As opiniões encontradas nessa entrevista dão conta de uma atitude pessoal pautada por um comportamento aprendido no ambiente familiar. Há uma justificativa sobre as atitudes da entrevistada em relação às pessoas ao frisar que: “meu pai me
ensinou e dá certo”, o importante é “o jeito como você trata as pessoas”. Ela “sempre pedia por favor e obrigada”.
Nádia enfatiza a importância da hierarquia e respeita as normas institucionais caracterizando um estado de obediência, fundamental, segundo Weber (2004b), para o exercício da dominação, uma das formas de se exercer o poder. Ela afirma:
“não pode passar por cima de ninguém..., não posso fazer nada que fira as normas do banco, ou fira as pessoas que trabalham comigo..., você precisa respeitar a hierarquia”. Os motivos podem ser diversos, mas um deles é a ética, pois por
diversas vezes esse fato foi citado como: “tem que ser ético” e, em outro momento, ela afirma que certas pessoas não têm esse tipo de comportamento ao mencionar: “porque tem gente que faz troca, que não tem escrúpulos para resolver as coisas” e quando perguntada “Ferindo normas?” ela respondeu “Sim, não posso citar nomes” ressaltando seu lado de respeito a uma ética pessoal muito forte.
A entrevistada demonstra ter senso de responsabilidade, pois se coloca como responsável por uma situação não somente por erro, mas também por omissão. Em determinado trecho, ao se referir a um contexto onde percebe que existe um erro, uma falta de ética ou uma atitude que vá ferir as normas do banco ela afirma categoricamente: “se você percebe o problema, você é responsável também junto”. Essa frase dá a conotação do seu grau de responsabilidade, mas também demonstra a importância que as normas organizacionais têm para ela.
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Esse respeito às normas vem de dentro dela, existe, portanto, de alguma forma, uma tendência a obedecer inerente a ela mesma. Não se pode afirmar o motivo dessa obediência inata, a não ser talvez pela influência paterna, mas pode-se dizer que o resultado, sua atitude perante a organização é a mesma que a advinda da legitimidade da dominação de um contexto hierárquico burocrático preconizado por Weber.
Esse fato é reforçado por sua atitude racional ao afirmar que na sua mudança de emprego ao sair do Banco A e ir para o Banco B ela disse a respeito das diferenças das normas entre um banco e outro: ”Eu tenho que me adaptar. É assim. Tem que aprender”. Ao ser questionada em qual ambiente ela preferia trabalhar, se no Banco A onde as normas eram mais informais ou no Banco B com uma estrutura mais formal ela declarou “lá, no Banco A, é melhor é mais fácil, mas aqui você tem uma segurança maior”, denotando que, no seu entender as normas lhe dão um sentimento muito forte de segurança.
Ela prefere o Banco B por ser mais organizado, pensando no longo prazo, não se perde o controle, tem parâmetros, não tem tanta política e isso pode indicar que quanto maior o rigor normativo menor a necessidade de que as pessoas,tenham que influenciar os outros por meio de subterfúgios, de artimanhas, sem a necessidade de se perder tempo com estratégias capciosas. O resultado dessa questão é segundo suas palavras “uma estrutura mais informal é mais gostosa, mas é menos eficiente”.
Desde que as normas fossem respeitadas, respeitadas as hierarquias, respeitada sua ética, a entrevista conseguiu captar qual é o tipo de comportamento que Nádia prefere que tenham em relação a ela. O tratamento dito “humano”, aquele entendido como o cuidado com os sentimentos da pessoa, não olhar apenas os interesses da organização, lhe é fundamental. A atitude do seu superintendente conseguiu cativar nela um estado de quase devoção. Por diversas vezes isso foi reforçado como: “eu devo tudo a ele..., extremamente humano” são passagens que conquistaram Nádia para que ela trabalhasse alegre e de acordo com as necessidades do seu superior. O lado oposto dessa história segundo seu depoimento é “no mundo corporativo as pessoas se esquecem que você não é
máquina”, “você é um cargo” revelando a necessidade de um comportamento mais “humano” demandado por ela. Nesse sentido ela aprovou quando o presidente do banco mandou “as pessoas pararem de chamar o diretor de doutor”.
Essa é uma das formas, ou das ferramentas utilizadas por um indivíduo, consciente ou inconscientemente, para que alguém possa “agir sobre a ação dos outros” fora das normas, fora do explicitado pelos parâmetros organizacionais preconizado por Foucault. Ela indica a metodologia desse ferramental ao revelar que seu superintendente dizia: “vamos resolver isso agora” com a conotação de lhe dar atenção imediata, sem postergações. Ela afirma que “ele sempre foi muito de me apoiar, primeiro de me ensinar, depois quando ele viu que eu tava caminhando sozinha, de ficar delegando coisas para mim”.
Essa atitude de seu chefe funcionou para ela e o mesmo comportamento ela teria com seus subordinados. Ela iria “identificar o potencial de cada um e extrair isso da pessoa” da mesma forma que seu superior agiu. Ela considera que “os líderes são bons porque conseguem cativar” e no limite, identificando talvez numa resposta o “fio de Servan” instalado nas “fibras moles do cérebro” quando indagada o porquê que as pessoas fazem aquilo que lhe é solicitado ela declarou: “fazem porque elas tomam a decisão de bom gosto”.
O motivo que o seu chefe lhe tratava bem, segundo seu depoimento, era porque “ele reconhecia muito meu esforço, meu comprometimento, acho que é por isso que ele cuidava de mim dessa forma”. O real motivo não é importante para esse trabalho. Não importa que o chefe tenha essa atitude intencionalmente ou não. O fato fundamental é que existe uma relação entre superior e subordinada operando fora das normas institucionais e principalmente que essa relação determinava o comportamento extremamente obediente e sincero da subordinada. Ela executava as ordens do seu chefe com muita satisfação por causa do comportamento dele.
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