B. COMPTES DU DELEGATAIRE
III. DETAIL DES FRAIS DE PERSONNEL
“(...) o movimento de massas sempre ultrapassará qualquer partido...”. (_______________ - A Autonomia em Questão in Desvios, nº 1, São Paulo, nov/1982, p. 66)
Em 1980 alguns militantes e intelectuais da esquerda paulista fizeram circular em seu meio um trabalho intitulado “11 Teses sobre a Autonomia”, questionando uma série de pressupostos do marxismo ortodoxo cuja hegemonia já erodia. Entre tais intelectuais engajados estavam Eder Sader e Marco Aurélio Garcia, oriundos do exílio. O primeiro vinha das fileiras de uma matriz importante de organizações trotskystas no Brasil, chamada comumente POLOP (Política Operária). Outros desses intelectuais tinham origens diversas no campo da esquerda. Criticavam especialmente o leninismo e a tradição pecebista no Brasil, a partir de outros autores marxistas como Rosa Luxemburgo e, em menor grau, Trotsky (de cuja tradição também estavam se afastando), além de buscarem entender a “novidade” da rearticulação do movimento sindical e popular no país.
Em 1982 lançaram em São Paulo a revista Desvios. Em sua apresentação inicial, afirmava-se:
“Quando há cerca de dois anos as ‘mal traçadas linhas’ da ‘11 Teses sobre a Autonomia’ se transformaram em um polêmico texto de circulação e debate entre militantes dos movimentos sociais da esquerda brasileira, o pequeno coletivo responsável por sua elaboração começou a indagar-se sobre o significado de uma tal repercussão.”72
E prosseguiam:
“Nas discussões que se seguiram, entre 1980 e 82, foi ficando claro que, a despeito da precariedade de suas formulações, que os autores eram os primeiros a reconhecer, as ‘11 Teses’ tinham a extraordinária virtude de tocar questões centrais para a luta dos explorados e oprimidos, muitas das quais não apareciam em forma explícita em uma prática ainda fortemente marcada pelo ativismo ou prisioneira de camisa-de-força ideológica com mais de 60 anos de existência.”
“(...) os populismos, nacionalismos e reformismos requentados ou as tradicionais estratégias para os trabalhadores de setores da esquerda pouco têm a dizer.”73
Verifica-se de início que a linha que seguiam era a da confrontação com padrões de aplicação do marxismo - “ultrapassados esquemas teóricos”74. Mas a partir de que eixo perfaziam tal confrontação?
“Nada melhor, pois, do que criar um espaço em que pudessem ser confrontadas reflexões e experiências sobre a temática da autonomia a partir da qual tantos buscavam pensar e orientar suas práticas sociais ou repensar a herança do movimento operário e socialista e do próprio marxismo.”
“A resistência dos operários industriais e dos trabalhadores do campo, suas novas formas de ação e de organização, sua capacidade de intervenção política autônoma a ponto de extrair dela a energia necessária para a construção de um partido próprio, somados às reivindicações de autonomia nas lutas de bairros, das mulheres, dos negros, dos índios, ou dos homossexuais, eram (e são) mais de que indícios da presença de premissas sociais para a construção de uma nova hegemonia, capaz não só de derrotar o arbítrio ditatorial como de apontar para uma nova sociedade, mais além da simples restauração do Estado de Direito.”
73Desvios, nº 1, p. 3/4 e 5 (negrito do próprio texto), respectivamente. 74Idem, p. 8.
“A autonomia não se apresenta porém como mais uma via, como pretendem muitos dos críticos das ‘11 Teses’. Não se trata de combater doutrinas em nome de uma nova doutrina. A temática da autonomia aponta assim para as próprias condições de elaboração das alternativas políticas na luta de classes. (...) a autonomia deve ser entendida como um campo de reflexão e ação políticas dos explorados e oprimidos a partir dos quais se constituirão e reconstituirão sem cessar os projetos de transformação revolucionária da sociedade.”75
O eixo norteador de suas críticas era a discussão da autonomia da prática operária e popular como fundamentadora da rediscussão teórica do marxismo. A própria luta de classes impulsionaria, portanto, as mudanças na política socialista. Essa prática operária e popular correspondia a suas “novas formas de ação e organização”, isto é, o “novo sindicalismo” e os “novos movimento sociais” – este último em sua faceta popular mais genérica, que incluía os movimentos sociais urbanos, bem como em relação às novas temáticas mencionadas (mulheres, negros, etc.). O coletivo, bastante fluido, que se agrupava em torno daquelas “11 Teses sobre a Autonomia” e da revista Desvios,76 também discernia algo “novo” no movimento popular brasileiro dos anos 1970, da mesma maneira que o CEDEC, por exemplo. Mas os “autonomistas” – rótulo que recusavam, como se percebe – apontavam explicitamente para uma perspectiva revolucionária e socialista, não apenas democrática.
Uma das características principais dessa articulação política e intelectual era a explicitação crítica das “próprias condições de elaboração das alternativas políticas na luta de classes”. E tal empreendimento era realizado enquanto um ataque de viés prático-empírico aos arcabouços teóricos marxistas então vigentes. Por isso não se propunham mais simplesmente produzir teorias ou políticas “para os trabalhadores”. Era necessário produzí-las com os trabalhadores, concretamente, junto a seus movimentos. Daí a eleição da autonomia como dimensão capaz de reabrir a tradição socialista à afluência de novas experiências de luta. Daí, também, a recusa em se assumirem enquanto mais uma “via” ou “doutrina” no interior do
75Desvios, nº 1, p. 4 e 5 (os dois últimos parágrafos), respectivamente. Negritos do próprio texto.
76 Na Desvios, nº 3, Rio de Janeiro/São Paulo, Paz e Terra, 1984, p. 6, se identificavam como “coletivo da
marxismo ou da esquerda. Ou no próprio dizer deles: “A história sempre acaba por mostrar que não há uma estrada real para a revolução social.”77
Aqui ecoava, também, a influência de autores mais heterodoxos do marxismo ou da esquerda em geral. O historiador inglês E. P. Thompson era citado, por exemplo, em artigo de Marco Aurélio Garcia.78 Cornelius Castoriadis, mencionado a respeito da questão da alienação, em trabalho de Amnéris Maroni e Augusto Portugal Gomes.79 Pedro Jacobi, que participava do CEDEC e conviveu com intelectuais ligados a revista Desvios, neles identifica a adoção de uma “visão Castoriadis da autonomia”.80 Felix Guattari se fazia presente numa entrevista-debate intitulada “As Novas Alianças: movimentos sociais e movimentos alternativos”.81 Não é à toa que na apresentação do segundo número da revista, seus editores afirmavam persistir “em nossa vocação para a heterodoxia”.82
Não há como não ver nessa proposta específica de produção intelectual ligada às lutas sociais, desenvolvida pelo coletivo da Desvios, um parentesco com a crítica feita pelo CEDEC ao marxismo ortodoxo e pecebista, como, por exemplo, na afirmação, já citada, de José Álvaro Moisés: “O meu caminho de crítica teórica ao marxismo vai da empiria para a teoria, vai do mundo real, do mundo prático, para a teoria.”83 Bem como o mesmo impulso de desenvolvimento de uma prática intelectual diferente: o “conhecimento na fronteira da ação” que exigia um engajamento político nos movimentos sociais, no CEDEC; a subsunção a “um campo de reflexão e ação políticas dos explorados e oprimidos”, no caso da Desvios.
Participavam desse coletivo “aberto”, entre outros intelectuais paulistas, praticamente todos da área de ciências sociais e estudiosos dos movimentos populares, além dos já citados Eder Sader e Marco Aurélio Garcia: Vera da Silva Telles, Amnéris Maroni, Elisabeth Souza- Lobo, Maria Célia Paoli, Silvio Caccia Bava, Hamilton Faria, Marcos Nobre e a filósofa Marilena Chauí. Parte desses intelectuais já se consolidava profissional e academicamente em universidades paulistas, notadatamente a USP, bem como no CEDEC.
A revista Desvios durou de 1982 a 1986, tendo sido veículo para importantes e influentes trabalhos e debates sobre o “novo sindicalismo”, as oposições sindicais (notadamente a oposição sindical metalúrgica de São Paulo/SP), os “novos movimentos
77Desvios, nº 1, p. 5.
78 GARCIA, Marco Aurélio – São Bernardo: a (auto) construção de um movimento operário – notas para discussão in Desvios, nº 1, São Paulo, nov/1982, p. 27 (nota).
79 MARONI, Amnéris & GOMES, Augusto Portugal – A Gestão da Produção como Forma de Luta in Desvios,
nº 3, Rio de Janeiro/São Paulo, Paz e Terra, 1984, p. 68.
80 Entrevista por mim realizada com Pedro Jacobi em abril de 2006, em São Paulo/SP. 81Desvios, nº 5, Rio de Janeiro/São Paulo, Paz e Terra, mar/1986.
82Desvios, nº 2, São Paulo, ago/1983, p. 5.
sociais” e sobre a renovação do marxismo e da esquerda. Pela revista passaram também autores não-europeus como o sociólogo argentino (radicado no México) José Nun, um teórico importante, inclusive da temática da autonomia. A partir de 1984 a revista passou a ser publicada pela Editora Paz e Terra, garantindo “uma distribuição em todas as livrarias do país, sem prejuízo de sua venda militante”.84
É certo também que enquanto o CEDEC contribuiu para a criação do PT, estuário do “novo” movimento popular que seus intelectuais estudavam, o coletivo da Desvios já nasceu sob a égide da existência do PT, isto é, em boa parte deve ter sido uma articulação intelectual que contribuía e pretendia influir nos rumos do novo partido.
No contexto do coletivo da Desvios é que se deu a interação intelectual entre Sader, Maria Célia Paoli e Vera da Silva Telles, que resultou em importantes artigos do período, que – sintomaticamente – já se debruçavam sobre o próprio olhar intelectual sobre as lutas populares: “Pensando a Classe Operária: os Trabalhadores Sujeitos ao Imaginário Acadêmico” e “Sobre ‘Classes Populares’ no Pensamento Sociológico Brasileiro (Notas de Leitura sobre Acontecimentos Recentes)” – este último de autoria apenas de Sader e Paoli.85
Sobre essa pesquisa envolvendo Sader, Paoli e Vera da Silva Telles, esta última afirma:
“(...) é preciso dizer que propor a cidadania pelo ângulo dos movimentos sociais, ou para usar os termos já cunhados na época e que tiveram e tem desdobramentos até hoje, pelo ângulo de uma sociedade civil emergente, foi o legado que aqueles anos nos deixaram. (...) [Eu] estava investida pela novidade que os movimentos sociais pareciam introduzir na história brasileira e, mais ainda, pela promessa de uma cidadania ampliada, capaz de introduzir fissuras em uma pesada tradição autoritária e excludente. Mas junto com isso, era todo um mundo de evidências e certezas pelas quais a história desse país fora até então contada, narrada e explicada nas suas determinações e origens históricas, que parecia desestabilizado pela presença de sujeitos coletivos, dotados de
84Desvios, nº 3, p. 6.
85 SADER, Eder, PAOLI, Maria Célia & TELLES, Vera da Silva – Pensando a Classe Operária: os Trabalhadores Sujeitos ao Imaginário Acadêmico in Revista Brasileira de História, nº 6, São Paulo, 1984; e
SADER, Eder & PAOLI, Maria Célia – Sobre “Classes Populares” no Pensamento Sociológico Brasileiro
(Notas de Leitura sobre Acontecimentos Recentes) in CARDOSO, Ruth C. L. A Aventura Antropológica – Teoria e Pesquisa, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1986.
capacidade de autonomia e auto-organização, ali onde se acreditava impossível acontecer. Os debates eram acalorados e as polêmicas, por vezes, ferozes. Mas o desafio estava posto e exigia novas categorias de pensamento, outros procedimentos e outros critérios para apreender e nomear a novidade que então ia se configurando no cenário brasileiro.”86
E prossegue:
“Foi nesse contexto polêmico que então, junto com Maria Célia Paoli e Eder Sader, demos início a uma pesquisa que tratava exatamente de decifrar, através dos textos que conformaram o imaginário acadêmico brasileiro (mas não só acadêmico), o sentido de uma novidade tematizada e figurada pelo que então chamávamos da ‘nova produção acadêmica’ sobre trabalho e trabalhadores. ‘Representação dos trabalhadores nas ciências sociais: tradições e rupturas (1983-1984)’ foi o nome dessa pesquisa. (...) a questão então que nos movia era a elaboração, no campo intelectual, de novas figuras de classe que construíam uma nova representação acerca da sociedade e da política. (...) essa leitura cruzada de textos produzidos em tempos distintos nos levou a um empreendimento teórico de maior fôlego. Os trabalhos de Claude Lefort, e também o pensamento de Merleau Ponty, nos ocuparam, por meses seguidos, em um estudo constante (...). Foi nessa matriz que tentávamos – e depois, cada qual em suas próprias pesquisas – lidar com a novidade que aqueles anos pareciam introduzir. (...) o que esses autores sobretudo nos ensinam é um modo de interrogar o mundo e se investir nas questões que a experiência da sociedade nos propõe.”87 A respeito de seu encontro com Sader e Paoli, relata a mesma autora:
86 TELLES, Vera da Silva - Memorial Apresentado em Concurso para Provimento de Cargo de Professor Doutor no Dptº de Sociologia da USP, p. 17.
“Eu acho que foi um encontro importante. O Eder, no fundo, trazendo um pouco a vinculação da militância política com a academia; (...) era uma pessoa com muito maior erudição do que a minha, mas então tinha uma ponte fortíssima comigo, que vinha um pouco dessa literatura autonomista que eu conhecia e que, de alguma maneira, eu praticava. Seja via movimentos populares, mas sobretudo pela vinculação operária. Porque era a turma que defendia as oposições sindicais, as comissões de fábrica. Então tinha toda uma literatura sobre comissões que vinha exatamente das várias linhagens autonomistas francesas e italianas. Então me vinculei fortemente a isto. Cheguei a me vincular a grupos, cheguei a escrever sobre isso. Fazia assessoria pra grupos de comissão de fábrica. Eu tive uma atuação bastante forte em relação a isto. Pequenininha, porque era tudo pequeno, artesanal e tal. Mas eu era muito umbilicalmente ligada a isto. (...) E a Maria Célia trazia coisas pela erudição acadêmica. E ela foi fazendo a elaboração toda, foi percebendo sinais disso pela produção mais acadêmica – que, naquela época era acadêmica, mas era tudo tão militante, né? A minha entrada veio muito mais no percurso ‘anos 70’, desse jeito, do que propriamente um percurso acadêmico. (...) Então é uma outra relação com a universidade, inclusive, né?”88
Por essa passagem se depreende como a militância pregressa (“anos 70”) e concomitante às carreiras acadêmicas desses intelectuais conformou de modo significativo o que produziam em termos analíticos e teóricos, bem como suas trajetórias profissionais, auxiliando-se a impactar, no sentido da mudança, o meio universitário do período.
Marco Aurélio Garcia também fazia reflexão similar, afirmando que “a classe operária sempre ocupou um lugar secundário na historiografia brasileira”.89 Entendia ele que aos poucos a análise sociológica e histórica dos trabalhadores brasileiros assumia um lugar central em nossa produção intelectual, exemplificando tal processo com o trabalho de documentação desenvolvido pelo CPV (Centro Pastoral Vergueiro), a dissertação de mestrado em História
88 Entrevista a mim concedida em 21/10/2006, em São Paulo/SP.
89 GARCIA, Marco Aurélio – São Bernardo: a (auto) construção de um movimento operário – notas para discussão, p. 27 (nota).
(na UNICAMP) de Amnéris Maroni que resultou no clássico livro “A Estratégia da Recusa”, bem como as pesquisas então em andamento de Laís Abramo e Vera da Silva Telles.90 A visão de Garcia a respeito era bastante circunscrita ao ambiente intelectual paulista.
Em termos do pensamento sociológico, os intelectuais da Desvios desenvolviam análises similares às produzidas no CEDEC, mas com um acento mais discursivamente de esquerda e, principalmente, se atendo à questão particular do autonomia diante de quaisquer instituições. O que é apropriadamente ilustrado pelo resumo introdutório do artigo de Marilena Chauí, “Por uma Nova Política”, no primeiro número da revista:
“Ante um Estado que absorve a sociedade civil, qual o significado dos movimentos sociais que não buscam apenas reivindicar interesses mas criar novos direitos? Uma crítica da política tradicional, passando pela trajetória da idéia de representação para chegar aos desafios postos pela proposta de autonomia.”91
Essa identificação do “novo” no movimento popular brasileiro que se reconstruía era uma constante nos trabalhos dos intelectuais ligados ao coletivo da revista Desvios. Veja-se por exemplo a seguinte passagem:
“O que caracteriza o movimento que se constitui nestes últimos anos no ABC não é somente seu caráter massivo e sua combatividade, mas, sobretudo, sua crescente autonomia frente ao Estado e às organizações políticas. (...) [características estas] tão raras na história do Brasil.”92
Já em seu segundo número, um artigo de Amnéris Maroni era apresentado como sendo a continuação da “reflexão iniciada em seu livro ‘A Estratégia da Recusa’, buscando mostrar o que há de novo no movimento operário de São Bernardo”. Esse artigo, “A Fábrica: espaço
90 GARCIA, Marco Aurélio – São Bernardo: a (auto) construção de um movimento operário – notas para discussão, p. 27 (nota).
91Desvios, nº 1, p. 6.
92 GARCIA, Marco Aurélio – São Bernardo: a (auto) construção de um movimento operário – notas para discussão, p. 11. A expressão em negrito estava originalmente em itálico; tendo em vista a parte aqui transcrita
de poder”, tinha sua primeira parte intitulada “Os ‘Novos Métodos’ da luta operária no espaço fabril”, novos métodos que incluíam, por exemplo ocupações de fábrica.93
Em outro número da Desvios, Amnéris Maroni e Augusto Portugal Gomes, colocavam em relevo vários qualificativos para esse “novo sindicalismo”:
“A criatividade dos operários de São Bernardo é um fato. Desde 78 várias formas de luta se desencadearam na região. (...) Forçados a produzirem sempre fatos novos – recusando o nível institucional e tradicional das formas de luta -, o movimento de São Bernardo impõe as condições de sua visibilidade. Ou seja, sua presença política se impõe pela recusa do mesmo.”
“A conflituosidade microscópica de que falávamos tem, portanto, características específicas. (...) [Havia um] potencial para criar e experimentar formas diferentes de relações cotidianas.”
“Eis que a horizontalidade do questionamento do poder é que potencializa, hoje, os novos movimentos sociais e, particularmente, o movimento operário.”
“Ao que tudo indica, essa nova forma de ‘transar a política’, essa nova forma de se impor como sujeito, a recusa ao delegacionismo do poder está ligada ao atual desenvolvimento das sociedades capitalistas. Daí porque recuperamos o operário massa enquanto novo sujeito, porque luta de forma específica. Nele está presente também uma nova subjetividade que é preciso ‘arrancar’ das amarras (ideologizadas) de pensar o sujeito.”94
Criatividade, anti-institucionalismo, cotidiano “microscópico” (correspondendo a micro-relações sociais, de caráter conflituoso), horizontalidade, questionamento do poder em si, democracia direta (anti-delegacionismo), subjetividade. Tudo isso compunha, direta ou indiretamente, o “novo” movimento popular brasileiro. Todavia, mais do que atributos seus, eram também elementos constitutivos de um novo olhar intelectual sobre o “novo sindicalismo”, os “novos movimentos sociais”, o “novo sujeito” “de baixo” da sociedade
93Desvios, nº 2, p. 6 e 30/31.
94 MARONI, Amnéris & GOMES, Augusto Portugal – A Gestão da Produção como Forma de Luta, p. 52 e 65
(os três últimos parágrafos). As expressões em negrito estavam originalmente em itálico; tendo em vista as partes aqui transcritas estarem em itálico, optei por inserir o negrito para manter os destaques dados pelos autores.
brasileira, agora finalmente visível com toda força para o campo intelectual, que por isso se renovava. Os fatores ensejadores de uma potente autonomia operária e popular eram elencados, quase em termos típico-ideais, pelo coletivo da revista Desvios.
É claro que essa ênfase dos “autonomistas” paulistas não se construía e se propagava sem nuances. Não poderia ser de outra maneira para intelectuais engajados que acompanhavam com muita proximidade os movimentos que estudavam e apoiavam. Daí vermos, por exemplo, Marco Aurélio Garcia ponderar, quanto às diferenças entre o sindicalismo do ABC paulista e o da Oposição Sindical Metalúrgica (OSM) de São Paulo/SP:
“Uma visão imediatista e, por vezes, superideologizada dos processo em curso em São Bernardo e São Paulo apresentava o primeiro como um exemplo negativo de concessão ao sindicalismo oficial e o segundo como paradigma de sindicalismo independente, construído pela base, a partir das comissões de fábrica.”95
Obviamente, a menção negativa a uma “visão” “superideologizada” só poderia, no caso, ser feita em nome da complexidade e diversidade empírica das lutas operárias.
Da mesma forma, Eder Sader e Vera da Silva Telles afirmavam:
“As derrotas sofridas pela OSM [em eleições sindicais e greves entre 1978 e 80] (...) levaram muita gente a colocar uma epitáfio sobre ela: fora apenas a expressão de uma fase já ultrapassada do movimento, uma espécie de pré-história, ainda que heróica. E ante os êxitos de São Bernardo, toneladas de observações de bom senso foram despejadas acerca da importância da utilização do sindicato, subestimado pela OSM.”
“(...) isso acabou por implicar num clima de silêncio sobre uma das mais ricas experiências e formulações de um movimento autônomo, presentes na história da OSM.”
“As oposições sindicais que então começam a surgir e a crescer em diferentes categorias, em diferentes cidades e também no campo, tinham por referência as experiências de São Paulo...”
95 GARCIA, Marco Aurélio – São Bernardo: a (auto) construção de um movimento operário – notas para