Em seu artigo intitulado Os novos letramentos digitais como lugares de
construção de ativismo político sobre sexualidade e gênero, Moita Lopes (2010)
pensa os espaços virtuais como lugares de ativismo político e de construção de significados transgressores sobre a vida pública e privada. Ele ainda caracteriza a Web 2.0 enquanto prática social (de letramento digital) com um modo específico de pensar e agir.
Partindo de uma outra lente conceitual, concordamos com este quando ele afirma que os espaços virtuais atuais, da Web 2.0, se assemelham às praças públicas na Antiguidade ou aos moinhos da Idade Média, por se constituírem como espaços nos quais a vida pública e privada foi/é constantemente discutida e problematizada, resultando em construções de alternativas para a vida social, longe dos olhos reguladores da Igreja.
Ele vai se remeter, assim, à ágora grega, na qual as pessoas se reuniam para o exercício da cidadania, sobre decisões fundamentais, gerando a vida
democrática; e aos moinhos medievais, lugares de fluxo de informações culturais, sexuais e técnicas, essencialmente transgressores, cuja função era reinventar a vida social e política, numa alternativa para os dogmas religiosos pesadamente impostos à população.
Em suma, sua tese é a de que a Web 2.0 representa, semelhante à ágora grega, o espaço democrático de debates políticos sobre a vida pública e privada e, portanto, de ativismo político. Além disso, semelhante aos moinhos medievais, esses espaços virtuais permitem a libertação de um constrangimento histórico e milenar, quando possibilitam o questionamento de princípios tradicionais que regem a vida pública.
Para nossa pesquisa, ainda é importante a caracterização que o autor sintetiza do mindset Web 2.0 e a sua comparação com a Web 1.0. A primeira geração da Web tinha um caráter fortemente industrial, de produção para o consumo, isto é, havia uma grande separação entre produtores e consumidores. A tela do computador era um lugar em que se oferecia um conteúdo acabado a ser acessado. Assim, nas páginas disponibilizadas na web, persistia a autoridade do autor como especialista, e seu conteúdo tinha um único fluxo, o de consumo pelo usuário da internet. Já a Web 2.0 opera sob a lógica da interatividade, da colaboração e da participação, gerando uma espécie de inteligência coletiva e a possibilidade da intensificação das relações sociais por meio de redes sociais, fóruns, chats etc.
Essas duas gerações da Web caracterizam dois modos de agir e pensar ou a atitude metal (mindset) de uma época, importando observar as mudanças e os ganhos da Web 2.0 em relação à Web 1.0. Enquanto a primeira geração opera com uma tecnologização sofisticada, mas não altera os modos de consumo nem as formas de pensar e agir em ambientes virtuais, a Web 2.0 modifica o modo de vida contemporâneo, por meio da alteração dessa tecnologia, e cria novos modos de agir e de estar no mundo.
Um exemplo dessa mudança é a importância que damos ao ato de compartilhar a informação, tão típico de nossa época. Há uma verdadeira compulsão por compartilhar com o outro conteúdos diversos, ao invés de guardá-los para si, relativos tanto à vida pública quanto à vida privada - de modo que esses dois âmbitos são constantemente confundidos e entremeados. Para Schrage (apud MOITA LOPES, 2010), não somos a sociedade da informação, mas a sociedade da
intensificação das relações sociais. O que importa é a ação colaborativa, que adquire caráter coletivo, dispersando ou apagando a autoria, muitas vezes, em consequência.
Tal mindset propicia ainda as práticas de remixagem/hibridizações dos artefatos culturais: textos, música, vídeos etc., construídos por outros, originando novos produtos. Este é o caso da fanfiction, por exemplo. Nessas condições, o consumidor confunde-se com o produtor, e seus papeis já não são mais claramente separados e únicos, mas duplos: ao mesmo tempo em que se consome conteúdo, se produz conteúdo, e vice-versa. Conforme o autor,
do ponto de vista epistemológico, a compreensão teórica do mindset da Web 2.0 como ações de pessoas em conjunto em espaços entendidos como práticas sociais de letramento torna possível qualificá-los como lugares onde a vida social pode ser construída, criticada, transformada, reinventada ou, em última análise, transgredida. Desse modo, é possível dizer, seguindo O’Reilly (2005) que ‘a Web 2.0 não é uma tecnologia, mas uma atitude’” (MOITA LOPES, 2010, p. 400)
De modo análogo ao de Moita Lopes, porém de uma perspectiva distinta da apreensão das características essenciais da Web 2.0 e do seu impacto cultural na vida do homem contemporâneo, observamos que ela, enquanto espaço social de atuação humana, guarda certa essência da praça pública carnavalizada bakhtiniana.
Alguns séculos nos separam da Idade Média. Obviamente, muitos aspectos de nossas vidas se modificaram ao longo do tempo: as tecnologias modificaram a nossa percepção do mundo, na medida em que houve enormes avanços tecnológicos, tanto na área de transporte, quanto na área de comunicação; instituições como a Igreja e o Estado também têm uma natureza quase radicalmente oposta à que tinham durante a Idade Média – a Igreja Católica não exerce mais uma influência determinante e inquestionável na vida do homem e hoje disputa influência com outras religiões no mundo ocidental, como o Protestantismo e suas diversas vertentes, ou ainda com o Ateísmo e o Agnosticismo, dentre outros posicionamentos religiosos; o Estado brasileiro hoje é republicano representativo, com voto popular democrático, e com a Constituição Nacional prevendo como direitos fundamentais e universais a liberdade, a igualdade e a justiça. Não é necessário seguir em frente para verificarmos que o homem contemporâneo não pode ser considerado da mesma maneira que o homem medieval.
Contudo, há certos valores e sensações humanas que são atemporais, como os medos, as incertezas, as contradições, as intolerâncias, os ideais, as utopias. Considerando ainda a lógica marxista de luta de classes, ainda funcionamos numa
dinâmica de exploração de uma classe oprimida por outra opressora (ou, dialogicamente, por meio de todas as disputas que ocorrem em todas as relações humanas, de maneira pulverizada e múltipla, em lugar da dualidade maniqueísta). A disputa incessante por interesses e poder, embora veicule diversos conteúdos, mantém sua mesma natureza: forças centrípetas, reacionárias, tradicionais e coercitivas em luta com forças centrífugas, revolucionárias, vanguardistas e libertadoras. E do contato entre essas forças, temos as mais variadas decomposições e combinações, entre uma e outra, em todas as direções, ocorrendo em diversos níveis, em todas as esferas de atividade. Embora de modo diferente da Idade Média, o homem contemporâneo ainda é afligido por tabus morais, sociais e religiosos; ainda sofre certa alienação em decorrência de seu trabalho e de sua posição social; ainda guarda em seu íntimo frustrações e fantasias, desejos e medos, dissimulações e culpa.
Por essa razão, dentre outras, as festas carnavalescas populares modernas ainda representam uma espécie de fuga da realidade estéril cotidiana. Elas criam uma atmosfera de possibilidades e utopias, têm natureza festiva e alegre, aproximam os homens, antagonizam com o sério e com o oficial-religioso. Também há certa desmistificação do corpo, com sua exibição despudorada e afirmativa. Observa-se ainda o mesmo caráter de jogo: ainda que temporariamente, os homens despem-se de suas responsabilidades diárias e dos limites diversos que lhe são impostos para sentirem-se infinitos e experimentarem o mundo, de maneira sensível e material, livre e sem culpa.
De modo semelhante à carnavalização da praça pública na Idade Média, os espaços virtuais online adquiram certa atmosfera carnavalizada na modernidade, a partir da assimilação de certas formas e símbolos, de certa linguagem e de certa atitude carnavalesca.
Um fenômeno claramente observado é o riso popular ambivalente, que ri de tudo e de todos, no qual também se inclui quem ri. As chacotas e brincadeiras online criam os populares memes - certa construção frasal reiterada diversas vezes, em situações diversas, como algum tipo de jargão cômico; ou imagens de pessoas ou personagens destacadas de seu contexto original para expressar um determinado sentimento ou reação geral, aplicado em outras situações estranhas e engraçadas. Ainda pode-se pensar, a partir dos memes, no motivo das máscaras carnavalescas.
Há certa fama dos brasileiros, internacionalmente, quanto ao uso que estes fazem das redes sociais, de que, para os brasileiros, “a zoeira não tem fim”. De modo que se escarnece de tudo, principalmente de assuntos sérios, tais como a crise política e econômica atual, ameaça terrorista, surtos de doenças como a zika e a dengue, tragédias naturais, preconceito e segregação sofrida por parte das minorias (mulheres, negros, gays) etc. Especialmente os aspectos negativos do cotidiano são tratados com irreverência, descontruídos e reafirmados sob forma risonha e festiva, ambivalente.
Outro ponto de convergência entre esses dois referenciais é que há flexibilidade quase absoluta nas relações hierárquicas nas interações ocorridas por meio da internet. Os espaços virtuais tendem a ser bastante democráticos e livres. Todos têm direito à palavra, a manifestar sua opinião livremente, sem que disso dependa qualquer outro aparato ou meio econômico além do acesso à internet – mesmo que o acesso à internet em si já dependa de outros fatores hierárquicos da sociedade atual.
Ainda que tenham se construído certas hierarquias, a depender do domínio e dos valores capitais que se desenvolveram dentro dos próprios ambientes virtuais, tais como número de seguidores, de visualizações, de curtidas etc., existe uma fluidez inquestionável dessa hierarquia em comparação com a hierarquia oficial, presente em outras esferas de atividade. As pessoas se engajam mais corajosamente, expressam seus pontos de vistas e assumem posições responsivas frente a outros discursos, de maneira universal e desinibida, numa espécie de desalienação de si mesmo e dos outros despertada pelo ambiente virtual interativo, de modo que há um contato livre e familiar mesmo entre pessoas desconhecidas.
A comparação com a interação em outras mídias, em telejornais e revistas por exemplo, deixa esse traço bastante claro. Nos meios virtuais da Web 2.0, os participantes têm voz ativa; suas opiniões são relevantes; o ato de curtir, comentar, compartilhar e emitir reação negativa (unlike) tem um impacto maior e mais imediato do que em qualquer outra mídia. Além disso, a maioria dos domínios online propiciam o contato livre e direto com os demais usuários, tornando essas experiências mais coletivas e universais – em oposição à experiência individual e monológica de assistir a um telejornal ou ler uma revista.
Por essa razão, surgiu, de modo semelhante à praça pública bakhtiniana, uma linguagem própria da Web 2.0, que expressa essas formas e símbolos
carnavalizados. Essa linguagem é distensa, prima pela rapidez da expressão e tende a aproximar as pessoas, na grande maioria das suas formas de comunicação: uma linguagem franca e sem regulações muito rígidas, quanto às normas da língua, que inclui gírias, palavrões, expressões populares, vocábulos estrangeiros, obscenidades. Além disso, por permitir a fusão de muitas formas de linguagens - vocal, verbal escrita, imagem, vídeo –, ela também apresenta formas de expressão exclusivas, como os
memes já citados, os gifs, emoticons, dentre outros.
Esse contato livre e direto, desinibido, cria uma atmosfera fértil e acolhedora, democrática, como a terra após o instante da criação do universo, na qual tudo o que se planta germina. Entretanto, é importante lembrar que a linguagem é uma arena de batalhas, de modo que esse contato direto e familiar nem sempre ocorre de maneira pacífica: ele pode ser problemático, áspero, inquietante, desestabilizador. O que é importante compreender é que esse espaço acolhe todas as formas de expressão, de maneira universal. Essa liberdade gera as atitudes transgressivas, ousadas, de desconstrução e reconstrução, típica atitude carnavalesca, irreverente por natureza. Assim, a Web 2.0 também leva à tona temas e questões reprimidas, tanto de foro íntimo quanto questões coletivas, em termos morais, políticos, culturais, religiosos e econômicos.
Os meios virtuais ainda trazem a possibilidade da encarnação de uma persona, alter ego ou algo parecido – relacionado ao motivo da máscara carnavalesca – sob a forma de perfis fake e pelo anonimato. Nesse aspecto, o caráter de jogo dentro do carnaval é bastante relevante. O nosso ponto de vista é de que esses mecanismos têm caráter ambivalente, afirmativo e positivo, contrariando a opinião geral negativa para estas expressões: de que esconder-se ou tornar-se outro é um ato de covardia. Sob a ótica do carnaval, os perfis fake e o anonimato são formas de possibilidades, num tensionamento da vida para além dos limites do real, para a fantasia. É a possibilidade de uma outra vida, livre e festiva, de uma outra face, dentre as várias que temos, de burla das proibições e limites impostos, por diversos motivos, na vida ordinária.
Em suma, é possível perceber nos ambientes online, na Web 2.0, uma atmosfera de liberdade e ousadia que tem em sua natureza a centelha do carnaval popular da Idade Média. Ela é, portanto, o espaço socialmente construído com tais características: a nova praça pública. Propicia o contato livre e familiar, a partir de uma
linguagem típica, cheia de riso festivo, ambivalências e fantasias. Sua natureza remonta às utopias de liberdade, igualdade e abundância.
As considerações superficiais feitas nessa seção certamente não resolvem a questão das comunicações por meio da rede internacional de computadores nem de sua natureza carnavalizada, mas na verdade aponta para a necessidade de aprofundamento exploratório do tema em pesquisas futuras. Nossa analogia apenas testa alguns aspectos dos modos de ser e de agir online, sem que esses sejam, também, os únicos modos possíveis de interpretação, nem os conclusivos. A compreensão real e plena dessa questão só será alcançada, obviamente, com a colaboração de diversas pesquisas, das mais diversas áreas, a fim de que se possa criar um mosaico de visões que, unidas, possam representar os muitos aspectos da cultura moderna, a partir da Web 2.0.
Essas considerações, no entanto, pretendem mostrar um horizonte conceitual e material a partir do qual surgem as fanfics. Elas são o resultado da gestação de todos esses fatores. Sob a ótica do carnaval, nasce em praça pública e é irreverente, afirmativa e ambivalente, além de apresentar linguagem carnavalizada. Sobre os aspectos de carnavalização da linguagem em fanfics, discorreremos no capítulo de análise do corpus.