O tema “movimentos sociais” aparece nas ciências sociais brasileiras tensionado, entre outros fatores, pela busca de uma politização qualitativamente diferente, “nova”, mais enraizada no cotidiano e na experiência dos setores populares. Acompanha-o a recusa, no plano puramente teórico, da vigência de modelos classistas de análise que sejam mais rígidos. Há um reposicionamento epistemológico e social do intelectual. Um vocalizador favorável a essa mudança no pensamento social brasileiro é José de Souza Martins.167
Martins busca com a noção de “classes subalternas” evitar o reducionismo e o objetivismo dos modelos classistas ortodoxos, sejam os marxistas ou os liberais. Amplia-se, assim, o escopo das análises, que passam a se debruçar sobre as articulações dos “de baixo”, cada vez mais no sentido de movimentos sociais “abertos” do que de classes “de antemão” determinadas. A crítica ao teleologismo marxista e ao utilitarismo liberal-democrático é clara aqui. E Martins acrescenta à idéia de “exploração”, muitas vezes interpretada de modo economicista ou rígido, o uso privilegiado das noções de “dominação” e “exclusão”.168
Da mesma forma, ataca a homogeneidade nos modelos teóricos classistas:
“Há uma diversificação ‘interna’ das classes subalternas, cujo desconhecimento empobrece a compreensão de suas lutas e de suas possibilidades históricas, porque omite seus dilemas e suas debilidades. Um discurso que unifique retoricamente as classes subalternas não produz a unidade e a força reais dessas classes e grupos sociais. Ao contrário, mistifica-as e empobrece a interpretação de sua realidade.”169
Esta passagem segue rigorosamente a senda aberta por Sader & Paoli e comentada por Maria Valéria Junho Pena. Martins, de modo excepcionalmente claro, afirma: “Os dilemas não são, portanto, os reais dilemas das classes subalternas. São, antes, dilemas das interpretações sobre a realidade dessas classes”.170 E mais contundentemente ainda:
167 MARTINS, José de Sousa – Caminhada no Chão da Noite, São Paulo, Hucitec, 1989. 168Idem, p. 99.
169Ibidem, p. 107 (de onde foi extraído o trecho citado); veja-se também p. 129. 170Ibidem, p. 110.
“Estamos diante de uma crise de interpretação, que se manifesta na necessidade histórica dessa mudança de perspectiva. Tal mudança significa reconhecer como ‘sujeitos da história’ e ‘sujeitos do conhecimento’ os grupos e classes subalternos. Eles não foram admitidos na cena histórica em conseqüência de compromissos ideológicos – por parte das classes dominantes e dos próprios agrupamentos políticos progressistas e dos pesquisadores – com a idéia do progresso (...)”.171
Seguindo questionamento já visto anteriormente, José de Souza Martins perfaz também um ataque à posição de força dos intelectuais, em nome dos setores populares, relativizando a autoridade dos detentores de “capital cultural” em favor de se valorizar analítica e politicamente a cultura das classes subalternas:
“O fato de que a cultura popular e as relações sociais ‘arcaicas’ permaneçam prisioneiras de esquemas de estudo e compreensão de fundo iluminista, que não expressam o ponto de vista das próprias classes subalternas, têm impedido que seja estudado o seu dinamismo, seu movimento. Aparecem, porque supostamente pretéritas, conceitualmente petrificadas, imobilizadas, à espera de uma saber completamente externo, expressão de uma classe de fora, e de cima (...)”172
Há múltiplos significados neste trecho: “esquemas de estudo” são os modelos abstratos criticados, por exemplo, por E. P. Thompson, que advoga justamente “seu dinamismo, seu movimento” enquanto “fazer-se” ativo dos trabalhadores;173 “saber completamente externo” vindo “de fora” nos faz lembrar explicitamente da discussão de Barrington Moore Jr. sobre os intelectuais ligados ao movimento operário;174 por fim,
171MARTINS, Op.Cit., p. 119 (de onde foi extraído o trecho citado); veja-se também p. 133/134. 172Idem, p. 119/120.
173 A respeito: THOMPSON, E. P. – As Peculiaridades dos Ingleses e Outros Artigos, Campinas, Ed. da
UNICAMP, 2002; A Formação da Classe Operária Inglesa, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1987; Costumes em
Comum – Estudos sobre a Cultura Popular Tradicional, São Paulo, Companhia das Letras, 2002.
174 MOORE Jr., Barrington – Injustiça - As Bases Sociais da Obediência e da Revolta, São Paulo, Brasiliense,
“expressão de uma classe de fora, e de cima” nos remete diretamente à questão da dominação exercida pelos intelectuais na obra de Pierre Bourdieu175 – o que será visto no capítulo 5.
Martins constrói uma oposição ainda mais explícita entre movimentos sociais – entendidos como locus de mobilização – e partidos políticos – referentes da institucionalidade - já colocada por outros cientistas sociais, protagonistas ou comentadores da renovação do pensamento sociológico brasileiro. Estando os movimentos sociais cada vez mais voltados para a autonomia da sociedade civil e não para o Estado. E os partidos, nesse quadro analítico, encarados como “formas coercitivas de encaminhamento do protesto popular”. 176
José de Souza Martins propõe então “uma teoria da prática” a partir do saber popular em substituição à “prática da teoria” como papel imposto historicamente pelos intelectuais aos “de baixo”.177 Essa crise dos mediadores intelectuais teria como possível solução, para Martins, procedimentos como a pesquisa participante (também já antes citada).178 Nesta, o papel do empírico e de uma empatia antropológica pela cultura do “outro” nos faz lembrar da distância em relação aos teoricismos, que já vimos, tão característica das ciências sociais mais recentes.
A posição de Martins, de modo implícito, evoca uma postura romântica, pela sua crítica ao cientificismo intelectual diante dos conhecimentos de origem popular. Tal posição pode ser vinculada tanto a uma linhagem de pensamento filosófico e social alemã (Herder, Weber, Michels, o “jovem” Habermas), quanto ao marxismo “culturalista” britânico de Thompson e Raymond Williams e quanto ao conceito de “romantismo revolucionário” em Löwy e Sayre.179
Ainda a respeito dessa crítica a um posicionamento intelectual de fundo iluminista- cientificista como pré-condição para a emergência de novos estudos sobre movimentos sociais no Brasil, vejamos a seguinte passagem de Florestan Fernandes:
“Abrindo-se para a explicação verdadeiramente científica da crise da civilização industrial e do futuro em gestação, a sociologia passa a alimentar o comportamento das classes inconformistas (...) as bases de percepção críticas de comportamento social inteligente e de atuação inconformista organizada das massas também se alteram,
175 BOURDIEU, Pierre – Coisas Ditas, São Paulo, Brasiliense, 1990, p. 174/175. 176Idem, p. 130/131.
177Ibidem, p. 134. 178Ibidem, p. 134/137.
179 LÖWY, Michael & SAYRE, Robert – Revolta e Melancolia – O Romantismo na Contramão da Modernidade, Petrópolis, Vozes, 1995.
pela inserção do conhecimento científico em seus movimentos sociais de sentido reformista ou revolucionário. Para que isso ocorra, porém, é necessário que exista um movimento operário consistente”.180
Fica claro no trecho acima que as reflexões do intelectual maior que encarna o padrão uspiano de pensamento, vistas com os olhos de hoje, parecem se equilibrar entre a valorização em si de um “movimento operário consciente” e a necessidade de inserção, neste movimento, do conhecimento científico – advindo do campo partidário-revolucionário para Lênin, oriundo do campo acadêmico para Florestan Fernandes.
Lahuerta, Pécaut e Sorj, preocupados principalmente com a reestruturação de uma sociedade civil vinculada à retomada das regras da democracia institucional-representativa, evidentemente não concordam com tal diagnóstico de José de Souza Martins, vigente pelo menos nos anos 80.
Antes deles, Lamounier já lamentava que a discussão da sociedade civil no período se dava divorciada da valorização do sistema representativo.181
Lahuerta, neste sentido, afirma que os defensores da prioridade dos movimentos sociais no processo de redemocratização adotavam, inadvertidamente ou não, uma concepção liberal e confusa de sociedade civil e que eram adeptos de um basismo pretensamente gramsciano: tais elementos resultavam numa apologia dos movimentos sociais e numa subestimação da complexidade da política.182 Só não explicita este autor que política é esta: a institucional e realista, preocupada mais com os percalços do caminho do que com as metas finais da democratização. E por acaso a política dos movimentos sociais não era, no mínimo, também diversa e rica, do ponto de vista sociológico?
Da mesma forma, Fernando Henrique Cardoso critica uma certa influência rousseaunista nos defensores da linha pró-movimento sociais, propugnada por intelectuais como Weffort, Marilena Chauí, o sociólogo católico Luiz Eduardo Wanderley, educadores de base, agentes comunitários, militantes em geral. Eles desconfiam dos mecanismos de representação política e das vanguardas tradicionais.183 Da mesma forma, Lamounier os acusa
180 FERNANDES, Op.Cit., p. 131/132.
181 LAMOUNIER, Pensamento Político, Institucionalização Acadêmica e Relação de Dependência no Brasil, p.
54.
182 LAHUERTA, Op.Cit., p. 10. 183 PÉCAUT, Op.Cit., p. 304/307.
de terem uma concepção plebiscitária de democracia.184 Justamente por que estes últimos buscavam dar substância à tradicional noção de soberania popular, de modo ativo, via democracia direta, inclusive.
Este debate entre intelectuais pró-movimentos sociais e intelectuais pró-reconstrução institucional-democrática resultou, conforme já visto, no “racha” do “partido intelectual”. Em São Paulo, parte dos primeiros formou o CEDEC e em sua maioria foram construir o PT. Dos segundos, boa parte permaneceu no CEBRAP e alguns já estavam no MDB.
No interior mesmo do CEBRAP e dessa segunda posição intelectual e política, alguns intelectuais acentuavam, em seus estudos e pesquisas, os aspectos mais formais da institucionalidade democrática, como Bolívar Lamounier. E vão criar o já citado IDESP, ainda se mantendo, porém, sob a liderança de Fernando Henrique Cardoso.185 Este era mais aberto à composição da sociedade civil também pelos movimentos sociais, não só pelas instituições, como bem indicado nesta passagem sua, dos idos de 1973/74, citado por Pécaut:
“[não se trata de] ‘pedir’ democracia, no sentido de reabertura do jogo de partidos controlados pelo Estado e pelas classes dominantes, mas criar um clima de liberdade e respeito que permita a reativação da sociedade civil, fazendo com que as associações profissionais, os sindicatos, as igrejas, os grêmios estudantis, os círculos de estudos e debates, os movimentos sociais, em suma, exponham de público seus problemas, proponham soluções, entrem em conflitos construtivos para o país.”186
Mas tanto a posição mais ampla de Fernando Henrique Cardoso quanto a mais extrema representada por Lamounier estavam longe do diagnóstico dos intelectuais pró- movimentos sociais, bem ilustrado por esta passagem de José Álvaro Moisés, também citada por Pécaut:
“O problema da reorganização hegemônica da sociedade é uma questão que não se resolve a menos que haja um núcleo organizatório que se proponha, clara e explicitamente, a tarefa de ir,
184 LAMOUNIER, Pensamento Político, Institucionalização Acadêmica e Relação de Dependência no Brasil, p.
55.
185 LAHUERTA, Op.Cit., p. 10.
gradativamente, unificando as experiências parciais, setoriais e moleculares de cada um dos setores das classes em uma alternativa política – um projeto global, mas concreto – que sirva para dar impulso às lutas atuais, mas ao mesmo tempo, acene com as possibilidades de transformação mais profunda da sociedade.”187 Pécaut sinaliza que a estratégia mais ampla esposada por Fernando Henrique Cardoso, José Arthur Giannotti (que de um “estagnacionista radical” teria aderido à linha política oposta), outros cebrapianos e pecebistas de linha gramsciana moderada (como Carlos Nelson Coutinho) teria saído vitoriosa politicamente. Algo difícil de afirmar, pois a resposta a essa questão polêmica sempre remete ao futuro. A propósito disso, trago, de um outro contexto, a interessante elaboração de Sorj, que afirma serem os anos 1970/80 para as ciências sociais um período duro para a criação e manutenção de um ethos científico rigoroso de pouco impacto imediato, inclusive em termos de público.188
Os intelectuais pró-reconstrução institucional-democrática, nesse diapasão, devem ser encarados como mais “apressados” quanto às conseqüências da atividade intelectual. Não é à toa que se introduziram na política institucional paralelamente à reativação da sociedade civil. O papel “demiúrgico” do intelectual cabe mais a eles – seguindo, surpreendentemente a tradição holista-hierárquica do populismo – do que aos intelectuais pró-movimentos sociais.
Estes seriam, então, mais “pacientes” em aguardar os resultados a longo prazo, porém mais ambiciosos, de sua atividade intelectual. O investimento institucional a longo prazo da Fundação Ford nas ciências sociais brasileiras, nos termos colocados por Miceli, como já visto, aqui faz todo o sentido. E tudo isso coaduna com uma prática universitária mais “silenciosa”, de alteração “molecular” da sociedade, de um modo que remete às correntes de pensamento interacionistas-individualistas, por mais que isto parecesse estranho a esses intelectuais adeptos de articulações coletivas desde baixo.
Se Florestan Fernandes, nos idos dos anos 1970, teria ficado isolado, a partir da transição para os anos 80 os intelectuais pró-movimentos sociais começaram a ganhar terreno, e cada vez mais aceleradamente.
187 PÉCAUT, Op.Cit., p. 305 – o trecho de Moisés citado é de um artigo seu de 1980, “Crise Política e
Democracia, a Transição Difícil”.
E, a meu ver, foram estratégicos para a transformação do campo intelectual centrado nas ciências sociais e para o próprio campo popular, para o bem ou para o mal. É o que tentarei demonstrar nos próximos capítulos.
Capítulo 2 – Intelectuais e movimentos populares nos anos 1970/80: uma nova “marcha para o povo”
Neste capítulo busco relatar as trajetórias e os significados de alguns lugares importantes da produção intelectual, mais ou menos engajada, sobre os movimentos populares, especificamente o movimento sindical e os movimentos sociais urbanos, nos anos 1970/80. Esta recapitulação histórica restringe-se a organismos de estudos, pesquisas e/ou militância intelectual e política localizados em São Paulo e no Rio de Janeiro, inclusive institutos ligados a universidades. Para tanto, baseio-me na pesquisa em acervos e arquivos de organismos intelectuais do eixo Rio-São Paulo, na bibliografia já existente a respeito, e em entrevistas realizadas com vários intelectuais participantes desses organismos. As precauções metodológicas pertinentes estão explicitadas na Introdução desta tese. Este capítulo é interligado ao seguinte, capítulo 3, neste último havendo uma conclusão que abarca questões desenvolvidas em ambos.