produção do conhecimento e da intervenção transformadora no
61 A este respeito é notável a contribuição da crítica feminista que permitiu identificar as distorções masculinistas da epistemologia e das teorias e conhecimentos substantivos de várias disciplinas,
designadamente na biologia e na medicina. Para mais, estas críticas refletiram sobre as próprias condições do conhecimento, propondo conceitos como os de objetividade forte e epistemologia posicionada (Harding, 2004), conhecimento situado (Haraway, 1991) e conhecimento social (Longino, 1990), entre outros.
62 Política ontológica é um termo composto. Refere-se a ontologia – que na linguagem filosófica comum define o que pertence ao real, as condições de possibilidade com que vivemos. A combinação dos termos "ontologia" e "política" sugere-nos que as condições de possibilidade não são dadas à partida. Que a realidade não precede as práticas banais nas quais interagimos com ela; ao contrário, ela é modelada por essas práticas. O termo política, portanto, permite sublinhar este modo ativo, este processo de modelação, bem como seu carácter aberto e contestado (Mol, 1999)
63 Santos explora o legado do pragmatismo e propõe a epistemologia do Sul situando-se explicitamente do lado dos subalternos e dos oprimidos, conferindo um conteúdo mais preciso às noções de comunidade e de público (Santos; 2006).
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mundo. Esta postura epistemológica vem dar abertura ao reconhecimento de vários outros saberes que, em nome da Razão, das Luzes e do Progresso, estiveram ignorados ou silenciados. A própria Sociologia das Ausências (Santos; 2000) avança como crítica à
produção da realidade não existente pelo pensamento hegemónico e,
concomitantemente, são reabilitadas práticas de conhecimento que possibilitam ou impedem certas intervenções no mundo real e que legitimam as suas convições mediante prova da sua validação em condições situadas. Por conseguinte, a ciência não goza de exclusividade sobre a explicação, compreensão e intervenção na realidade social, como defendido pelo Positivismo, mas ela própria reinventa-se internamente, procura convergências que possibilitem o diálogo entre os vários domínios científicos e os saberes. Não conceber os conhecimentos em abstrato, e assumir a incompletude do conhecimento científico, abre caminho para o universo dos saberes como uma ecologia -a ecologia dos
saberes - enquanto uma proposta viável para conhecer a complexidade e o dinamismo da
realidade social atendendo às suas especificidades locais, viabilizada pela conceção pragmática dos saberes, das formas de produção, validação, circulação, apropriação, partilha e avaliação (Nunes, 2008). Uma das premissas da ecologia dos saberes é a de que todos os conhecimentos têm limites internos (limites das intervenções no real) e externos (reconhecimento de intervenções alternativas desempenhadas por outras formas de conhecimento).
De grosso modo, é inquestionável o papel assumido pela ciência moderna na intervenção no real, designadamente através da sua produtividade tecnológica, contudo, tal assunção não pode impedir o reconhecimento de outras intervenções no real que são possíveis por outras formas de conhecimento. Esta perspetiva parece-nos muito pertinente num cenário contemporâneo que se defronta com fortes desafios de sustentabilidade, quer nos países centrais quer nos países periféricos, no entanto, estas diferentes latitudes experienciam potencialidades e riscos muito específicos que põem à prova os cânones da ciência (marcadamente ocidental e eurocêntrica). Santos (2007) esclarece que a busca da inter- subjetividade levada a cabo pela ecologia dos saberes não deixa de ser complexa; de facto, as diferentes práticas de conhecimento acontecem em diferentes escalas espaciais, com
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durações e ritmos próprios, pelo que requer igualmente uma postura para conhecer e agir em inter-escalaridade e inter-temporalidade.
A premissa de que o conhecimento é socialmente construído é claramente assumida pelo
construcionismo social que, depois de 1966, ganhou particular destaque com a Publicação
do influente trabalho de Berger e Luckmann “A construção social da realidade”. Estes autores propõem um processo dialético entre realidade subjetiva e objetiva, entre conhecimento da vida quotidiana e a Teoria da Sociedade; não existe apenas uma realidade, mas múltiplas, contudo, a vida quotidiana é a realidade por excelência, na medida em que se apresenta como a realidade interpretada pelos homens e subjetivamente dotada de sentido para eles porque constitui o seu mundo coerente e referencial.
De acordo com Castañon (2004), destacamos as seguintes premissas ontológicas e epistemológicas do construcionismo social, que passaremos a explicitar: construtivismo
social, anti-realismo, pessimismo epistemológico, irregularidade do objeto, antirepresentacionismo, fragmentação, não-neutralidade e pragmatismo. Este modelo
defende o construtivismo social, pelo qual o ser humano constrói o conhecimento através das suas interações sociais, sendo que a essência da posição ontológica radica na afirmação de que não há realidade objectiva e independente a ser descoberta; as teorias construídas a respeito do funcionamento do mundo processam-se sempre através da interação social. Outra característica - anti-realismo- evidencia que não existe realidade além da linguagem construída pelo sujeito através das suas interações sociais e, mesmo que exista, é-lhe inacessível. O pessimismo epistemológico expressa que apenas nos é possível conhecer do mundo o que socialmente é construído, não sendo possível conhecer a realidade directamente.
A realidade é dinâmica, pelo que as respostas a uma questão no campo social não será expressada por um mecanismo causal expresso numa lei mas simplesmente a aplicação de uma convenção – irregularidade do objeto. O antirepresentacionismo refere que, dado que a linguagem é um convencionalismo, em que o significado não se baseia nos objetos per si ou no processo mental, mas através da interação social, não pode existir uma relação
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estável e direta entre as palavras e o mundo a que elas se referem. A fragmentação expressa que o conhecimento é referente a ocorrências específicas locais e não à busca de leis gerais universais, o real não é único e integrado num sistema estático, mas sim um processo de contínua mudança, que estabelece múltiplas interligações entre elementos e eventos desconexos. A não-neutralidade refere que o conhecimento é uma construção humana imbuída de valores e motivações expressas nas práticas sociais. E, o pragmatismo, reforça a a importância da aplicabilidade do conhecimento para as ações humanas, com produção de resultados.
Matthews (1998) e Ryan (1999) dirigem um conjunto de críticas ao construcionismo social: criticam o princípio de que o ser humano constrói o conhecimento única e exclusivamente através de suas interações sociais, considerando que esta é uma crença inconsistente e incompatível com a razão e a ciência que ambiciona ser objetiva e independente; a segunda crítica é a impossibilidade de se atribuir todo o desenvolvimento do pensamento humano às suas interações sociais ficando, assim, por explicar o desenvolvimento de ideias novas e criativas; a terceira crítica incide no pressuposto de que o sujeito constrói o conhecimento única e exclusivamente através da linguagem, tal não corresponde à atividade de pesquisa que pressupõe a existência de um objeto num campo real independente do observador humano.
Como refere Castañon (2004), estas críticas são refutadas através do esclarecimento de que não há uma negação total da existência do fenómeno físico; o construcionismo social evidencia que o que existe é a transferência do objeto da realidade física a ser conhecido para o sentido que ele adquire para o sujeito, significado este que é construído pelos sujeitos através das suas interações sociais.
As críticas endereçadas ao construcionismo social facilmente são clarificadas se tivermos em consideração o próprio contexto de emergência deste pressuposto teórico- metodológico, o qual surge em oposição aos princípios básicos da ciência moderna, opondo-se ao otimismo epistemológico, ao realismo ontológico, à regularidade do objeto e do progresso científico. O que nos parece pertinente enfatizar para a presente investigação é, precisamente, a concordância com estes pressupostos que reconhecem a
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interação social, a linguagem, e o quotidiano, como fatores a serem considerados na produção do conhecimento científico, e do mundo em geral. Consideremos, igualmente, o contributo de Vygotsky (1978, 1987, 1991), que partilha da visão construtivista, na valorização dos contextos culturais e do papel da linguagem no processo de construção do conhecimento e do próprio desenvolvimento cognitivo expressando que, a única aprendizagem significativa é a que ocorre através da interação entre o sujeito, o objeto e os outros sujeitos. Vygotsky enfatiza a ligação entre as pessoas e o contexto cultural em que vivem e são educadas. De acordo com este autor, as pessoas usam instrumentos que vão buscar à cultura onde estão imersas, designadamente a linguagem, a qual é usada como mediação entre o sujeito e o ambiente social. O conhecimento culturalmente produzido é um conhecimento “tido-como-partilhado”, ou seja, há uma interação negociada pela evolução dinâmica de interpretações, transformações e construções dos indivíduos (Cobb,1998). Para Vygotsky um indivíduo interage com a realidade e não apenas age sobre ela, evidenciando que é a partir de relações intra e interpessoais que um indivíduo constrói seu conhecimento.
Ao falar em relações sociais historicamente produzidas, Vygotsky toma por referência as práticas sociais presentes em determinada época ou cultura, as quais revelam a maneira como os indivíduos se situam uns em relação aos outros: o que pensam e falam; como agem e as implicações da utilização de um sistema simbólico (linguagem) que lhes permite atribuir significados aos objetos, às ações, ao mundo; como utilizam instrumentos através dos quais transformam a natureza conforme o que desejam ou necessitam para sua sobrevivência; e como sofrem a ação recíproca da transformação da natureza por eles modificada.
Prova da referida ecologia dos saberes é a proposta de Moscovici de uma psicossociologia do conhecimento expressa na Teoria das Representações Sociais, que supera velhas divisórias e posiciona-se numa zona de fronteira com forte apoio sociológico, mas sem desvalorizar os processos subjetivos e cognitivos. Esta teoria equaciona uma nova abordagem às dicotomias convencionais entre ciência e senso comum, razão e emoção, sujeito e objeto, ao propor que a realidade é socialmente construída e o saber é uma
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construção do sujeito ligado a uma inscrição social. Uma das premissas da TRS é a de que existem formas diferentes de conhecer e de se comunicar, guiadas por objetivos diferentes: a consensual (universo consensual: conversação informal na vida quotidiana) e a científica (universo reificado que se institucionaliza no espaço científico). A diferença destas formas de conhecimento não pressupõe uma hierarquia entre elas, nem as suas esferas são estanques; as suas diferenças decorrem apenas do simples facto de que têm propósitos diferentes.
Moscovici reabilita o senso comum, o conhecimento pré-teórico de que falam Berger e Luckmann (1978) e questiona a racionalidade científica, debatendo-se contra a ideia de que as pessoas comuns, na vida diária, pensam irracionalmente. A pesquisa de Moscovici desafiava os cânones da ciência psicológica de então, agora voltada para fenómenos marcados pelo subjetivo, captados indiretamente, através do recurso pouco usual a metodologias da psicologia da época. Seria preciso esperar quase vinte anos para que o degelo do paradigma permitisse o despontar de possibilidades divergentes.
O fundamentado posicionamento epistemológico requer a correspondente reconfiguração das metodologias de investigação das ciências sociais e humanas, o que justifica a opção pelas metodologias qualitativas e o recurso ao estudo de caso, como serão apresentados nos pontos seguintes.
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