“A fusão pelo alto mostrara-se ilusória, perigosa e destrutiva, de forma que só restavam dois caminhos ainda abertos ao filósofo que tivesse a pretensão de ser útil: a penetração progressiva nos órgãos periféricos do poder e o estabelecimento
– com o apoio da nascente opinião pública – de um lugar destinado à oposição a tal poder, no território daquela sociedade civil que estava à procura de sua autonomia.” (LEPAPE, Pierre - Voltaire - Nascimento dos Intelectuais no Século das Luzes, Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1994, p. 188)
O Centro de Estudos de Cultura Contemporânea – CEDEC – normalmente é identificado como tendo surgido enquanto uma dissidência do CEBRAP. É o que afirma, por exemplo Milton Lahuerta, para quem uma minoria de intelectuais cebrapianos, entre eles Francisco Weffort e Francisco de Oliveira, teria se oposto à aproximação com o MDB, processo liderado por Fernando Henrique Cardoso, entre outros. Fundaram então o CEDEC, em maio de 1976.1
Bernardo Sorj aponta que o CEBRAP pouco se debruçava sobre a questão das classes sociais no país, tendo sido formado, ainda antes do CEDEC, com Weffort e Boris Fausto à
1 LAHUERTA, Milton – Intelectuais e Resistência Democrática: Vida Acadêmica, Marxismo e Política no Brasil in Cadernos AEL, nº 14-15, Campinas, IFCH/UNICAMP, 2001, p. 11/12. Veja-se também: BRANT,
Wanda Caldeira – Tributo a um Grande Homem com Coração de Menino in Teoria e Sociedade, nº 4, Belo Horizonte, UFMG, out/1999.
frente, um grupo de estudos sobre a classe operária, que cedo se dissolveu. Mas uma parte dos membros desse grupo teria participado da fundação do CEDEC.2
Parece que o desejo de pesquisar prioritariamente as classes populares brasileiras foi uma forte motivação para o surgimento do CEDEC.
Mas para alguns protagonistas desses processos do campo intelectual brasileiro de então, o CEDEC não constituía um “racha” do CEBRAP. José Álvaro Moisés, um de seus fundadores, narra que o CEDEC nasceu na garagem de sua casa, no bairro de Vila Madalena, em São Paulo. Logo depois a PUC/SP, sob o influxo da onda progressista desde as bases da Igreja Católica, que a aproximava da esquerda e dos movimentos populares, cederia uma casa em frente ao seu campus. Tratava-se inicialmente de uma proposta de organização intelectual de resistência, que procurava fugir das restrições impostas pelo regime militar dentro da USP. E nega a versão do “racha”:
“Não, isso é bobagem. Isso aí, desde o primeiro dia apareceu essa versão de que o CEDEC era uma espécie de CEBRAP do B e nós todos, desde o primeiro dia, dissemos: não é isso, é outra coisa, tem espaço em São Paulo para duas, três instituições dessa natureza.”3
De certa forma negando o apontado por Sorj, Moisés afirma que havia no CEBRAP um grupo de pesquisadores da área sindical, aglutinado por Weffort, que contava com a participação de Régis de Castro Andrade, Fábio Munhoz, Luis Werneck Vianna, Ingrid Sarti, Maria Hermínia Tavares de Almeida e ele próprio. Alguns deles estavam fazendo pós- graduação em ciência política na USP com Weffort. O grupo crescia e começava a ocupar espaço tanto físico quanto intelectual, disputando os restritos financiamentos de pesquisa no interior do CEBRAP, normalmente oriundos da Fundação Ford. Como havia já muitos intelectuais de grande prestígio acadêmico e também político no CEBRAP – Fernando Henrique, Octavio Ianni, Francisco de Oliveira, posteriormente Lúcio Kowarick, Vinícius Caldeira Brant, entre outros – a decisão teria sido de ordem pragmática:
2 SORJ, Bernardo – A Construção Intelectual do Brasil Contemporâneo – da Resistência à Ditadura ao Governo FHC, Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2001, p. 46.
“Nós entendemos na época que era mais prático, ao invés de ficar disputando financiamento dentro de um contexto onde os recursos eram limitados, fazer uma outra instituição, basicamente voltada para o estudo da questão da democracia e da questão da participação, como decorrência, os movimentos sociais, o movimento sindical.”4
Foi fundado então o CEDEC por José Álvaro Moisés, Francisco Weffort, Lúcio Kowarick, Vinícius Caldeira Brant, Marilena Chauí e Almino Afonso (ex-parlamentar que voltara do exílio), entre outros. Depois, diversos intelectuais vieram a participar do CEDEC, como Maria Victoria Benevides, Gabriel Cohn, entre outros. O novo organismo posteriormente obteria financiamentos de várias origens: além da Fundação Ford, instituições de apoio ou fomento canadenses, francesas, alemãs, suecas...
Mas o que é afirmado por Lahuerta e apenas sugerido por Sorj coaduna com o depoimento de outros participantes destacados do CEDEC. Como é o caso de Pedro Jacobi, que entende ter havido um processo de dissidência no CEBRAP que levou ao surgimento do CEDEC.5
É possível que o tom assumidamente pragmático, dado por Moisés, para caracterizar o nascimento do CEDEC, deva-se ao fato de ele mesmo ter se aproximado do MDB, ainda na primeira metade da década de 70. Junto com Fernando Henrique Cardoso e outros intelectuais, ele participou de atividades do Instituto de Estudos Políticos Econômicos e Sociais (IEPES), ligado ao MDB. Várias palestras foram ministradas por intelectuais, cebrapianos ou não, via IEPES, tratando de temas como democracia, participação política, Estado, movimentos sociais. Da mesma forma, convidado por Fernando Henrique Cardoso, Moisés passou a escrever artigos no Opinião, jornal de oposição à ditadura, passando a ser conhecido por um público mais amplo.6 Assim, ele foi crescentemente solicitado por sindicatos, movimentos de bairros, comunidades de base, grupos ligados à Igreja Católica, para falar sobre esse assuntos. Com a criação do CEDEC, esse processo perdurou.
Além disso, Moisés menciona que uma parte dos intelectuais do CEBRAP, mais ou menos ligados ao MDB, consciente e publicamente passou a ter uma atuação política conjunta:
4 Entrevista a mim concedida em 25/04/2006, em São Paulo/SP.
5 Entrevista a mim concedida no final de abril de 2006, em São Paulo/SP.
“Não havia acordos, nem definição programática entre nós, mas fundamentalmente a idéia de colocar o problema da democracia, o problema da organização de massa para lutar contra o regime e defender a democracia. Participava desse grupo o Weffort, o Fernando Henrique Cardoso, o Chico de Oliveira (...) nós nos reuníamos a cada 15 dias (...). Não é que se tratasse de definir uma linha, nunca se fez isso. Havia um negócio completamente livre, cada um ia pro caminho que quisesse. Mas era um pouco a idéia de fazer um balanço da conjuntura e, digamos, refletir sobre em que direção nós podíamos escrever.”7
Trata-se aqui, obviamente, do “partido intelectual” ou “da inteligência” mencionado tanto por Daniel Pécaut como por Lahuerta, como já visto no capítulo 1.
De qualquer maneira, essa visão de Moisés é quase oposta à recapitulação histórica que Sorj faz do CEBRAP, na qual sua vida interna coletiva vai diminuindo face à diversificação temática das pesquisas e à crescente divisão entre seus membros quanto a questões mais políticas, especialmente no que tange à formação de um partido dos trabalhadores.8
Voltando ao CEDEC, Moisés assim descreve o grupo inicial de participantes, bem como o que os movia:
“Nesse contexto, nós formamos um grupo de intelectuais com muita diversidade interna, digamos um elemento de diversidade muito forte. Tinha gente mais crítica, tinha gente como eu ligada à experiência católica, de uma experiência católica crítica, tinha gente que tinha sido ligada ao trotskismo, gente ligada ao Partido Comunista. Tinha também algumas pessoas com orientação, digamos liberal de esquerda. (...) Nesse contexto se desenvolveu, pra mim, uma posição muito crítica em relação, particularmente, à experiência soviética e ao marxismo. Eu diria que o meu impulso no sentido de formular a questão dos movimentos sociais, de pensar os movimentos sociais, está muito ligado a essa visão crítica. Num certo
7 Entrevista a mim concedida em 25/04/2006, em São Paulo/SP. 8 SORJ, Op.Cit., p.57.
sentido, a idéia era escapar do mecanicismo usual da ortodoxia marxista. Era como escapar do mecanicismo, ou da idéia segundo a qual, por exemplo, no caso da classe trabalhadora, deveria se seguir logicamente, necessariamente, à realidade da dominação, a produção de consciência de classe, organização... era uma seqüência lógica (...) embora em Marx isso seja mais contraditório, mas na leitura ortodoxa era quase que uma seqüência lógica, mecânica... um atributo de classe. Bem, como a realidade não cabia dentro disso, e eu estava muito voltado, digamos, preocupado em entender a realidade, digamos que esse caminho foi um caminho de crítica teórica. O meu caminho de crítica teórica ao marxismo vai da empiria para a teoria, vai do mundo real, do mundo prático, para a teoria.”9
Outra passagem de Moisés revela algo semelhante:
“(...) as classes sociais existiam, mas se comportavam de modo diferente no Brasil (...); a análise dessas especificidades deveria marcar, portanto, uma inflexão importante dos estudos dos movimentos sociais.”10
Este trecho de José Álvaro Moisés, a meu ver, é excepcionalmente claro no sentido de fornecer significado à atividade intelectual inaugural do CEDEC. Tratava-se de um conjunto de intelectuais de diversos matizes de esquerda, críticos em maior ou menor grau do marxismo ortodoxo, crítica esta que se fazia discutindo-se classes sociais a partir dos movimentos sociais em geral, bem como desconstruindo-se o acúmulo teórico da esquerda majoritária no Brasil e no mundo, até 1964 ou 68, a partir da realidade empírica, apreendida por meio de pesquisas acadêmicas, mais ou menos engajadas. Milton Lahuerta ressalta, neste sentido, que o CEDEC iria desenvolver não apenas uma análise da sociedade brasileira, mas também da esquerda mundial.11
9 Entrevista a mim concedida em 25/04/2006, em São Paulo/SP.
10 MOISÉS, José Álvaro - Memorial de Atividades Apresentado para Concurso para Provimento de Cargo de Professor Titular no Dptº de Ciência Política da USP, São Paulo, 2000, p. 12.
Mas ainda falta algo, que é bem ilustrado pela trajetória de Moisés durante seu doutorado na USP, orientado por Weffort e feito entre 1974 e 1978:
“(...) a minha tese de doutoramento foi sobre os movimentos de bairro de São Paulo. (...) E descobri que tinha havido nos anos 50, num período que vai de 50 até 64, movimentos em bairros periféricos de São Paulo, cujo motivo, cuja motivação, era protestar contra as condições urbanas de vida. Por aí que eu fiz minha ponte com os movimentos sociais urbanos. Qual era a influência teórica mais importante? Era a idéia que você tinha na concepção das relações Estado-Sociedade, você tinha uma tendência de organização autônoma da sociedade civil, em confrontação com o Estado ou em negociação com o Estado, variava conforme o caso.”12 Ou seja, os matizes de marxismo não-ortodoxo que estavam subjacentes a essas e outras pesquisas de estudiosos do CEDEC enfatizavam a autonomia dos movimentos sociais diante do Estado, algo que discrepava grandemente da experiência populista brasileira, a qual o PCB era bastante ligado. O trecho abaixo, embora não referido ao marxismo, aponta nesse sentido, conjugando inclusive uma dualidade em que de um lado está o Estado e a política e, noutro, a sociedade e seus movimentos:
“À primeira vista, a preocupação com os movimentos sociais era circunstancial, nascia da experiência de perda da liberdade e da percepção de que uma parte significativa da sociedade brasileira apoiava um regime político não-democrático, regime cujos efeitos econômicos e sociais eram muito discutíveis; impunham-se, então, temas de pesquisa que poderiam produzir um conhecimento contrafactual, pois se no plano político a sociedade não podia manifestar-se, cabia indagar sobre as suas tendências de participação econômica, social e cultural. Havia sinais de participação? Como eles deveriam ser interpretados?”13
12 Entrevista a mim concedida em 25/04/2006, em São Paulo/SP. 13 MOISÉS, Op.Cit., 12.
Radicalizando a concretização da palavra de ordem cebrapiana14 sintetizada por Fernando Henrique Cardoso – “reativação da sociedade civil” – e coerente com o próprio espírito intelectual da esquerda do período, José Álvaro Moisés e o membros do CEDEC estabeleceram crescentemente contatos com os movimentos populares.
“(...) eu diria que toda essa experiência de pesquisa e também de ligação com esses movimentos acabaram me colocando numa posição onde as pessoas me convidavam pra fazer palestras, pra explicar. Eu acho que eu viajei o Brasil inteiro, praticamente, falando desses movimentos todos. É, eu circulava muito em São Paulo, na Zona Leste, Zona Sul, no interior. Teve muito desse tipo de militância. Depois, quando eu terminei essa fase de estudos – foi mais ou menos paralelo, né? – de protesto urbano, eu voltei ao movimento sindical. E aí eu fui estudar os movimentos sindicais que estavam nascendo no ABC.”15
Além de interagir com movimentos sociais urbanos de São Paulo e com os emergentes sindicalistas do ABC (chegando a fazer assessoria sindical em Santo André), José Álvaro Moisés conhecia bem a Oposição Sindical Metalúrgica da capital paulista, especialmente um de seus líderes, Waldemar Rossi, até por conta de suas relações com a Igreja Católica – Moisés tinha participado do movimento estudantil nos anos 60 como militante da AP (Ação Popular).
Moisés relata ainda que o círculo intelectual em torno do CEDEC era menos amplo do que o da época do CEBRAP, embora fossem todos muito próximos, até pela majoritária origem comum, a área de ciência sociais da USP.
Uma das primeiras pesquisas desenvolvidas pelo CEDEC foi a intitulada “Situação dos trabalhadores nos centros urbanos (movimento operário na América Latina)”. Realizada durante os anos de 1978/79, foi coordenada por José Álvaro Moisés. Seus objetivos eram: apreender as condições históricas gerais que levaram à subordinação do movimento operário à política do Estado e das classes dominantes; analisar questões relativas ao
14 Conforme, ainda, LAHUERTA, Op.Cit., p.14.
desenvolvimento/atrofiamento do movimento operário na base; e verificar possíveis soluções organizatórias encontradas pelo movimento operário diante desses problemas.16
De acordo com o CEDEC, essa pesquisa originou ou ajudou a originar trabalhos como:
• “Liberdade Sindical e Democracia – entrevistas com líderes sindicais”, na Revista de Cultura Contemporânea nº 1, São Paulo, CEDEC, jul/1978;
• artigos no livro clássico “Contradições Urbanas e Movimentos Sociais”, organizado por Moisés e outros estudiosos;
• o estudo de Moisés sobre a grande greve dos anos 1950 em São Paulo, que veio a público, em 1978, mimeografado com o título “A greve dos 300 mil e as comissões de empresa”, que teve grande repercussão;
• o artigo, também de Moisés, “Movimentos de Mobilização Popular na Grande São Paulo” na revista Contraponto, do Centro de Estudos Noel Nutels, no Rio de Janeiro;
• artigos com intelectuais latino-americanos como José Nun e Juan Carlos Torre. Dessa pesquisa nasceu também o debate, organizado em conjunto com a PUC/SP e realizado em 1979, sobre “A estrutural sindical e a questão da lei de greve”, que contou com a presença de Evaristo de Moraes Filho, Décio Saes, Jacob Gorender, entre outros. Bem como um curso de extensão universitária na PUC/SP, realizado ainda em 1978, sobre “Problemas Atuais do Movimento Operário no Brasil”.
Preliminarmente já se vê que os primeiros estudiosos do CEDEC preocupavam-se com a ausência de autonomia dos movimentos dos trabalhadores e também já exploravam os até então pouco estudados movimentos sociais urbanos. A intenção de “dar voz” às lideranças operárias então emergentes, por meio de entrevistas numa publicação, refletia sem dúvida um diagnóstico, mais ou menos claro, de que tal autonomia só poderia advir da ação dos próprios trabalhadores. Além disso o CEDEC parecia se propor a articular intelectuais não só de São Paulo e não só de origem uspiana, algo que se verifica, respectivamente, pelos contatos estabelecidos com intelectuais do Rio de Janeiro e da América Latina e pela participação, em evento seu, de estudiosos militantes como o socialista Evaristo de Moraes Filho e o comunista Jacob Gorender.
16 _______________ - Relação de Atividades realizadas pelo CEDEC (mimeo), São Paulo, CEDEC, s/d, p.
1/4 (este documento foi fornecido pelo setor de arquivo do CEDEC, não tendo título, razão pela qual nomeei-o precariamente dessa maneira).
Outra pesquisa do CEDEC, “Situação dos trabalhadores urbanos (movimento operário e as grandes greves de 1978 no ABC, São Paulo e Osasco)”, também coordenada por Moisés durante os anos 1979/80, prosseguia na mesma direção. Ela consistia no levantamento dessas greves “para obter informações mais completas sobre as origens e as formas de irrupção do movimento grevista; a importância da mobilização de base, e os modos pelos quais estas iniciativas se relacionam com os sindicatos”.17
Verifica-se que a preocupação do CEDEC com a autonomia dos movimentos dos trabalhadores vinculava-se antes às articulações de base do movimento sindical do que à institucionalidade sindical oficial. Além disso, revelava a preocupação dos intelectuais de esquerda da época em tentar capturar analítica e políticamente, ainda no calor dos acontecimentos, as causalidades e significados envolvidos no movimento operário que irrompia no final da década de 70.
Essa pesquisa teve como um dos resultados a produção, por Moisés, do vol. II de “A História da Classe Operária”, como trabalho de assessoria à ACO (Ação Operária Católica), no ano de 1982. A presença da vertente progressista da Igreja Católica nesse cenário político- intelectual efervescente era clara.
“Estrutura e representação sindical e survey ‘Pesquisa nacional sobre organização sindical e sobre contribuição sindical’”, coordenada por Moisés e Régis de Castro Andrade, de 1980 a 1983 (com financiamento da Fundação Ford), foi uma pesquisa desenvolvida pelo CEDEC a seguir. Além de “verificar a opinião e o comportamento de líderes sindicais frente à estrutura corporativista”, ela se propunha a “criar um espaço de reflexão conjunta entre sindicalistas e outros atores sociais (intelectuais, advogados, políticos e empresários)” a fim de “subsidiar a luta sindical em seus objetos de participação da reforma sindical em debate desde 1979”. Dela participavam também a Universidade Federal do Rio Grande do Sul, a Universidade Federal de Minas Gerais, o Centro Josué de Castro (ONG de Recife/Pernambuco) e o ILDES (Instituto Latino-Americano de Desenvolvimento Econômico, “nome fantasia” da Fundação Friedrich Ebert no Brasil, ligada à social- democracia alemã).18
Dos objetivos da pesquisa já se observa que ela consistia numa investigação engajada, que incluía já uma intervenção política, até por conta de um relacionamento inicial com uma ONG (ainda não chamada assim, pois o nome nem existia à época) e do financiamento de origem internacional historicamente à esquerda no campo ideológico – ainda que apenas
17 _______________ - Relação de Atividades realizadas pelo CEDEC (mimeo), p. 6. 18Idem, p. 7/10.
nominalmente. O caráter nacional da pesquisa certamente ajudava o CEDEC a se projetar no campo intelectual brasileiro
Alguns trabalhos produzidos no contexto dessa pesquisa, de acordo com os arquivos do CEDEC:
• a dissertação de mestrado de Laís Abramo (em sociologia na USP, orientada por José de Souza Martins), sobre a greve dos metalúrgicos em São Bernardo;
• alguns números da série Cadernos Populares, realizada junto com a Editora Vozes (vinculada à Igreja Católica), tais como: “Sindicatos: autonomia e unidade” (1984) e “O que é Sindicato” (1983);
• trabalhos de Márcia de Paula Leite como “Reivindicações Sociais dos Metalúrgicos”, de 1983 (publicado em mais de uma forma), sua dissertação de mestrado em ciência política na UNICAMP, bem como seus livros “O Movimento Grevista no Brasil” (1987, Coleção Tudo é História, da Brasiliense – tradicional editora fundada por Caio Prado Jr., ligada à esquerda) e “O que é Greve” (1988, Coleção Primeiros Passos, também da Brasiliense);
• o artigo original de Moisés “A Estratégia do Novo Sindicalismo”, publicada na Revista de Cultura Política, nº 56, São Paulo, abr-set/1981;
• um artigo mimeografado sobre o movimento sindical no Rio Grande do Sul; • um artigo de Ingrid Sarti e Clarice Melamed sobre o CONCLAT (Congresso
Nacional da Classe Trabalhadora) de 1981;
• o artigo na Dados – revista acadêmica do IUPERJ – de Sarti e Ruben Barboza Filho, intitulado “Desafios e Desafinos nos Caminhos da Cidadania” (nº 3, vol. 26, Rio de Janeiro, 1983);
• trabalhos de Roque Aparecido da Silva sobre estrutura sindical, greves de metalúrgicos e as questões da representatividade, democracia e unidade no sindicalismo brasileiro.
A partir desses resultados, verifica-se que cedo o CEDEC ocupava posição de destaque no campo intelectual brasileiro ligado ao pensamento progressista, pois conjugava a recepção de jovens pesquisadores em ciências sociais da USP e UNICAMP com a ocupação de espaços nos meios acadêmicos de circulação (a revista Dados é uma das mais importantes na área de ciências sociais no Brasil, sendo editada pelo IUPERJ desde 1966) e com a presença significativa em publicações de cunho introdutório e pedagógico, que atingiam um público mais amplo, como é o caso das coleções Primeiros Passos e Tudo é História.
Enquanto as pesquisas sobre o mundo sindical prosseguiam, durante todos os anos 80, o CEDEC ampliava as temática investigadas. Formou-se um grupo de pesquisas sobre